Bem-vindo (a) ao site do Porvir

Aqui, mapeamos, difundimos e promovemos a troca de práticas educacionais inovadoras

Boas inspirações!

crédito Solovyova / Fotolia.com

Inovações em Educação

7 caminhos para dar sentido ao ensino médio

Fundação Victor Civita perguntou a alunos de baixa renda o que acham da escola; o resultado: os jovens não veem utilidade nela

por Patrícia Gomes e Vagner de Alencar 1 de julho de 2013

Oferecer um ensino médio de qualidade, aqui ou em muitos países do mundo, é um grande desafio. Quando a população atendida é de baixa renda, então, os indicadores são ainda mais cruéis: são poucos jovens os que chegam a essa etapa da educação, menos ainda os que o fazem na idade certa (no Brasil, conclusão com até 19 anos), os que estão lá muito frequentemente têm acesso a um ensino de qualidade ruim, as taxas de evasão são altas e o aprendizado adquirido com as aulas normalmente é considerado insuficiente nas avaliações oficiais do governo. Diante desse quadro, a Fundação Victor Civita foi a campo perguntar aos jovens de 15 a 19 anos de São Paulo e Recife, com renda familiar de até R$ 2.500, o que eles pensam da escola.

O resultado, tomado a partir da perspectiva dos alunos, foi sintetizado em cinco grandes problemas: falta de conexão entre a escola e o projeto de vida de cada um, currículo fragmentado e com poucas aulas práticas, baixo uso de tecnologia em sala, falta de professor e também de infraestrutura e de segurança (confira infográfico). Em resposta a esses pontos, os especialistas da fundação trouxeram sete recomendações distintas. Vasculhamos nossos arquivos e encontramos alguns exemplos que podem ser meios de viabilizar as sugestões da pesquisa. Veja!

Aproximar a escola do universo dos alunos e proporcionar aprendizado significativo

Talvez a maior conclusão da pesquisa, da qual advém direta ou indiretamente todas as outras, é a de que os jovens não veem sentido na escola. Assim, agrupamos duas das sugestões apresentadas separadamente na pesquisa que se relacionam intimamente com esse achado: aproximar a escola do universo dos alunos e proporcionar aprendizado significativo.

De acordo com a pesquisa, as duas únicas disciplinas que os jovens disseram ter alguma utilidade em suas vidas são matemática (77,6%) e língua portuguesa (78,8%). Depois dessas duas, aparece o inglês, com 41,4%, e as demais vão diminuindo gradativamente a importância até chegar em literatura, com apenas 19,1% dos alunos dizendo ver serventia na matéria. A falta de conexão entre a escola e o que os alunos desejam para as suas vidas acaba sendo uma justificativa para as taxas de evasão do ensino médio. De acordo com a Pnad 2011, apenas 51,7% dos jovens entre 15 e 17 anos estavam matriculados nessa etapa.

O Porvir já trouxe iniciativas brasileiras que tentam ressignificar a importância de estar na escola, como os ginásios pernambucanos. Nessa concepção de escola integral, que já chega a outros estados do país, os alunos ficam o dia inteiro na escola, e têm uma carga de disciplinas eletivas. Com isso, os jovens podem estudar assuntos pelos quais mais se interessam, além de terem oportunidade de troca com colegas com interesses parecidos.

Internacionalmente, algumas experiências que merecem destaque são as redes norte americanas High Tech High e Summit. Em comum, essas escolas oferecem programas de acompanhamento individualizado dos alunos e um currículo com flexibilidade para que eles descubram e se dediquem às suas paixões. Em ambas, cada aluno tem um professor tutor, que serve de elo entre a escola e a família, e dá orientações personalizadas segundo o que cada um pretende seguir como carreira. A oportunidade de estudar assuntos que lhes interessa acaba fazendo com que os estudantes se engajem mais no seu aprendizado e tenham contato com informações que consideram “úteis” para sua vida futura.

Além dessas experiências, a metodologia de aprender por projetos, que ocorre tanto na iniciativa brasileira quanto nas norte-americanas, também é uma forma de envolver mais o jovem e colocá-lo no centro de seu aprendizado. Pelo método, chamado de project-based learning em inglês, os alunos devem desenvolver um projeto em grupo – as possibilidades são muitas: vão desde a construção de um robô capaz de fazer entender a voz humana até a criação de uma campanha de sustentabilidade para a escola. Normalmente, o desafio é multidisciplinar, o que obriga os alunos a lidarem tanto com conhecimentos práticos de várias disciplinas como com habilidades que lhes serão cobradas na vida, como a capacidade de trabalhar em grupo, resolver problemas e criticar resultados alcançados.

“Para mudar esse cenário [da falta de conexão entre vida e escola], é preciso que as escolas coloquem os alunos em posição de protagonismo. Nesse sentido, o uso integrado das tecnologias é fundamental”, afirma Angela Dannemann, diretora-executiva da Fundação Victor Civita, introduzindo a próxima sugestão trazida pela instituição.

Usar as novas tecnologias com propósito pedagógico

“Muitos dos entrevistados, mesmo sendo oriundos de famílias com rendas muito baixas, disseram ter acesso às tecnologias móveis, sobretudo com celulares. E a escola vira as costas para essa realidade”, afirma Dannemann. Segundo a pesquisa, 70,6% dos entrevistados disseram ter acesso à internet de casa e 57,6% usam celulares ou tablets para entrarem em sites ou em redes sociais.

Durante os grupos focais da pesquisa, falas dos alunos deixam essa realidade ainda mais evidente. “A professora nem sabia o que era Twitter, não entende o que a gente faz”, disse uma estudante de 15 anos de São Paulo. “Para mim, a escola parou no tempo. Eu trabalho, sou independente, no meu trabalho eu não uso o celular sempre porque eu sei que tenho que trabalhar. Mas quando tenho uma folga, pego o celular e fico na [inter]net. Na escola ficam controlando a gente”, disse uma jovem de 18 anos que abandonou os estudos e hoje trabalha como atendente numa pizzaria em São Paulo.

Os especialistas sugerem na pesquisa que a escola se dedique a desenvolver no jovem as competências exigidas no século 21. “De certa forma, os jovens estão sendo cada vez mais ‘empoderados’ em função de seu maior domínio das novas tecnologias de comunicação e informação. Trata-se de uma geração que se coloca, frequentemente, na posição de ensinar os pais e, não raro, os próprios professores”, diz o relatório final. Além do acesso à tecnologia, os professores precisam estar capacitados para utiliza-los para melhorar a qualidade e a atratividade das aulas, recomenda o estudo – o que se relaciona com a próxima recomendação.

Como uma das estratégias para aproximar o universo de professores e alunos da tecnologia, uma das possibilidades trazidas pelo Porvir é o uso de objetos digitais de aprendizagem gratuitos disponíveis na internet, como as aulas da Khan Academy (muitas das quais já dubladas para o português).

Garantir professores presentes e preparados

Uma das reclamações mais frequentes entre os alunos que haviam abandonado os estudos, afirma Dannemann, estava no fato de os professores faltarem muito e não construírem laços com os estudantes. Entre os que frequentam a escola, há uma maior compreensão sobre a rotina do professor, o que não se repete entre os que já abandonaram os estudos.

“Vários desses conflitos foram narrados por participantes. Apesar da existência de algumas narrativas mais dramáticas, na maior parte dos casos, a descrição dos jovens justificava esses conflitos recorrendo a argumentos atenuantes, como a sobrecarga de trabalho por parte de alguns profissionais, somada à quantidade excessiva de alunos”, apontou o relatório final. As sugestões da fundação passam por ter melhores salários, plano de carreira e uma formação adequada, além de oferecer condições para que a profissão seja mais valorizada na sociedade.

Outra possibilidade de fazer com que os professores se tornem mais presentes e preparados está a capacitação da classe para trabalhar com o ensino híbrido, metodologia em que o docente torna-se o responsável por mediar a troca de conhecimentos, e não mais representa o dono da sabedoria. Nesse tipo de ensino, conhecido em inglês por blended learning, o professor mescla momentos de ensino a partir de recursos virtuais com circunstâncias de troca presencial de informações e experiências. Esse tipo de dinâmica ressignifica a presença do professor, tornando-a mais importante e mais estratégica.

 Melhorar a infraestrutura e zelar pela segurança

A melhora da infraestrutura trazida pela pesquisa diz respeito a condições de insumos básicos, como possuir carteiras, lousas, bibliotecas, boa conservação da escola no geral. “Isso pode ser feito logo. Mas é preciso envolver os jovens. Se não, o aspecto da escola pode até melhorar, mas não dura”, afirma Dannemann.

Assim como na questão da infraestrutura, a segurança, apontada pela pesquisa como um item separado, também tem melhoras significativas quando a comunidade passa a fazer parte do cotidiano escolar. Iniciativas que trouxeram a comunidade para dentro da escola, como a da escola Campos Salles, em Heliópolis, ajudam a diminuir as ocorrências de violência.

Diversificar modelos de formação

Outra das recomendações trazidas pela pesquisa está a elaboração de vários modelos de ensino médio, de forma a atender às diferentes demandas da população de baixa renda. “Precisamos de uma mudança cultural. Não precisamos ter um modelo só no país inteiro. Temos é que ter modelos diferentes, de acordo com a necessidade dos alunos”, afirma Dannemann, que cita como urgentes a adoção de modelos profissionalizantes, para os alunos que já queiram aprender um ofício, um ensino noturno de qualidade, voltado aos estudantes que precisam trabalhar durante o dia, e os modelos de educação integral, em que poderão se matricular os jovens que dispõem do dia inteiro para os estudos.

crédito Regiany Silva / PorvirPesquisa pergunta: o que os jovens de baixa renda pensam da escola?

TAGS

aprendizado baseado em projetos, ensino híbrido, ensino médio, geração y, pesquisas, projeto de vida, tecnologia