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Crédito: Maria Victória Oliveira

Como Inovar

Alunos escrevem e publicam livro coletivo em oficina

Fabriqueta de Histórias mistura estudantes de escolas públicas e privadas para produzirem um livro juntos

por Maria Victória Oliveira 6 de dezembro de 2016

Criar mundos de fantasia ou dar vida e sentimento a objetos inanimados? Tudo é possível na imaginação de uma criança. E por acreditar que é preciso aproveitar essa imensa capacidade de criação e incentivar que os pequenos contem suas histórias, Josephine Bourgois criou a Fabriqueta de Histórias, uma oficina que dá oportunidade para crianças e jovens desenvolverem a escrita criativa, a partir da produção de um livro coletivo.

A relação de Josephine com a literatura começou cedo, quando ainda era pequena. Por ter nascido em uma família de editores, a francesa radicada no Brasil teve a oportunidade de conhecer escolas e projetos educacionais que acreditavam no poder de transformação de um livro, ideia que sempre a acompanhou. Seu contato com o meio editorial aumentou significativamente depois de ter sido a diretora, durante 5 anos, da Flip (Feira Literária de Paraty).

Mas a ideia de criar a Fabriqueta veio quando Josephine conheceu o projeto 826 Valencia, do escritor e editor Dave Eggers. Trata-se de uma iniciativa norte-americana sem fins lucrativos que cede espaço para que crianças e jovens de baixa renda possam trabalhar suas habilidades criativas e de escrita. Depois de fazer um curso com os idealizadores do projeto, Josephine passou a acreditar ainda mais na ideia de inserir a criança em um outro universo, que incentiva a criatividade e imaginação. Ao procurar por iniciativas semelhantes à de Eggers em São Paulo, ela descobriu somente oficinas pontuais em SESCs e em alguns espaços culturais. “Em São Paulo, você pode mandar seu filho para aula de culinária, taekwondo, hip hop, inglês, mas não tem um lugar que a criança pode ir para contar histórias, que é um dos grandes prazeres da vida”, diz.

fabriqueta 03Alunos trabalham juntos na oficina de desenho. Crédito: Maria Victória Oliveira

O projeto colocado em prática em 2016 ainda leva em conta outras concepções de Josephine sobre literatura e percepções que têm sobre o Brasil, onde ela vive há 10 anos.  “Eu não acredito na literatura na sua torre de marfim. Eu acredito que ela tem que se conectar com a realidade. E no Brasil, nós vivemos uma experiência educacional segregada. As crianças do lado de lá e de cá da ponte, como se costuma falar, não convivem na cidade, nos hospitais, nos ônibus,  em lugar nenhum. E eu acho que essa segregação acarreta uma série de narrativas de desconhecimento e de preconceito”. Por isso, as oficinas oferecidas pela Fabriqueta de Histórias têm turmas formadas por crianças de escolas públicas e privadas. Segundo a criadora, trata-se de uma vontade de criar uma “ficção de igualdade na condição de autor”.

As oficinas

O projeto já promoveu quatro oficinas, cada uma delas com cinco encontros, um por semana. Ao final desse período os alunos têm um livro pronto. Três dias são dedicados à escrita, um dia é voltado à ilustração e o último dia é reservado à impressão e seção de autógrafos. Atender alunos de escolas públicas foi possível graças a parcerias com instituições como as escolas Estaduais Ministro Costa Manso e Carlos Maximiliano, e com outros projetos, como o Arrastão, que dá suporte a famílias da região do Campo Limpo, em São Paulo. Já as vagas para alunos de escolas particulares foram divulgadas nas redes sociais.

A oficina de desenho é o último passo antes da publicação dos livros.

Antes de chegar na fase do lançamento, é preciso escrever o livro. Esse processo todo começa quando os alunos chegam ao espaço da Fabriqueta. “Eu me reúno com o autor ou a autora que vai nos ajudar e nós decidimos um ponto de partida”. Na primeira oficina realizada, Josephine conta que o pretexto comum a todos os alunos foi baseado em uma notícia sobre os objetos mais insólitos encontrados em achados e perdidos. “Nós compramos miniaturas desses objetos, como crânios e armaduras medievais, e deixamos que eles escolhessem um ponto de vista: o de quem perdeu o objeto, o próprio objeto, ou um outro objeto da caixa que ficou com ciúmes do que foi resgatado”, por exemplo.

A partir de uma ideia em comum, cada aluno escreve seu texto, que fará parte da produção coletiva que, no último encontro, dará origem ao livro. Nas três aulas que são dedicadas à escrita, a ideia é que os alunos consigam desenvolver pelo menos duas versões do texto. A partir disso, Josephine e os parceiros que a ajudam na realização do projeto fazem o papel de editores, revisando o texto das crianças e apontando questões que elas apresentam dificuldades.

Com quatro oficinas realizadas, Josephine conseguiu o apoio de diversos autores para acompanharem e incentivarem as atividades dos estudantes. Antonio Prata, Estevão Azevedo, Noemi Jaffe e Andrea del Fuego são só alguns dos nomes que acreditam que qualquer um pode contar uma história. Essa proximidade com autores tem, segundo Josephine, três propósitos básicos: o primeiro deles é inspirar os alunos com a trajetória dos escritores. Depois vem a ideia de provar que o mundo da literatura é de carne e osso, mostrando às crianças que não existe a concepção de que “só pode escrever quem sabe escrever bem” e sim que “a escrita está ao alcance de cada um de nós”. O terceiro propósito é oferecer a possibilidade do autor ajudar no processo de escrita do livro. Como a duração das oficinas ainda é bastante curta, os autores conseguem participar de toda a trajetória, lendo os textos e dando feedback para as crianças. Além disso, a ideia é permitir que os alunos participem da revisão e edição do livro.

Durante as oficinas, alunos recebem feedback sobre seus textos e participam do processo de edição. Crédito: Maria Victória Oliveira

Na última oficina realizada, Noemi Jaffe foi a autora convidada para acompanhar o processo. O tema escolhido foi “mundos imaginários”. “Nós queríamos trabalhar esse processo de criação. Os estudantes criaram um país imaginário, que chama País Sem Nome, todo um sistema de saúde, serviços, educação e até uma nova língua. Nós trabalhamos os neologismos (criação de novas palavras) do autor Guimarães Rosa e montamos um glossário”.

Os impactos do projeto

O processo de revisão feito com a participação dos estudantes os ajuda, segundo Josephine, a entender convenções da língua portuguesa e a ter um melhor desempenho nessa disciplina. Essa absorção das regras ortográficas ficou muito clara no caso da aluna Ana Beatriz. Josephine conta que a menina não usava pontuação em suas produções. “Quando eu mostrei para ela o que isso fazia com seu texto, de não poder respirar ao lê-lo, tornando-o incompreensível, ela começou a entender por que as frases têm ponto final. Essa noção de período, que ela não tinha entendido, de repente fez sentido porque ela viu o efeito no texto que ela mesma produziu”.

fabriqueta 05Livros produzidos em outras oficinas na Fabriqueta de Histórias. Crédito: Maria Victória Oliveira

A melhor compreensão das regras gramaticais e ortográficas, juntamente a elaboração de um plano de escrita, constituem um dos três pilares do projeto. O segundo diz respeito ao desenvolvimento de competências socioemocionais. Josephine explica que, além dos alunos se relacionarem melhor com a língua, eles têm a possibilidade de se desenvolverem enquanto indivíduos. “Existe a questão da cooperação, porque eles trabalham muito juntos, leem seus textos um para o outro; a questão do prazo, que é bem apertado; da autonomia, porque eles precisam tentar fazer o máximo possível sozinhos e muitas outras”.

O terceiro pilar é representado pela questão de unir diferentes públicos e faixas etárias em uma única oficina. “A nossa ideia é promover uma ficção de igualdade na condição de autor. Então quando o livro é impresso, os nomes dos alunos aparecem na capa sem nenhuma distinção”, diz.

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competências para o século 21, cursos, experimentação, negócios de impacto social, socioemocionais