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Crédito: Arquivo Pessoal

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Colaboração entre alunos vira o jogo na aula de cálculo

Para estimular a paixão pela matemática, professor da UnB Ricardo Fragelli aposta em metodologias que dão protagonismo ao aluno e leva atividades até para shopping center

por Vinícius de Oliveira 6 de maio de 2016

Para um aluno recém-chegado às engenharias, cada aula da disciplina de cálculo, no ciclo básico de matemática, pode impor complicações inimagináveis. Aqueles pontos que eram vistos como problemáticos, mas que não impediam a progressão durante a fase escolar, pouco a pouco se tornam uma uma bola de neve difícil de ser controlada. Some-se a isso a maior distância entre professor e aluno durante o ensino superior e pronto: índices de reprovação chegam às alturas. Na UnB (Universidade de Brasília), o uso de metodologias que estimulam a colaboração e colocam o aluno como protagonistas tem virado esse jogo, aumentando notas e a motivação para alunos prosseguirem no curso.

Logo no início do curso do professor Ricardo Fragelli, a turma recebe o recado de que a abordagem vai ser diferente. “A gente pede para o estudante olhar para o colega que está do lado no primeiro dia de aula. Todos olham uns para os outros. E aí eu falo: Um dos dois não vai passar”. O que poderia configurar uma estratégia que atiçar as rivalidades e apavorar a turma, é na verdade um convite para que todos deixem em casa o individualismo. “Eu não faria uma brincadeira como essa se nela própria não estivessem contidos o entendimento e a própria solução do problema. Por que existe 50% de reprovação? Porque quando você fala com o aluno e diz que um dos dois não vai passar, provavelmente ele pensa assim: o outro cara tá lascado”. Na abordagem de Fragelli, tudo começa pela colaboração, tal como no filme “300”. Lançado em 2007, o épico conta com a participação do ator brasileiro Rodrigo Santoro e faz uma releitura fictícia das Guerras Persas ocorridas durante o século 5 a.C. Apesar de ter apenas 300 homens, o exército espartano resiste graças a sua coesão. E é esse ideal que as aulas de cálculo buscam resgatar.

Nas provas de Fragelli, aqueles que tiverem se saído mal têm a possibilidade de repetir a avaliação. Para isso, o professor divide a classe em grupos formados por estudantes com diferentes níveis de aprendizado, que devem fazer reuniões constantes para apoiar os que enfrentam dificuldade com o conteúdo. “Os objetivos dos que se saíram bem não é mais estudar para uma prova, é mais nobre, ensinar alguém. Quando se faz isso, aprende-se muito mais, e os que já eram bons, se tornam excelentes”, diz Fragelli.

Imagem de Amostra do You Tube

O impacto da cooperação entre os estudantes também extrapola o lado acadêmico e ameniza a temperatura ambiente durante as avaliações. “Só de aplicar uma prova, 25% da turma está reprovada. Pode não parecer, mas o nível de nervosismo e ansiedade é visceral. Com o 300, o aluno recebe um abraço de um desconhecido e ninguém na sala se sente isolado”, descreve.

A metodologia 300 é apenas uma das colocadas em prática pelo professor da UnB. Em outra atividade, chamada Summaê, as aulas se transformam em um show de auditório, em que as perguntas são feitas por meio de vídeos criativos enviados por celebridades como o astronauta Marcos Pontes, o comediante Rafinha Bastos e o jogador de futebol Alexandre Pato. Os estudantes também são convidados a produzir vídeos com os conteúdos dos cursos — já são mais de 2.000 deles no YouTube. Assim como 300, essa metodologia tem como intenção levar os alunos a compartilharem o conhecimento adquirido durante as aulas. Mas de onde vêm tanto empenho em ajudar?

Quando o professor resolve uma questão no quadro, […] está roubando a oportunidade para o estudante aprender com seu próprio erro e com sua própria experiência

Fragelli defende que antes de se preocupar com benefícios como aprimoramento do raciocínio lógico e da criatividade, é necessário que se trabalhe a paixão do estudante em aprender. Foi por isso que lançou há seis anos o evento Rei da Derivada, que reúne 400 estudantes em locais como rodoviárias e shopping centers em uma maratona — colaborativa, é claro — de exercícios de até 20 horas. “Eles vencem certos medos, como ir ao quadro e, depois, começam a melhorar as notas. Em uma turma de 135 estudantes, o número de pessoas que tiram entre 8,5 e 10 não passa de cinco. Com o Rei da Derivada, esse número passa alcança 55. O aluno também começa a perceber que, se tiver outras estratégias, pode fazer de maneira mais rápida e elegante, o que na matemática também significa simples”.

DSC_0198pCrédito: Izabela Cardoso

Com erros cometidos e resolvidos entre amigos, o professor da UnB diz ter redefinido seu papel diante dos alunos. “A minha ideia é mostrar que, quando o professor resolve uma questão no quadro… é meio agressivo o que eu vou falar, o professor está roubando a oportunidade para o estudante aprender com seu próprio erro e com sua própria experiência”. Com sua turnê que já chegou a 12 eventos em seis anos, Fragelli diz que a preocupação é outra. Os alunos vão ao quadro e a estratégia do professor passa a ser a de estimular pequenos erros. “Ele propõe questões e, com 400 pessoas fazendo ao mesmo tempo, o aluno percebe que errou de uma forma e a outra pessoa errou de outra, e aprende com ela. Depois de alguns minutos, os alunos passam a não cometer erros. É um aprendizado incrível”.

* Ricardo Fragelli é um dos palestrantes da oitava edição do Fórum de Lideranças: Desafios da Educação, que acontece no dia 12 de maio. O evento é promovido pela Blackboard e pelo Grupo A Educação, e tem como tema “O ensino centrado no aluno”. Para mais informações, visite nossa seção Acontece

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aprendizagem colaborativa, autonomia, ciências, competências para o século 21, ensino superior, socioemocionais