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Como devem ser estruturados os processos de escuta nas escolas?

Para a psicóloga Paula Chieffi, uma gestão democrática pressupõe a criação de um “estado de escuta” permanente, que não se traduz apenas em momentos pontuais

por Ana Luiza Basílio, do Centro de Referências em Educação Integral 9 de fevereiro de 2017

As recentes manifestações estudantis pelo Brasil deixam um recado claro: os estudantes querem participar ativamente das decisões que definem não só o funcionamento da escola que frequentam, mas de toda política educacional do país.

gestão democrática está amparada na Constituição Federal, mas ainda é uma prática pouco adotada. A maioria das unidades da rede ainda não consegue viabilizar e incentivar a participação de estudantes, funcionários, familiares e professores nos rumos da escola.

Um dos primeiros passos de um gestor que busca avançar nesse sentido é garantir que as pessoas tenham espaços de fala garantidos. Entretanto, há outro aspecto fundamental, na outra ponta: a escuta.

Veja também: Relatório e vídeos da Pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção

A psicóloga Paula Chieffi, que vem se debruçando sobre o tema em sua pesquisa de doutorado realizada no Departamento de Filosofia e Educação da Faculdade de Educação da USP, defende a necessidade de uma escuta diferenciada no campo educacional, que ela denomina de “escuta clínica”, uma expressão mais comum no vocabulário de psicólogos e psicanalistas.

“A escuta clínica não acontece necessariamente em um consultório e se materializa quando uma pessoa se coloca e o grupo acolhe essa fala. Se isso não acontece, a escuta não se materializa”, considera.”

A especialista, que também tem um percurso como educadora e já teve a oportunidade de mediar processos pedagógicos, entende que a escuta é um denominador comum entre as áreas clínica e educacional. “Em ambos os trabalhos, é preciso sustentar um campo de conversa que tem a ver com esse lugar da escuta que permite falas de experiências e pensamentos sem um crivo pedagógico ou moral”, observa.

É comum que, ao serem questionados sobre a participação em suas escolas, os estudantes tragam relatos de reuniões isoladas para as quais foram chamados, sem que isso aconteça de forma sistêmica

Estruturando a escuta

O ponto de partida para trabalhar com a escuta é entendê-la como um processo perene e criar condições para que ela ocorra de forma qualificada. Paula Chieffi fala de um “estado de escuta” permanente, que não se traduz apenas em momentos pontuais ou localizados.

“É comum que, ao serem questionados sobre a participação em suas escolas, os estudantes tragam relatos de reuniões isoladas para as quais foram chamados, sem que isso aconteça de forma sistêmica”, conta. Entre os 132 mil adolescentes e jovens brasileiros que participaram da pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção, realizada pelo Porvir em parceria com a Rede Conhecimento Social, apenas 28% disseram que participam das decisões sobre a escola.

A escuta pede a abertura da escola e de seus processos, ou seja, as informações precisam circular, as pessoas precisam se colocar e é preciso apresentar os limites, as negociações possíveis e as questões inegociáveis

Para colocar a escuta em um espaço estruturante, recomenda-se que a escola explicite essa intencionalidade e busque consensos entre seus diversos atores sobre o porquê dessa proposta. Paula pontua que são esperadas resistências por parte dos que não veem sentido na prática, em um primeiro momento. Nesse caso, sugere que os trabalhos sejam iniciados junto aos interessados, para que o ambiente possa sentir os efeitos aos poucos.

Outro passo importante é, para além do estado permanente de escuta, instaurar espaços com periodicidade fixa para que os participantes possam se habituar a acompanhar os debates e se apropriarem das pautas, análises, encaminhamentos e o tempo de execução de uma decisão.

As pessoas tem a falsa ideia de que escutar é se subjugar ao outro e que portanto as demandas apresentadas precisam ser atendidas, e isso não é verdade. O compromisso é com o acolhimento e encaminhamento das demandas

Em relação ao caráter desse espaço de fala/escuta é recomendável que cada unidade estruture esse momento da forma como lhe parecer mais adequada às necessidades. Pode ser por meio de fóruns, conselhos, assembleias, ou ainda ocorrer de maneira mais informal, como em uma roda de conversa.

Também é importante que os participantes – diretores, coordenadores, estudantes, familiares e demais funcionários – assumam compromissos compartilhados, para que a escuta não dê margem a processos centralizados em uma única figura, como a do diretor, por exemplo. É importante garantir que a palavra circule, que todos possam falar e que todos se escutem.

Por outro lado, a escola precisa também deixar claro quais seus limites e princípios. “Esses processos acontecem de maneiras diferentes, de acordo com a realidade de cada instituição. No entanto, é preciso estar ciente que o processo de escuta pede a abertura da escola e de seus processos, ou seja, as informações precisam circular, as pessoas precisam se colocar e é preciso apresentar os limites, as negociações possíveis e as questões inegociáveis”, reforça Paula.

Por essa razão, a especialista entende que os processos de escuta pressupõem gestões democráticas, dispostas a dar ouvidos às interpelações que surgem nos ambientes escolares. “É preciso promover também uma escuta da vida da escola, do que acontece nela, do que está funcionando, do que não está… Decupar esses processos também é uma forma de extrair bons indicadores e pistas sobre essa dinâmica”, considera.

Por fim, a especialista aponta alguns cuidados que devem ser tomados. Um deles diz respeito a interpretação errônea que muitas pessoas fazem do processo de escuta e que, na visão de Paula, justificam algumas resistências. “As pessoas tem a falsa ideia de que escutar é se subjugar ao outro e que portanto as demandas apresentadas precisam ser atendidas, e isso não é verdade. O compromisso é com o acolhimento e encaminhamento das demandas”, reforça.

Reportagem publicada originalmente no Centro de Referências em Educação Integral e reproduzida mediante permissão.

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educação democrática