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Diário de Inovações

Cultura local e canções se transformam em estratégia de alfabetização

Professor de escola pública do Recife (PE) relata como usou músicas de artistas da periferia para trabalhar estruturas silábicas com os alunos

por Givanilson Soares da Silva 11 de outubro de 2017

Iniciei um trabalho de alfabetização por meio da música com a minha turma do 3° ano do ensino fundamental. Compondo e parodiando canções, trabalho as estruturas silábicas em um processo lúdico no qual os alunos cantam as sílabas para depois terem contato com a formação de palavras.

Além usar as minhas próprias composições, eu sempre levo em consideração o gosto musical da classe, criando paródias das músicas que eles escutam. Apesar da escola estar situada em uma região periférica, ainda há um preconceito significativo no que se refere à cultura local. Levar músicas de artistas da periferia para sala de aula ainda é uma barreira que precisa ser quebrada, pois em nenhum momento da vida escolar esses tiveram a oportunidade de trabalhar os ritmos e as canções que escutam em suas próprias casas e na comunidade onde residem.

Nas minhas aulas, sempre trabalhei com a música paralelamente. Usava bastante em projetos específicos ou voltados a datas comemorativas. No entanto, quando iniciei o ano letivo, percebi que tinha assumido uma turma com uma defasagem no aprendizado muito alta. Vi que precisa de uma estratégia mais dinâmica para atrair a atenção deles, levantar alto estima e melhorar a participação dos mesmos.

O reflexo da violência também era outro entrave a ser vencido, pois eles apresentavam comportamento agressivo com muita frequência. Acreditando na música como uma ferramenta eficaz de ensino e respeitando o gosto dos discentes, consegui estabelecer uma mudança de postura da turma no que diz respeito à atenção, concentração e absorção dos conteúdos. Com as paródias das músicas que eles escutam no cotidiano consegui a atenção, respeito e o afeto da turma, estabelecendo uma relação mais efetiva de aprendizado.

Já no primeiro dia obtive uma resposta positiva. Até os alunos que aparentavam desinteresse se envolveram de maneira surpreendente, como se estivessem entrando em uma nova fase, em que o conhecimento seria obtido de maneira lúdica e agradável. A experiência foi especial, tanto para eles, quanto para mim, pois percebi que tinha nas mãos uma maneira de mudar aquele cenário e fazer com que eles pudessem avançar.

Estamos no quarto bimestre e o resultado desse trabalho se reflete diretamente na disciplina, concentração, gosto pelas aulas, respeito pelos colegas e, principalmente, no aprendizado. Com algumas músicas, paródias e instrumentos simples e acessíveis, como pandeiro, violão, chocalho, ou até mesmo apenas palmas e as vozes, consegui obter resultados positivos.

A turma mostra-se atualmente muito participativa, com a curiosidade e vontade de aprender aguçada. Eles gostam de interagir e trocar experiências entre si e conseguem realizar atividades em grupo. Segundo relatos das famílias, também mudaram comportamento em casa, pois algumas mães já me disseram que seus filhos chegam comentando sobre atividades. Eles fazem questão de fazer todas as tarefas enviadas e não gostam de faltar as aulas. Ou seja, graças a essas atividades musicais, a sala de aula tornou-se um ambiente agradável com experiências únicas de lazer e aquisição de conhecimento.

Givanilson Soares da Silva

Formado em pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco e especialista em gestão educacional pela Faculdade Joaquim Nabuco. Atua há quatro anos com turmas do Ciclo de Alfabetização da Prefeitura da Cidade do Recife. Trabalhou por dois anos vinculado a antiga Gerência de Animação Cultural (GAC), da Prefeitura da Cidade do Recife, como Animador Cultural, sendo responsável por aulas de percussão em escolas públicas da rede.

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ensino fundamental, música