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Inovações em Educação

Empreendedores ajudam a preencher lacuna entre educação e emprego

Solução para a falta de oportunidades de trabalho para jovens requer esforços combinados entre governos, corporações, comunidade e empreendedores, diz relatório

por Fernanda Nogueira 18 de dezembro de 2015

Quais são as lacunas entre educação e emprego? Como empreendedores focados na área de educação podem contribuir para atacar as falhas nas habilidades dos jovens e o desemprego? Que desafios eles enfrentam? Estas foram as perguntas feitas pelo relatório “Educação para o Século 22: como empreendedores podem ajudar a aproximar a educação do emprego”, realizado pela entidade internacional Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), a partir de discussões feitas no Brasil, na Índia e no Quênia.

“Educação e desenvolvimento de habilidades são duas questões muito importantes para todos os países atualmente. Muitos empreendedores trabalham na área de educação, mas nós não sabíamos quantos eram nem qual era seu foco, além da criação de escolas particulares de baixo custo. Não sabíamos quais eram os desafios específicos que trabalhavam para resolver nem os obstáculos que enfrentavam”, dizem Rebeca Rocha, gerente da ANDE no Brasil, e Stephanie Buck, autora do relatório e coordenadora de programas da ANDE Global.

Veja também: Plataforma Apreender traz orientações para empreendedores

A ANDE é uma rede com mais de 200 organizações participantes no mundo que trabalha para impulsionar o empreendedorismo em mercados emergentes. Com o suporte da empresa de tecnologia SAP, as discussões para o relatório contaram com a participação de ao menos 35 especialistas da área em cada país. No Brasil, foram 40 pessoas, além de 15 especialistas entrevistados. As discussões no país foram organizadas em parceria com organizações como Artemisia, Impact Hub, FGV e Semente Negócios.

A escolha de Brasil, Índia e Quênia ocorreu pelo fato de os três serem países onde o empreendedorismo prospera, principalmente no setor de educação. “Focando em países de continentes diferentes, achamos que conseguiríamos uma imagem global mais nítida do estado atual e futuro do empreendedorismo focado na educação ao mesmo tempo que nos certificaríamos de que quaisquer que fossem as descobertas elas poderiam ajudar, influenciar e ter impacto nos ecossistemas regionais da ANDE”, explicam Rebeca e Stephanie.

Empresas focadas em educação são parte da solução, mas elas, sozinhas, não são a solução. Elas têm um importante papel no preenchimento dos espaços entre a educação e o emprego, mas a resolução do problema requer esforços combinados entre corporações, governos, sociedade civil e empreendedores

Os problemas mais comuns encontrados foram a falta de competências, como comunicação, pensamento crítico e analítico e resolução de problemas, que são muito valorizadas pelos empregadores; falta de comunicação entre provedores de educação e empregadores; e local onde vivem os jovens e sexo. Para resolver essas questões, de acordo com o estudo, é essencial a coordenação entre os setores público e privado.

É neste ponto os empreendedores focados em educação podem atuar. Com o uso da tecnologia, eles ajudam empresas a reduzir os custos de programas de treinamento, melhoram o conteúdo e alcançam muitos jovens. Esses empreendedores também servem como uma ponte entre os provedores de educação e os empregadores. Conseguem ainda ser inovadores, trazendo novas ideias e novos métodos de educação capazes de atingir grupos marginalizados e de complementar o aprendizado dos estudantes, com jogos digitais, por exemplo.

No entanto, os empreendedores da área também se deparam com grandes obstáculos pelo caminho, como dificuldades para conseguir financiamento, para ter um entendimento profundo da educação e do mercado e para precificar seus produtos ou serviços. Dar escala ao trabalho, mantendo a qualidade, medir impactos e gerenciar as relações com governos são outros grandes desafios encontrados por eles.

Em sua conclusão, o relatório traz recomendações para governos, entidades públicas, corporações, ONGs e empreendedores sobre como podem atuar juntos para melhorar a educação e desenvolver as habilidades dos jovens. A sugestão para corporações é que façam parcerias com provedores de educação, tanto públicos como privados. Governos e escolas públicas precisam se abrir para vozes do setor privado que possam ajudar a desenvolver um currículo útil para a carreira dos jovens no futuro. Já ONGs e investidores devem dar suporte aos empreendedores, trabalhando diretamente com eles para atacar os desafios que enfrentam. Por último, os empreendedores precisam atuar para ultrapassar as barreiras que encontram e trabalhar para resolver os problemas antes mesmo de colocarem seus projetos em prática.

“Empresas focadas em educação são parte da solução, mas elas, sozinhas, não são a solução. Elas têm um importante papel no preenchimento dos espaços entre a educação e o emprego, mas a resolução do problema do desemprego dos jovens requer esforços combinados entre corporações, governos, sociedade civil e empreendedores”, afirma o estudo.

Os resultados das discussões mostraram ainda que os empreendedores conseguem o maior impacto na educação voltada para o emprego em quatro áreas: no desenvolvimento de plataformas e de conteúdo, no acesso e na acessibilidade, na construção de conexões e no fomento de inovações.

Cenário brasileiro
Duas empresas brasileiras aparecem como exemplos do uso da tecnologia para encontrar soluções para a educação. Uma delas é a Geekie, que foca no treinamento de estudantes para provas como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e oferece uma plataforma online que se adapta às necessidades e objetivos dos estudantes. “Eles fazem o estudo para estes exames mais eficiente, e atendem estudantes de escolas públicas e privadas. Mais de três milhões de estudantes usam a plataforma atualmente, e muitos deles são das regiões mais pobres do Brasil. Estudantes que usam a plataforma aumentam suas pontuações em 30%”, diz o relatório.

A outra empresa brasileira citada é a Já Entendi, uma pequena empresa focada no treinamento de trabalhadores de baixa renda, que transforma livros escritos e manuais de treinamento em conteúdo multimídia, como vídeos e aplicativos, para ajudar trabalhadores que tiveram uma educação de baixa qualidade a aprender. “A empresa trabalha com os empregadores para que estes possam desenvolver seus programas e, com isso, treinar melhor seus funcionários”, afirma o relatório.

Os empreendedores bem sucedidos definem seus objetivos de forma clara, usam dados para dar suporte a novas atividades educacionais, respeitam a experiência dos professores e dão suporte ao trabalho deles, e ganham o respeito de atores que estão fora da escola

Segundo o levantamento, as principais lacunas entre educação e emprego no Brasil são a falta de conteúdo de alta qualidade, capaz de aumentar as habilidades conhecidas como soft skills ou competências para o século 21 e as competências cognitivas dos jovens, a falta de acesso e de inovação, que permitam experimentar novas soluções e que atinjam mais jovens em risco e, por último, a falta de colaboração entre escolas e empregadores.

O estudo aponta que uma das principais formas para resolver a questão da falta de conteúdo de qualidade é a criação de cursos complementares e atividades para professores, incluindo produção de material digital para uso em sala de aula, sistemas de avaliação e infra-estrutura tecnológica. A falta de acesso e de inovação deve ser enfrentada com a experimentação e prática em sala de aula de processos personalizados para o desenvolvimento de habilidades como comunicação e pensamento crítico. Já a falta de colaboração entre escola e empresas é um dos maiores desafios, já que não está claro, de acordo com o relatório, como empreendedores podem ajudar neste setor no Brasil. O estudo sugere que projetos bem sucedidos de outros países sejam usados como exemplos.

No país, os principais desafios dos empreendedores focados em educação são o alto custo para experimentar novas soluções nas escolas, a falta de entendimento do mercado, a dificuldade de ir atrás dos clientes e a falta de espaço para testar e aumentar a escala dos modelos criados. “Os empreendedores bem sucedidos definem seus objetivos de forma clara, usam dados para dar suporte a novas atividades educacionais, respeitam a experiência dos professores e dão suporte ao trabalho deles, e ganham o respeito de atores que estão fora da escola. Qualquer solução sustentável precisa ainda aumentar a comunicação e colaboração entre provedores de educação, empresas e estudantes”, afirma o estudo.

Em relação aos outros países que fazem parte do relatório, o Brasil se difere principalmente no destaque dado pelos empreendedores na educação básica. Já na Índia e no Quênia, o ensino médio e a educação superior são mais enfatizados. A Índia se diferencia do Brasil e do Quênia, por outro lado, por ter um departamento governamental que procura aumentar a disponibilidade de treinamento técnico e de soluções de empreendedorismo voltados para o desenvolvimento de habilidades.

Além disso, o Brasil tem uma população urbana um pouco maior do que os outros dois países, o que aumenta as oportunidades e iniciativas para a educação para o emprego. “Estatisticamente, o Brasil tem também taxas de alfabetização mais altas e uma proporção menor de pessoas que trabalham na economia informal, comparado com Quênia e Índia. No entanto, encontramos um estigma parecido em relação à educação vocacional nos três países”, dizem as pesquisadoras.

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competências para o século 21, empreendedorismo, experimentação, geekie, negócios de impacto social, tecnologia