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Inovações em Educação

Escola pública no Grajaú adota o Design for Change

Alunos aprendem a resolver os problemas por meio de soluções empáticas, como ornamentar lixeiras e pintar portas pichadas

por Vagner de Alencar 7 de dezembro de 2012

Primeiro, os alunos precisam identificar os problemas que os incomodam na escola. Em seguida, imaginar alternativas para resolvê-los. Depois, colocá-los em prática. E, por último, compartilhá-los com todos. Essa sequência de ações acontece na escola municipal Padre José Pegoraro, no Grajaú, zona sul de São Paulo. Entre os diagnósticos feitos pelos estudantes está, por exemplo, o combate à sujeira. Para resolver o problema, um grupo decidiu substituir as tradicionais lixeiras pretas por outras mais divertidas. Enquanto isso, outra equipe se incumbiu de limpar os palavrões das portas dos banheiros. Iniciativas como essas fazem parte de um projeto-piloto realizado, desde o segundo semestre deste ano, pelo Design for Change, movimento global que desde 2006 encoraja crianças a mudarem a realidade de onde vivem usando o design. No coração do programa estão os verbos sentir, imaginar, fazer e compartilhar.

“Quando um designer projeta um móvel, ele precisa pensar não apenas na beleza, mas na funcionalidade. O mesmo se aplica na educação: por que não pensar na solução dos problemas de forma empática?”, afirma Carolina Pasquali, idealizadora do Design for Change no Brasil. Esse é o propósito na escola no Grajaú. Antes mesmo de os alunos porem a mão na massa, são os professores quem aprendem a atrelar o design thinking – que usa diferentes jeitos de pensar de um design para resolver uma determinada situação – à educação. Ao menos uma vez por semana, Carolina e mais duas parcerias acompanham o cotidiano da escola e dão workshops para ajudar os professores em atividades que adotem o conceito. “Entre as técnicas há, por exemplo, uma em que os professores estimulam os alunos perguntando até cinco vezes o porquê de um determinada situação de forma a ajudar que os estudantes deem respostas para chegar à raiz do problema. Isso serve para tudo: para a vida da pessoa e para a sala de aula em várias situações”, diz.

A história 

Muito antes de lançar, em fevereiro deste ano, a página em português do Design for Change, Carolina já namorava a ideia de longe. Se apaixonou pelo projeto depois de assistir a uma palestra no TED de Kiran Bir Sethi, fundadora do programa e que dirige até hoje uma escola na cidade de Ahmedabad. Começou a querer entender a história do Design for Change no Brasil. Mapeou no país possíveis projetos que adotassem o modelo. “Existia, mas não existia”, revela. “Um casal de franceses, que mora durante metade do ano no país e o outro em Buenos Aires, tem também uma casa no Ceará e realiza projetos sociais envolvendo o design”, afirma.

Carolina então pediu demissão do trabalho estável em uma empresa de comunicação e decidida a encontrar parceiros globais, participou, em novembro do ano passado, do encontro mundial sobre o tema, que reuniu pessoas de 38 países.

Até agora, o trabalho de Carolina é realizado de forma voluntária. Ela está no processo de abertura de uma ONG e a ideia é que, em 2013, participe de editais de educação e se aproxime das secretarias de educação para pensar em práticas em conjunto. Para projetos como no Grajaú, ela pede ajuda. Nesse caso específico, os estudantes se juntaram para se inscrever na Vakinha, em busca de R$ 1.300,00 para compras de tintas, sprays e papeis. Para alcançar esse valor, os alunos decidiram gravar  um vídeo em que contam como a iniciativa vai transformar a realidade deles e estão aceitando doações até o dia 16.

Veja o vídeo abaixo

Segundo Carolina, o Design for Change caminha de modo muito peculiar em cada nação. Em Israel, a iniciativa foi apresentada ao ministério de educação, que irá adotar o modelo no próximo ano em 1mil escolas do país. Já em Taiwan, os criadores abriram uma ONG para participar de editais. Enquanto, no México, uma fundação abarcou a iniciativa.

No Brasil, a primeira experiência acompanhada por Carolina aconteceu com alunos de uma escola de uma comunidade vulnerável em Santana do Parnaíba, interior de São Paulo, em parceria com uma ONG local. “No bairro, havia muitas casas que não haviam sequer agua encanada”, diz. Depois de identificar que um dos principais problemas na escola era o bullying, Carolina e sua trupe decidiram organizar a produção de um vídeo abordando a questão do desrespeito.

Com a ajuda de um MC do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, que levou toda a sua aparelhagem para gravar, os alunos comporam um funk. “Eles compuseram uma música que fala como era ruim zoar os amigos. Depois disso, espalharam o funk via bluetooth para todos da escola e ainda se apresentaram num sarau”, afirma.

Outra iniciativa, também no primeiro semestre do ano, aconteceu na Politeia, escola localizada na zona oeste paulistana e adepta da educação democrática (Veja no Porvir algumas matérias que trataram sobre escolas democráticas ). Os estudantes de uma turma de ensino fundamental 2 começaram a listar vários problemas e o principal deles foi a ausência de amigos. Dos dez alunos da turma, apenas três eram meninas.

Os adolescentes decidiram então produzir um vídeo contando o que era educação democrática e realizaram uma pesquisa para identificar porque os amigos de outros lugares nunca tinha se matriculado numa escola como a deles. Rifaram um quadro e com os R$ 200 anunciaram a escola no Google e criaram um verbete explicando o que é educação democrática. “De fato os anúncios levaram mais gente pro site, tiveram mais pais interessados, mas apenas dois alunos foram matriculados. Mas o mais interessante foi o envolvimento das crianças”, afirma.

Para os interessados em utilizar a metodologia, ela está disponível para baixar gratuitamente no site do projeto, num formato de guia, com orientações sobre como implementar o projeto nos espaços educativos.

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aprendizagem baseada em projetos, design, experimentação