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Transformar

‘Habilidade é tão importante quanto conhecimento’

Fundador da Studio Schools diz que aprendizado por meio de problemas reais melhora a chances de sucesso dos alunos

por Fernanda Kalena 18 de fevereiro de 2014

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Transformar

Aproximar empresas da escola e com isso fazer com que o aprendizado ganhe uma dimensão prática e real é a base do modelo de ensino aplicado nas Studio Schools, do Reino Unido. Por meio de projetos desenvolvidos em conjunto com empresas locais e que têm relevância para a comunidade, os estudantes, além de aprenderem as matérias tradicionais, desenvolvem outras habilidades que vão precisar para prosperar na vida. É isso que diz o inglês David Nicoll, diretor executivo da Studio Schools Trust, organização responsável pelas escolas.

De acordo com David, que estará presente no Transformar 2014, muitos jovens não se encaixam no sistema educacional atual por ele ser muito engessado, voltado para o currículo e  para as avaliações. Modelo que, segundo ele, não permite que os talentos e a criatividade dos jovens sejam estimulados, limitando as possibilidades de sucesso dos estudantes. “Criamos um novo modelo de escola para que os alunos adquiram uma visão significativa do mundo do trabalho”, afirma.  A escola segue os parâmetros do currículo nacional, mas o foco é permitir que o aluno desenvolva habilidades como empatia, colaboração, empreendedorismo, espírito de liderança e que esteja melhor preparado para lidar com problemas e desafios reais.

“Precisamos trabalhar com o sistema para mudar o próprio sistema. Julgamos que o sucesso de um sistema educacional não é baseado em resultados de exames. Habilidades deveriam ser vistas com a mesma importância que o conhecimento”, diz David em entrevista ao Porvir, onde afirma que o sucesso do modelo de ensino deveria ser medido alguns anos após a formação do estudante, levando em conta seu emprego, qualidade de vida e saúde.

Inaugurada em 2010, a rede conta hoje com 28 Studio Schools espalhadas pela Inglaterra e outras 13 devem ser abertas ainda este ano, para atender jovens de 14 a 19 anos (Leia matéria que apresenta a Studio School).

Confira a entrevista completa com David Nicoll:

O que motivou a criação das Studio Schools?
O sistema de ensino do Reino Unido, como em muitos lugares, é muito antigo e foi modelado para atender a uma demanda industrial de trabalho. Os empregadores esperavam que os estudantes se adaptassem a um ambiente de trabalho disciplinado, que fossem capazes de ler e escrever e aptos a seguir instruções. As escolas se organizaram com base nessa demanda.  Mas os jovens estavam deixando a escola com qualificações, mas sem competências de empregabilidade, ou como algumas pessoas chamam, habilidades não cognitivas, como resiliência ou a capacidade em lidar com problemas, inteligência emocional e confiabilidade, que são extremamente importantes nos ambientes modernos de trabalho.

Assim, desenvolvemos esse modelo por duas razões, por uma necessidade da sociedade em ter uma metodologia mais adequada à realidade, pois muitos estudantes não se encaixavam no formato tradicional e também por uma necessidade dos empregadores e o que eles querem ver em seus futuros empregados.

E quando a educação é levada para fora da sala de aula tradicional, quando os estudantes trabalham para produzir produtos tangíveis e úteis para a comunidade, a aprendizagem torna-se mais relevante e está enraizada no mundo real.

Quais os benefícios em envolver empresas com as escolas?
Normalmente trabalhamos com empresas de pequeno e médio porte, localizadas na região da escola, que possuem uma relação com a comunidade. Estamos pedindo para eles nos ajudarem a determinar as qualificações que a escola deve priorizar. Pedimos para envolver os estudantes em projetos e o mais importante, que seja oferecido a eles a oportunidade de fazerem estágios remunerados dentro das empresas. No caso de alunos do 10º e 11º ano, são quatro horas por semana de estágio e para estudantes dos 12º e 13º ano, dois dias por semana.

Isso os liga diretamente a oportunidades de emprego na região, eles adquirem habilidades mais práticas para a vida, que irão ajudá-los tanto se forem para a universidade quanto se preferirem entrar no mercado de trabalho.

Muitas vezes, os projetos são encomendado pelos empregadores locais. E quando a educação é levada para fora da sala de aula tradicional, quando os estudantes trabalham para produzir produtos tangíveis e úteis para a comunidade, a aprendizagem torna-se mais relevante e está enraizada no mundo real.

Qual o perfil do aluno que estuda na Studio School?
O modelo ainda é muito novo, existimos apenas desde 2010. Mas podemos perceber que os estudantes que saem da Studio School tendem a ter melhores habilidades interpessoais e são mais motivados. Vemos características de liderança aflorando, são mais confiantes e as habilidades para lidar com desafios aumentam.

A escola é compreensiva, respeita as características individuais para trabalhar com o todo. Os estudantes têm que trabalhar em conjunto, colaborativamente. Isso é passado para o aluno e por consequência vai refletir na comunidade em que ele vive.

E em relação ao currículo, quais os diferenciais desse modelo?
Todas as Studio Schools seguem o currículo nacional e oferecem as mesmas qualificações acadêmicas que as escolas tradicionais. A diferença não está no que é entregue ao aluno, mas em como o conteúdo é passado para ele. Diferente dos modelos tradicionais, trabalhamos com projetos empresariais multidisciplinares na escola e na comunidade em que ela está inserida. Não acreditamos que é possível ensinar todo o currículo por projetos, mas uma parte substancial pode ser feita dessa forma.

Acreditamos que é importante ver o que acontece com o estudante cinco anos depois que ele termina o período escolar. Como é seu emprego, sua qualidade de vida, sua saúde. É isso o que determina a qualidade do sistema de ensino, mas essas coisas são muito difíceis de serem medidas.

As Studio Schools são subordinadas a mesma regulamentação governamental que as escolas tradicionais. Isso foi uma escolha deliberada de nossa parte, não queríamos que elas fossem de algum modo menos regulares academicamente, é muito importante que sejam vistas e reconhecidas da mesma maneira que qualquer outra escola. Isso significa que temos que cuidadosamente planejar e mapear os projetos para que eles estejam de acordo com exames de avaliação nacional.

E os exames nacionais são a melhor forma de avaliação dos estudantes?
Como o governo pode apoiar uma escola, que ninguém sabe se vai ser bem sucedida? Governos tendem a medir coisas que são mais fáceis de serem medidas, eles olham para o resultado de exames e isso é determinante para acreditarem se a escola está indo bem ou não. E assim, os professores também tendem a focar suas aulas nisso.

Por isso que usamos o modelo tradicional de avaliação no currículo das Studio Schools. Precisamos trabalhar com o sistema para mudar esse próprio sistema, principalmente quando se tenta fazer algo completamente diferente. Se disséssemos que não nos importamos muito com esses exames, nenhum governo financiaria a criação das Studio Schools.

Então, como deveria ser a avaliação?
O desenvolvimento de habilidades deve ser visto com uma alta prioridade, da mesma forma que o desenvolvimento do conhecimento. O que questionamos é: o que é o sucesso? O modo que julgamos o sucesso de um sistema educacional não é baseado em resultados de exames. Acreditamos que é importante ver o que acontece com o estudante cinco anos depois que ele termina o período escolar. Como é seu emprego, sua qualidade de vida, sua saúde. É isso o que determina a qualidade do sistema de ensino, mas essas coisas são muito difíceis de serem medidas.


Post atualizado às 11h20 do dia 19 de fevereiro 2014. No texto anterior o título dizia ‘Habilidade deve ser mais importante que conhecimento’, entendemos que o título mais coerente com o texto é ‘Habilidade é tão importante quanto conhecimento’

TAGS

aprendizado baseado em projetos, competências para o século 21, educação integral, ensino médio, escolas inovadoras, transformar, uso do território

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  • Tudo isto faz muito sentido. O modelo tradicional de ensino, por mais qualificado que seja, tem que ser reinventado, para um outro mundo, que é o contemporâneo.
    O que temos de parecido, em nosso Brasil?

  • PS: é claro que habilidade e conhecimento tem que andar de mãos dadas. De que serviria um sem o outro?

  • Luiz Lopes

    O objetivo maior da educação é preparar o cidadão para contribuir para o sociedade. De que nos valem egressos de sistemas de educação que têm conhecimento, mas não têm capacidade para aplica-los? Infelizmente, a educação, principalmente nos níveis fundamental e médio, na maioria das vezes, apenas prepara o aluno para fazer testes e não para usar o conhecimento de uma forma significativa.

    Felizmente, há iniciativas e metodologias mais modernas que têm o conhecimento da matéria como ponto de partida do ciclo do aprendizado e não como objetivo final. Por exemplo, a utilização de Project-based learning, Problem-Based Learning, Case-Based Learning, Case Studies e Design Studio Education oferecem aos alunos a oportunidade de por seus conhecimentos em prática em ambientes mais autênticos e contextualizados, o que alguns pesquisadores chamam de “embodied experience” e mais antigamente o “learn by doing”.

    Vários estudiosos exploram atualmente como oferecer oportunidades de aprendizado que se baseiam na experiência prática de profissionais no mundo real. Muitos desses estudos se baseiam na utlização de Problem-, Case-, ou Scenario- based learning e há ainda outros estudiosos que exploram o tema através do uso de jogos (video games) e simulações, implementando design-based research, designed experiences e epistemic frames.

    Há ainda iniciativas que estimulam o engajamento do aluno com a comunidade e o ambiente onde ele vive (place-based learning). Algumas dessas iniciativas usam tecnologias modernas como mobile learning e augmented reality (realidade aumentada) para fazer a conexão entre o mundo real e conhecimento que é visto na escola.

    Logicamente, como mencionado no artigo, se houver uma ligação entre empresas e escola, ainda melhor. Isso estimula ainda um senso de comunidade mais completo envolvendo escola, famílias, comunidade e empresas.

    Logicamente esses são, como disse anteriormente, pontos de partida. Universidades de ponta, como é o caso de Yale, Harvard e Stanford, monitoram a progressão dos seus ex-alunos, algumas vezes, durante grande parte de suas vidas profissionais. Mas isso não é feito em vão, eles oferecem alguns serviços mas também mantêm o contanto para que haja networking com alunos atuais e para que estreitem os laços para captar doações e envolvam os ex-alunos na vida da universidade por anos, dentre outras coisas.

    Caso alguém tenha interesse em alguma bibliografia dos exemplos brevemente citados acima, por favor, fiquem à vontade para entrar em contato.

  • O grande embate do Século XXI: estudantes que processam 5.1 de informações inseridos em um modelo pedagógico – com a matriz toda baseada no Século XIX – que carece de aguçamento perceptivo. De nada adianta as ferramentas consideradas “novas tecnologias”, se a percepção vinga, consideravelmente, o ostracismo.
    As (consideradas) Ciências Humanas ainda estão arraigadas no modelo mecanonaturalista dos séculos XVII-XIX. Mesmo com todos os ferramentais das “novas tecnologias”, muitas vezes, criamos Frankensteins educacionais. Pelo menos temos uma espécie de bússola, uma alento paradigmático na Física Moderna e nas Neurociências. O Zeitgeist do III Milênio.

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