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Inovações em Educação

High Tech High: uma proposta, várias tendências

Rede com 11 escolas dos EUA aposta em personalização, conexão com o mundo e transparência para levar alunos à universidade

por Patrícia Gomes 11 de dezembro de 2012

Quando se ouve dizer que um grupo de escolas na Califórnia, chamado genericamente de HTH (High Tech High), capturou a atenção de pessoas como Barack Obama, Oprah Winfrey e Bill Gates, a primeira coisa que se pode pensar é que elas devem se destacar por ter tudo o que de mais moderno pode haver em salas de aula. Até é, mas não só. A proposta dessa rede, que começou em 2000 e hoje é formada por 11 escolas e uma instituição de pós-graduação para professores, se baseia em quatro pilares que têm sido apontados por especialistas em educação como essenciais para formar alunos para o século 21: personalização, conexão com o mundo, interesse comum em aprender e professor como designer do aprendizado.

“Nós temos computadores em todas as salas e excelentes laboratórios, mas nosso diferencial não está aí”, diz Robert Khul, diretor de uma das unidades, a High Tech High Media Arts. O primeiro passo, afirma o educador, está no processo de admissão. Por serem charters, escolas públicas de administração privada, elas são gratuitas para todos os seus cerca de 4.500 alunos. No entanto, pelos bons resultados que a escola vem acumulando – no ano passado, por exemplo, 100% dos alunos foram aceitos em uma universidade – há mais candidatos do que as escolas são capazes de receber. São duas unidades de fundamental 1, quatro de fundamental 2 e cinco de ensino médio, todas muito procuradas. A solução que a direção encontrou foi fazer um sorteio respeitando um critério que procura atender a todas as áreas da região onde as escolas estão. Assim, afirma Kuhl, a escola garante que seu corpo de alunos seja bem diverso e integre classes sociais diferentes. “Aqui nós temos filhos de milionários e filhos de pessoas que não têm onde morar”, diz.

Outro fator que explica o sucesso da escola, defende o diretor, é a aposta na personalização, baseada tanto no contato direto entre professores e alunos quanto em recursos virtuais. “Mantemos uma proporção baixa de alunos por professor”, diz Kuhl. Além disso, a cada aluno da HTH é designado um monitor, que se torna responsável por fazer um acompanhamento individualizado de interesses acadêmicos específicos. Com tal integração entre alunos e professores, as partes se sentem corresponsáveis pelo processo de aprendizagem e cumprem o segundo dos pilares da escola: interesse comum em aprender. No mundo virtual, os alunos são estimulados a manterem suas produções em um portfólio digital, acessível a qualquer um.

A missão da HTH Graduate School of Education é preparar líderes reflexivos, capazes de desenvolver ambientes de aprendizagem inovadores, autênticos e rigorosos

Nesse sistema de relações, a presença de professores qualificados é fundamental. Por isso, a escola percebeu a necessidade de ter sua instituição de ensino superior para formar e atualizar seus profissionais. “A missão da HTH Graduate School of Education é preparar líderes reflexivos, capazes de desenvolver ambientes de aprendizagem inovadores, autênticos e rigorosos”, diz a instituição em seu site. É ali, dividindo espaço físico com as escolas, que o contato com a prática ocorre e os professores aprendem, reaprendem e reciclam métodos.

Sem livros-texto pré-determinados, são eles os responsáveis por guiar o aluno, o que é o quarto dos pilares da HTH. “Nós somos atentos, mas não escravos do currículo nacional”, diz Kuhl. Assim, explica ele, a escola sugere que, em vez de blocos de 50 minutos, as aulas sejam mais longas, facilitando o desenvolvimento do aprendizado baseado em projetos. E algumas disciplinas são agrupadas “porque é assim que elas vão aparecer na vida”, diz Kuhl, reforçando mais um dos pilares da escola, a conexão com o mundo lá fora. Por isso, matemática e física costumam ser ensinadas juntas para alunos do ensino médio. Isso também ocorre com a disciplina de humanidades, que reúne história, filosofia e língua inglesa. Até fisicamente a escola foi pensada para facilitar os arranjos diferentes das salas de aula tradicionais, com espaços para atividades manuais, para reunião de grupos pequenos, para trabalhos individuais e para apresentações.

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Mostrar aos pares o que se está produzindo, aliás, é mais um dos estímulos constantes que a escola se preocupa em fazer. Mais do que apenas apresentar os projetos, a ideia é passar a mensagem de que estão fazendo coisas relevantes e que podem interessar a quem quer que esteja passando. Não por acaso, a arquitetura dos prédios – nos mais recentes, pelo menos, já que os mais antigos ocuparam e adaptaram edifícios que já existiam – é repleta de luz natural e paredes de vidro. “O aluno não pode ter vergonha do que está produzindo”, diz Kuhl.

Eles sempre me falam uma lista de motivos para justificar que o que fazemos é impossível de ser aplicado em suas realidades. Nossa sugestão, para eles, é sempre a mesma: então tentem descobrir o que dá para fazer

Os alunos precisam mesmo se acostumar com o assédio e a curiosidade externa. A escola é aberta a tours, que podem ser feitos por qualquer um que se inscreva pelo site. Oprah Winfrey e Bill Gates, cuja fundação financia parte dos projetos, já estiveram por lá. Barack Obama não foi, mas foi por um triz. A HTH foi uma das três finalistas em um concurso no ano passado que tinha como premiação a visita do presidente no dia da formatura do ensino médio, mas acabou perdendo para uma escola do Tennessee.

E não são só as celebridades que vão ver com os próprios olhos o projeto da escola. Segundo Kuhl, já passaram por aqueles corredores pessoas de todos os estados dos EUA e dos mais diversos países: Singapura, Israel, Canadá, Suécia, interessados em replicar o que vem sendo feito em seus lugares de origem. “Eles sempre me falam uma lista de motivos para justificar que o que fazemos é impossível de ser aplicado em suas realidades. Nossa sugestão, para eles, é sempre a mesma: então tentem descobrir o que dá para fazer”, afirma o diretor. Para ele, com o tempo, cada educador vai descobrir que, mesmo em legislações e sistemas rígidos, é possível flexibilizar.

A intenção dos fundadores da primeira HTH era ter um modelo bem-sucedido de escola que pudesse ser usado em outros lugares e, de alguma forma, melhorasse o aprendizado. Doze anos e 11 escolas depois, parece que o caminho já começou a ser trilhado. E de onde será que veio a inspiração para tudo isso? Do construtivismo de Paulo Freire, responde Kuhl.

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aprendizado baseado em projetos, competências para o século 21, escolas inovadoras, interdisciplinaridade, personalização, tecnologia