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Inovações em Educação

Interdisciplinaridade forma engenheiro mais completo

Disciplina com alunos de várias faculdades e bacharelado em que estudante escolhe currículo ampliam competências de engenheiros

por Tatiana Klix 24 de julho de 2014

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Este conteúdo faz parte da
Série Engenharia

Foi-se o tempo em que para ser um bom engenheiro só era preciso gostar de matemática e física e dominar conhecimentos técnicos específicos. Para solucionar problemas do século 21 e produzir inovações tecnológicas também são exigidas dos novos profissionais características tradicionalmente ligadas às pessoas das áreas de humanas ou de gestão, como comunicação, facilidade para trabalhar em equipe, liderança, empreendedorismo e criatividade.

“Temos alunos que escolheram fazer engenharia porque tinham facilidade em matemática e dizem que, se fossem criativos, teriam ido para a ECA [Escola de Comunicação e Artes da USP]. É um equívoco. Precisamos incentivar todos a desenvolverem tanto as competências técnicas como as transversais”, afirma a professora Roseli Lopes, coordenadora do laboratório de graduação multidisciplinar Inovalab@Poli, na Escola Politécnica da USP.

No livro “A Formação do Engenheiro Inovador”, o autor Marcos Azevedo da Silveira usa o exemplo dos engenheiros eletricistas especialistas em sistemas de potência para ilustrar como mudanças socioeconômicas afetam o trabalho e como a integração de diferentes competências passou a ser uma demanda real para a profissão. Se no século passado esses engenheiros precisavam apenas projetar e gerenciar sistemas de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, agora, para construir uma barragem, por exemplo, precisam atentar para questões ambientais, legais e econômicas relacionadas à sua implantação. Embora um projeto desses envolva equipes interdisciplinares com engenheiros civis, advogados, economistas, geólogos, geógrafos e sociólogos, os eletricistas precisarão se relacionar com todas essas questões e não apenas com as essencialmente técnicas, segundo o pesquisador.

Como as escolas devem ensinar tais competências e preparar estudantes integralmente para as novas missões da engenharia é um dos desafios para a modernização dos currículos das graduações, tema abordado nesta reportagem integrante da série “O futuro do ensino da engenharia”, publicada pelo Porvir em parceria com a Escola Politécnica da USP.

É característica marcante dos cursos brasileiros prover aos alunos uma carga grande de conteúdos teóricos científicos – 30% das aulas são de matemática, física e química – e ensinar técnicas específicas.  Tradicionalmente, os professores se preocupam em apresentar a maior quantidade de conteúdo possível, promover experimentações objetivas apenas para demonstrar a teoria estudada e depois fazer avaliações. Esse modelo, no entanto, não prepara o aluno para enfrentar situações inesperadas e encontrar soluções para as quais não foi treinado, acreditam os especialistas.

Uma nova disciplina chamada de Desenvolvimento Integrado de Produtos, implantada no início do ano na Escola Politécnica da USP, procura inverter essa lógica e propõe uma abordagem multidisciplinar usando técnicas de design thinking para que os estudantes desenvolvam produtos inovadores. A turma de 60 alunos – 30 da engenharia e 30 de outras faculdades – foi dividida em equipes de seis pessoas, das quais três deveriam ser da Escola Politécnica e outras três tinham outras formações, como arquitetura, administração e design. Cada grupo desenvolveu ao longo do semestre um projeto, desde a pesquisa até a prototipação, para atender a provocações de empresas. “Os problemas apresentados foram descritos de forma genérica, para que eles tivessem que investigá-los a fundo para propor a solução”, conta Roseli, que é uma das idealizadoras da iniciativa.

A disciplina não teve aulas expositivas, e os alunos se organizavam na sala ou laboratório de acordo com suas próprias demandas. Os professores apresentaram eventualmente alguns temas de debate, mas na maior parte do tempo os estudantes trabalharam interagindo com os colegas, enquanto tutores forneciam orientação. Por esse método, um dos principais aprendizados é a capacidade de trabalhar em equipe e de interagir com pessoas de diferentes áreas.

A comunicação, outra habilidade considerada cada vez mais importante para os engenheiros, foi trabalhada em todos os momentos: quando os alunos dialogavam sobre o problema, entravam em contato com a empresa que encomendou o produto; quando precisavam conversar sobre seus projetos, falavam para a turma e – não raro – para uma banca. “Os grupos tiveram que expor o que estavam fazendo e também avaliar o que os outros fizeram. Nesse exercício, é preciso argumentar, analisar aspectos variados, o que também desenvolve a capacidade crítica”, explica.

Por fim, para estimular a criatividade e praticar tarefas de gestão, na fase de prototipagem os alunos utilizaram o espaço do Inovalab@Poli, onde têm à disposição equipamentos, como impressoras 3D e diversos materiais. Também puderam usar um recurso de R$ 1.000 para comprar o que necessitassem. A ideia era que eles não limitassem os projetos por falta de material.

A experiência na USP foi inspirada em um programa da Universidade de Stanford que tem a participação de alguns alunos brasileiros e deve se repetir nos próximos semestres. Segunda Roseli, os alunos se sentiram muito estimulados com o trabalho na disciplina, o que abre caminho para que outras iniciativas desse tipo sejam implantadas.

Bacharelados interdisciplinares
Na UFABC (Universidade Federal do ABC), a receita para formar engenheiros mais completos e preparados para renovarem seus conhecimentos no futuro são os bacharelados interdisciplinares. Em vez de oferecer cursos tradicionais de engenharia química, metalúrgica ou aeroespacial, a universidade, inaugurada em 2007, trabalha com dois grandes grupos de formação, o bacharelado em tecnologia e o bacharelado em ciências e humanidades. Os alunos precisam cursar um núcleo de disciplinas obrigatórias pequeno e depois podem escolher sua trajetória. “Não temos dois alunos com o mesmo histórico escolar, porque cada um faz opções diferentes”, diz o pró-reitor de graduação da UFABC, José Fernando Queiruga Rey.

É muito comum os alunos chegarem à universidade com uma ideia de curso que querem fazer e mudarem depois. Segundo o pró-reitor, por uma questão social, antes de entrar na UFABC, eles sentem necessidade de ter um caminho pronto ou de poder dizer que fazem determinada engenharia, mas ao longo do curso amadurecem suas escolhas, entendem melhor que tipo de trabalho querem fazer e quais habilidades o mercado exige mais. “Qual a diferença entre um engenheiro espacial que faz interface com física e outro que faz com matemática? Eles serão profissionais com habilidades específicas diferentes, com condições de atacar problemas distintos”, explica.

Para colocar o modelo pioneiro em prática, que hoje já foi adotado em outras universidades, como a UFBA (Universidade Federal da Bahia) e a Unifal (Universidade Federal de Alfenas), a instituição usa infraestruturas compartilhadas. As salas de aula e os laboratórios não são divididos por curso, mas têm gestão comum e professores de todas as áreas demandam os espaços e materiais de que precisam. Com isso, segundo Rey, é possível otimizar recursos e ampliar o leque de opções aos alunos.

O pró-reitor admite, no entanto, que atuar de forma interdisciplinar não é natural para os professores, até porque eles não foram formados assim. O que facilita a transformação na UFABC é que todos os educadores são doutores, motivados e jovens (média de idade é de 37 anos), assim como a universidade. “O nosso professor é da universidade, ele não é dono de uma disciplina e faz isso o resto da vida. Eu sou professor de engenharia de materiais, mas também dou disciplinas básicas de física”, diz.

As primeiras avaliações da experiência são qualitativas. Existem poucos dados em relação ao desempenho dos egressos da universidade, mas várias outras instituições do país estão se inspirando nos bacharelados interdisciplinares. Além disso, as empresas que contratam alunos da UFABC também têm um dado retorno positivo, como mostra o aumento de participação delas na feira de estágio da instituição neste ano em relação à primeira edição, em 2013. “Isso quer dizer que os alunos que estão indo para o mercado estão fazendo um bom trabalho. Antes, ninguém nos conhecia, agora as empresas já querem nossos alunos”, comemora Rey.

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ciências, competências para o século 21, design, engenharia, ensino superior, experimentação, interdisciplinaridade, série engenharia