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Inovações em Educação

Mão na massa ensina aluno de engenharia a inovar

Métodos de aprendizagem a partir do fazer são usados na formação de alunos para o trabalho. Brasil terá 1ª faculdade só por projetos

por Tatiana Klix 31 de julho de 2014

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Este conteúdo faz parte da
Série Engenharia

Até a primeira metade do século 20, para aprender a ser engenheiro era preciso colocar a mão na massa e havia muitas semelhanças entre as escolas de engenharia e as oficinas de ofício estabelecidas na Idade Média, em que mestres experientes na profissão treinavam seus aprendizes. A partir do desenvolvimento das ciências aplicadas essa realidade mudou e atualmente a falta de prática dos engenheiros recém saídos da faculdade é considerada um desafio a ser enfrentado pelas universidades.

“Hoje em dia, temos um engenheiro teórico, que precisa ser colocado no ambiente fabril para se qualificar. Isso demanda tempo, se torna custo para a empresa e, quando se olha de forma mais abrangente, afeta a produtividade e a competitividade da nossa indústria”, diz Luis Gustavo Delmont, gerente de políticas para inovação da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

A mudança nos cursos de engenharia em todo o mundo aconteceu a partir da publicação do “Grinter Report”, em 1955, pela Sociedade Americana de Ensino de Engenharia, que defendia maior ênfase nas ciências aplicadas para a formação dos engenheiros. “A 2ª Guerra Mundial foi um divisor de águas para os cursos de engenharia. Antes, o foco era a mão na massa, depois passou a ser a ciência”, explicou ao Porvir o professor Vinícus Licks, coordenador da graduação em Engenharia Mecatrônica do Insper, em São Paulo.

As graduações em geral fornecem uma base sólida de conhecimentos teóricos, mas as demandas do mercado de trabalho em constante evolução e a necessidade de formar profissionais preparados para inovar suscitam um novo dilema nos meios acadêmicos: como aliar a ciência com o fazer? Esse é o tema da quarta reportagem da série do Porvir “O futuro do ensino da engenharia”, que também traz artigos com reflexões de pesquisadores da Escola Politécnica da USP.

Segundo Licks, os cursos de engenharia tradicionais no Brasil formam profissionais com boa capacidade analítica, que conseguem analisar o que já existe, mas com pouca capacidade de síntese. “Isso significa que o engenheiro sabe desmontar um aparelho e analisar todas as suas partes, mas tem poucas condições de inventar um novo equipamento”, exemplifica. Além disso, o excesso de aulas teóricas, principalmente nos primeiros anos de curso, assusta os estudantes e é uma das causas dos altos índices de evasão nas engenharias.

Um dos modelos usados para amenizar essa defasagem é aliar o ensino da teoria com a prática em empresas, em programas de estágio, já durante a faculdade, chamado de ensino dual. Defendido pela CNI para melhorar a formação para o trabalho e reduzir a necessidade de treinamentos por parte das empresas, o método é adotado com sucesso na Alemanha.

A Embraer é um exemplo de instituição que sente necessidade de investir na qualificação de seus profissionais e faz isso a partir de uma parceria com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Desde 2003, um programa de mestrado profissional com currículo desenhado em conjunto pelas duas instituições prepara engenheiros recém-formados para trabalhar na empresa.

A outra forma é a partir do aprendizado baseado em projetos ou problemas, método já experimentado, pelo menos pontualmente, em algumas universidades brasileiras. Na Escola de Engenharia de Lorena, da USP, desde o ano passado os alunos do primeiro ano de engenharia de produção cursam uma disciplina na qual são desafiados a entregar, após quatro meses, um projeto real.

A 2ª Guerra Mundial foi um divisor de águas para os cursos de engenharia. Antes, o foco era a mão na massa, depois passou a ser a ciência

No semestre passado, os calouros se dividiram em grupos e desenvolveram um projeto para produzir biocombustível a partir dos conhecimentos que já tinham  ou tiveram que pesquisar. Além do protótipo em laboratório do sistema inventado, os estudantes tiveram que entregar e defender para uma banca um relatório mostrando a viabilidade técnica, financeira e ambiental do biocombustível produzido. “Esse modelo já coloca o aluno do primeiro semestre, que normalmente fica só estudando matemática e física, a trabalhar num ambiente de engenharia. A gente passa a ter um estudante diferenciado em termos de maturidade”, afirma o coordenador do curso, Marco Antônio Pereira.

Para tornar o ensino de ciências mais lúdico e instigante, o professor também planeja a criação do Labsent, um espaço inspirado em um laboratório visitado por professores da USP no MIT (Massachusetts Institute of Technology) para aplicar o método de educação entre pares, já abordado pelo Porvir em entrevista com o criador do conceito Eric Mazur.

Na sala, ainda não inaugurada, os alunos também serão divididos em grupos, mas deverão, num primeiro momento, responder individualmente por um sistema digital a perguntas feitas pelo professor. As respostas de todos serão projetadas em telões, quando os alunos deverão debater as situações problemas até convergirem para a resposta certa. “O professor apresentará pouca teoria e só vai intervir se perceber que a turma não está no caminho certo do aprendizado”, diz Pereira, que defende que é preciso mudar a forma como se ensina engenharia, mas admite que nem todos os professores estão convencidos disso e alguns ainda relutam em abrir mão das aulas expositivas.

Isso não vai acontecer na nova faculdade de engenharia do Insper, que ainda aguarda autorização do MEC para começar a funcionar. O projeto inspirado em uma das mais inovadoras escolas de engenharia do mundo, a Olin College, dos EUA, pretende construir o conhecimento dos alunos somente a partir de projetos. Para botar a mão na massa, os graduandos terão à disposição laboratórios de fabricação digital (Fab Lab) com equipamentos de última geração, onde poderão inventar, experimentar e até errar, o que é uma das premissas para a inovação. Os professores nessa nova faculdade terão um novo papel, o de estimular e orientar as experiências dos futuros engenheiros.

A ideia é que os estudantes aprendam não apenas a fabricar produtos ou soluções, mas se preocupem com os anseios dos usuários e tenham visão de mercado

Além do método revolucionário, o currículo por competências, construído em conjunto com a Olin, também inova no conteúdo e ambiciona formar engenheiros que tenham conhecimentos técnicos, criativos e comerciais. “A ideia é que os estudantes aprendam não apenas a fabricar produtos ou soluções, mas se preocupem com os anseios dos usuários e tenham visão de mercado”, conta Licks.

Para aproximar os projetos dos estudantes do mercado, ele ainda planeja conectá-los com empresas do mundo real. Isso vai ocorrer a partir de um conselho consultivo formado por grandes empresários que estão dispostos a auxiliar os alunos do Insper a desenvolver seus projetos, seja sugerindo problemas a serem resolvidos, seja abrindo as portas para eles utilizarem seus espaços ou até indicando profissionais especializados que possam ajudá-los, da mesma forma como os mestres das oficinas de ofício ensinavam seus aprendizes.

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aprendizagem baseada em projetos, ciências, competências para o século 21, engenharia, ensino superior, experimentação, série engenharia