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Inovações em Educação

O que mudou na educação da Finlândia com a chegada do novo currículo

Marjo Kyllonen, secretária da cidade de Helsinque, volta a falar com o Porvir a respeito das mudanças para uma educação por projetos que conectam conhecimentos

por Vinícius de Oliveira 22 de maio de 2017

Desde o início do ano letivo, no último mês de agosto, a Finlândia convive com um novo currículo centrado no aluno e na multidisciplinaridade. A mudança de metodologia, para aprendizagem baseada em fenômenos (ou projetos), é também cultural e mexeu com a rotina de gestores, diretores e estudantes. Em nome de um aprendizado mais significativo, as linhas que delimitavam zonas de conforto ficaram borradas e todos tiveram que rever suas práticas, dentro e fora de sala de aula.

Para entender como esse processo se desenrolou ao longo dos últimos meses, o Porvir voltou a conversar, durante a feira de educação Bett Educar, com Marjo Kyllonen, secretária de educação de Helsinque, a capital finlandesa. Em visita ao Brasil a convite do grupo SEB para conhecer a rede de escolas privadas Concept, Marjo ministrou uma rápida palestra no estande da empresa em que detalhou as mudanças.

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“O que era bom no passado não significa que vai ser bom para o futuro”, disse logo de início, como quem quer deixar claro que o sucesso nas últimas edições do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), exame realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), deve ficar no passado. Para o mundo de hoje, a secretária de Helsinque diz que a educação precisa ser menos fragmentada e se libertar das disciplinas. Dentro de uma visão holística, existe uma nova visão no país para aproveitar o que acontece além da escola para aprender mais, de forma mais motivadora e o tempo todo. “É a aprendizagem inteligente, que significa que toda a cidade é uma grande plataforma de aprendizado”, disse.

Para acelerar o processo de transição para o novo modelo, as escolas passaram a selecionar grupos de professores para a elaborar práticas baseadas voltadas a projetos. “Tem que ser bem prático, de professor para professor, de diretor para diretor”, disse Marjo. “Temos grupos de professores especialistas que têm um tempo reservado para apoiar seus colegas e dizer o que pode funcionar de acordo com a experiência que já tiveram”.

Em escolas-piloto, diz Marjo, professores e diretores têm a chance de pensar “e se…” sem a preocupação de errar. “E se tivéssemos escolas sem livros? O que acontece e como deve ser a organização? Ajudamos essas escolas e elas convidam as outras para mostrar como vai o desenvolvimento”, explica.

Na entrevista abaixo, o Porvir explora alguns dos conceitos trazidos na palestra:

marjokyllonenCrédito: Divulgação

Porvir – Em sua palestra, a senhora fala muito para professores não terem medo de errar. Como isso se traduz na prática?
Marjo Kyllonen – Os diretores municipais encorajaram os professores a tentar e oferecemos ferramentas para desenvolvimento por meio da prática, que se tornou uma estratégia em toda a rede municipal. Todos falamos na mesma língua: vamos tentar, tentar e criar, aprender a partir das nossas experiências. Isso ajudou muito os nossos professores, porque eles não precisam saber tudo logo de cara. Há cerca de um mês, visitei uma escola-piloto e uma das professoras me disse que estava muito feliz porque havia lhes encorajado a tentar e cometer erros. ‘No começo foi muito difícil, porque tínhamos medo de perder o controle, mas, agora, estamos discutindo isso em nossas escolas e funciona!”

Porvir – Do ponto de vista do gestor, o que teria feito diferente ao longo do processo?
Marjo Kyllonen – De certa maneira, partes do processo foram apressadas porque o cronograma foi estabelecido pelo governo. Gostaria de estar muito mais envolvida, ouvindo a opinião dos professores. Nós reunimos diversas ferramentas práticas, mas poderíamos ter feito mais. Precisamos de mais tempo para encontrar com os professores para fazer discussões. Não falo especificamente de mim, mas de toda a minha equipe. É ir até as escolas, ver o que acontece em sala de aula e investir no desenvolvimento de práticas criadas por próprios professores que podem ser distribuídas para outras escolas. Identificar boas práticas é o que ajuda os nossos professores.

Porvir – Qual a parte mais difícil que vocês enfrentaram até aqui?
Marjo Kyllonen – Para o professor da escola primária, esse tipo de abordagem baseada em fenômenos é mais natural, porque ele é responsável por ensinar a maior parte do conteúdo e é mais combinar o uso dessa metodologia. Mas criar tempo para planejamento coletivo com outros professores é um desafio para todos. Para os outros professores, a exigência tem sido maior. Quando converso com diretores, eles dizem que a colaboração e o ensino em parceria mudaram a dinâmica da jornada escolar porque professores precisam de tempo para criar juntos e entender como funcionam as aulas baseadas em projetos. Em algumas escolas isso foi muito tranquilo, em outras, gerou muitas discussões sobre como encontrar tempo para o planejamento. No começo, leva mais tempo, mas quando se acerta como fazer as coisas em parceria, você aprende e o processo acelera.

Porvir – Como foi a reação das crianças a partir do momento que professores disseram a elas que teriam que aprender de um jeito diferente?
Marjo Kyllonen – Não foi algo tão novo para eles. Quando você está promovendo mudanças em sala de aula, precisa incluir os alunos na discussão. Se você apenas diz que eles devem fazer a, b, c ou d, todo mundo fica com medo. Nossa estratégia na Finlândia, e especialmente em Helsinque, tem sido promover a participação dos estudantes sobre o que é feito e dizer quais são os objetivos de aprendizagem. Um menino que encontrei, disse que agora que entende o que está aprendendo e o que devo fazer para melhorar o aprendizado. “A bola agora está comigo e fico mais motivado”. Um outro aluno me disse que sempre foi muito bom em matemática, mas tinha tanto medo de provas que seu desempenho era ruim. ‘Agora que posso provar como aprendo de um modo mais tranquilo, me sinto mais confortável’, disse.

Porvir – Não sei o quanto a senhora está ciente da discussão sobre a Base Nacional Comum Curricular brasileira, mas quais observações e recomendações poderia fazer, especialmente agora que as discussões estão na fase final?
Marjo Kyllonen – Eu começaria pelas lideranças e a pela organização de discussões com professores para que todo mundo entenda a ideia por trás do documento. Quando lemos descrições, sempre colocamos limites a partir das nossas experiências e expectativas pessoais. Criar um entendimento coletivo demanda discussões. O que queremos alcançar? Se você não entende isso, tudo fica muito superficial. Vira um teatro de marionetes em que você levanta a mão direita porque alguém está dizendo para fazer isso, mas sem entender o motivo.

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aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, bett educar, multidisciplinaridade