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Crédito: Brian Jackson/Fotolia.com

Como Inovar

Por que os alunos não aprendem com seus slides

É chegada a hora de repensar a estratégia de ler apresentações de PowerPoint linha por linha durante as aulas

por Mary Jo Madda, do EdSurge 23 de janeiro de 2015

Não se preocupe, todos já fizemos isso: ficamos acordados até tarde na véspera de dar aula às 8 da manhã. Então o que você faz? Joga algum texto no PowerPoint e se prepara para falar sobre os tópicos. Não vai fazer nenhum mal, né? Você pode nem ler os slides inteiros – eles só vão ajudá-lo a dar sequência à aula, e se perder o ritmo, o texto estará lá para te ajudar.

Infelizmente, não importa se você está trabalhando as Grandes Navegações na quarta série ou física quântica com recém chegados à universidade, você pode estar prejudicando mais do que ajudando seus alunos.

Diário de Inovações: ‘Trabalho bem feito coloca aluno no lugar do outro’

Vamos explorar por que o design instrucional na maioria das vezes não funciona com estudantes e quando você deve ensinar com PowerPoint – e também quando deve evitá-lo. Tudo começa um pequeno conceito chamado de “carga cognitiva”. 

Muita coisa para o estudante processar
Imagine o cérebro dos estudantes como uma caixa. Conforme você começa a jogar pedras, ela fica mais e mais pesada – e assim, é mais difícil para o estudante aguentá-la e mantê-la organizada. Basicamente, essa é a definição de carga cognitiva. Ela descreve a capacidade da memória do nosso cérebro em suportar e processar partes de informação. Todos temos uma limitação de memória, então quando temos que lidar com informações de mais de uma maneira, a carga fica mais pesada e mais difícil de ser controlada.

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Na sala de aula, a carga cognitiva do estudante é muito afetada pela origem externa da informação – em outras palavras, a maneira pela qual ela é apresentada a eles (Sweller, 2010). Todo professor instintivamente sabe que existem jeitos melhores – e piores – de apresentar um conteúdo. A razão para isso, segundo pesquisas, é que, ao aliviar a carga, fica mais fácil para o cérebro do estudante acessar a informação e a transformar em memória.

Ensinar com slides de texto do PowerPoint durante uma leitura em voz alta, infelizmente, significa o mesmo que jogar muitas pedras dentro da caixa do aluno e faz com que ele retroceda. 

O efeito de redundância
A apresentação simultânea de um texto de modo visual e oral, como slides de PowerPoint, atualmente é muito comum nas salas de aula. Pense a respeito: quantas você entrou em uma sala ou auditório e viu uma professora lendo textos dos slides?

Um estudo australiano do final dos anos 1990 (o 1999 Kalyuga Study) comparou o resultado acadêmico de um grupo de universitários que assistiu a uma aula de um professor que usou texto e áudio (o que significa que havia palavras na tela enquanto ele falava) com um outro em que os alunos só ouviam a uma explicação sem PowerPoint. Os pesquisadores concluíram que a utilização de estímulos visuais com palavras durante uma apresentação aumenta a carga cognitiva, em vez de diminui-la.

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Isso se deve ao chamado efeito redundante. A redundância verbal “surge da apresentação verbal e discurso na íntegra”, aumentado o risco de sobrecarregar a capacidade de memória – por isso, pode causar efeito negativo no aprendizado.

Considere, por exemplo, uma aula de ciências sobre cadeias alimentares. O professor pode começar explicando a diferença entre carnívoros e herbívoros. Aparece um slide com a definição de cada termo. O professor começa a ler diretamente do slide. As partes duplicadas de informação – falada e escrita – não vão reforçar positivamente uma a outra; no lugar disso, as duas sobrecarregam as habilidades do estudante em controlar a informação.

Pesquisadores como John Sweller e Kimberly Leslie defendem que seria mais fácil para estudantes aprenderem as diferenças entre carnívoros e herbívoros se eles fechassem os olhos e só ouvissem à explicação. Mas estudantes que ficam com olhos fechados durante a aula são acusados de “não estarem prestando a devida atenção”. 

Como aliviar a carga
Então o que fazer? Como garantir que as crianças aprendam a partir de suas explicações orais em vez de ficarem com o cérebro saturado? (Empreendedores, saibam que isso também poderia ser aplicado em suas apresentações!).

Richard Mayer, um neurocientista da Universidade de Santa Barbara e autor do livro “Multimedia Learning” (Aprendizado multimídia) oferece a seguinte receita: elimine elementos textuais de suas apresentações e passe a falar por tópicos, compartilhando imagens ou gráficos com os alunos. O vídeo abaixo (em inglês) detalha exatamente o que ele quer dizer:

Imagem de Amostra do You Tube

 

Este método, segundo Mayer, é particularmente apropriado para assuntos em que gráficos geométricos e imagens são cruciais para a compreensão dos conceitos-chave, como cadeia alimentar, cálculo de área de uma superfície ou ciclo da água.

Outros estudos, como um outro estudo separado feito por Leslie et al. (2012), sugere que misturar pistas visuais com explicações orais (em aulas de matemática e ciências, em particular) é essencial e eficiente. No estudo de Leslie, um grupo da quarta série que não sabia nada sobre magnetismo aprendeu significativamente mais quando teve contato tanto com imagens quanto com a explicação do professor em comparação a outro grupo que só teve a explicação oral.

Você é professor de ciências? Coloque uma foto dos dentes de um leão e de uma zebra na tela enquanto explica a diferença entre carnívoros e herbívoros. Ensina estudos sociais? Coloque em volta da data “1776” pinturas dos Pais Fundadores dos Estados Unidos assinando a Declaração de Independência (o mesmo vale para a História brasileira), em vez de incluir fatos relacionados em sua apresentação.

E se você tem dificuldades em tirar completamente as palavras de suas apresentações em PowerPoint, especialmente quando quer que os estudantes tomem nota, aqui vão mais algumas dicas:

– Limite-se a uma palavra por slide. Se for explicar termos, tente coloca-lo associado a um conjunto de imagens – e peça para os alunos para deduzirem;

– Obedeça ao “princípio da personalização”, que basicamente diz que atrair leitores entregando conteúdo de modo conversacional vai aprimorar o aprendizado. Por exemplo, Richard Mayer sugere usar muitos “Eus” e “Vocês” em seu discurso, porque alunos reagem melhor à linguagem mais informal.

Tem alguma estratégia que funciona melhor para seus alunos? Comente.

  • Pingback: Quando uma aula com Slides não funciona? | Dicas de Ciências()

  • Luciano Barroso

    Todas minhas aulas de inglês são com slides os mesmos eu sempre coloco a letra da música, o vídeo, o texto com o assunto relacionado, a imagem de um filme(cena editada com legenda em inglês e português), uma charge, uma organograma (mapa mental) tanto para que o material fique diversificado quanto mais atrativo para os alunos.
    Eu acho que eles aprendem mais que apenas no cuspe e giz como antigamente.

    Depois de 22 anos de docência, graduado, pós-graduado em Língua Inglesa e Mestrado em Ciências da Educação, acredito que os slides ajudam sim no processo ensino aprendizagem, bem como na mediação de qualquer conteúdo.

    • Risoleide

      Sou professora universitária.
      A publicação do presente artigo: Por que os alunos não aprendem com seus slides, contribuiu de uma forma realmente significativa.

      Parabéns!

  • Pingback: Por que os alunos não aprendem com seus ...()

  • Eu uso slides com imagens, poucos textos, muitos vídeos e falo palavrões… Em grande quantidade, mas sempre contextualizados!
    É batata!
    rsrsrs

  • Como aluno e entusiasta da educação posso dizer que nem sempre o slide é um aliado. Não só em sala de aula como em apresentações as quais tenho visto. Realmente reforça a ideia quando uma imagem transmite o contexto do assunto em questão, mas não quando o slide contém tudo e mais um pouco (textos demais, imagens demais, cor demais…). Um livro muito interessante e que transmite bem essa ideia (bem como dá dicas valiosas) é o : “Faça Como Steve Jobs” que é um livro focado 100% em apresentações orais e com slides.

  • Olá a todos!
    Acredito que com o PowerPoint, assim como com toda ferramenta tecnológica ou até metodologia pedagógica, sua eficiência no processo de ensino e aprendizagem depende de como o utilizamos.
    Se utilizarmos o PowerPoint como mero “passador” de slides com textos longos e imagens, por mais significativas que sejam, não estaremos utilizando sequer 30% do potencial que ele tem.
    Esforço, capacitação, estudo, criatividade e exploração de todo o potencial do PowerPoint, pode render grandes, engajadoras e eficientes apresentações.
    Claro que isso exige tempo e treino – muito treino -, mas vale a pena.
    Se alguém tiver interesse, aqui vão alguns links com dicas de como utilizar o Powerpoint como uma verdadeira ferramenta educacional. Acesse:
    https://www.youtube.com/watch?v=nHgrhY0G3Qg
    https://www.youtube.com/watch?v=ULLxvu08Uoc
    https://www.youtube.com/watch?v=k44qVGTXD5A
    https://www.youtube.com/watch?v=oOqilGIzLC0

  • Célia Reis

    Concordo plenamente com o que o texto expõe.
    De fato professores e profissionais das mais variadas áreas utilizam essas apresentações como muletas…só um profissional muito despreparado e/ou insseguro fica lendo slides na íntegra. Não há nada mais entediante e estressante…

    • Célia Reis

      Ups…quis dizer inseguro

    • Olá Célia!
      A questão é COMO se utiliza qualquer ferramenta, inclusive o PowerPoint. Muitos apenas colam textos e imagens porque é mais rápido. Poucos s preocupam em fazer um roteiro e utilizar outros recursos desse software como animações e interatividade. Se assim o fizessem, certamente as apresentações não seriam entediantes.

  • Javier García López

    Concordo com o texto. Em particular no que se refere ao seu uso com alunos de graduação. Via de regra uma apresentação de 45 min em Power Point equivale a 4 horas de aula, fazendo uma estimativa. Para alunos, na sua maioria jovens é informação em excesso para poder ser assimilada. Claro que isso pode ser amenizado com as recomendações sugeridas, mas creio que deveríamos restringir seu uso ao mínimo necessário.

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  • Minhas conclusões em 25 anos ensinando:

    1. Slide só serve para substituir / melhorar o que seria desenhado em quadro: Perde-se menos tempo, que é melhor aproveitado para outras atividades como explicações, anotações, tirar dúvidas, “bate papo” sobre o assunto, resolução e correção de exercícios de fixação e aplicação etc;

    2. “Quem escreve, aprende”: Salvo exceções, o ato de anotar o que é dito ajuda o aluno a memorizar. Tenho experimentado fornecer uma cópia impressa dos slides com espaço para anotações ao lado e o resultado tem me parecido positivo. Infelizmente essa técnica não funciona com sistemas digitais (precisa escrever “a mão” – caneta e papel);

    3. Evite transições e animações nos slides (dê preferência por slides absolutamente estáticos): Caso vc precise voltar e/ou avançar por alguns slides para tirar dúvidas ou retomar assuntos, não se perderá entre as transições e animações.

    Outras boas aplicações para slides são:

    – Texto a ser copiado, caso o professor seja adepto do “quem escreve, aprende” e prefira que o aluno copie ao invés de apenas dar tempo para o aluno ler um texto impresso em apostila (enfatizo que é um texto para leitura e não para ser explicado simultaneamente, seja texto complementar ou mesmo o assunto central);

    – Correção de exercícios.

    A questão é que, tanto ler quanto ouvir uma explicação, são atividades que requerem atenção e, se usadas simultaneamente, reduzem a retenção das informações.

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  • Adriano

    Depende muito do perfil da turma, o que faz pensar em variações nas apresentações. Mas concordo: pouco texto (basicamente só palavras de referência), imagens que abram uma (ou várias) interpretações e muita discussão, deslocando o protagonismo para quem realmente é o ator principal na sala de aula: o aluno e sua capacidade de descobrir.Utilizo muito o prezi, que acho uma evolução do PPT.

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  • Marcia Borges

    Excelente texto!Amo estudar e me atualizar por isso já frequentei e frequento muitos cursos e várias graduações. E como aluna, só posso concordar que a mania do ppt, fruto da produtivismo e ” corporation mind” acabaram massificando as aulas e , como não são sempre entendidos e utilizados como ferramentas, acabam diminuindo muito o aprendizado e tornando os conteúdos muito massificados.
    Parabéns pela matéria!