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Diário de Inovações

Professor cria projeto de intercâmbio cultural através da música

Proposta que deu origem a plataforma colaborativa da Unesco foi idealizada por educador de São Paulo

por Roberto Schkolnick 26 de janeiro de 2017

O projeto “Cantando pelo mundo – cantigas e brincadeiras” é uma proposta de intercâmbio musical e cultural, realizada por meio de uma plataforma colaborativa entre alunos e professores das escolas do PEA (Programa de Escolas Associadas) da Unesco (agência da Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura), e aberto a toda organização vinculada à educação musical no Brasil e no mundo.

A iniciativa promovida pelo Colégio Magno/Mágico de Oz, em São Paulo, conta com o apoio integral do PEA-UNESCO e busca valorizar a educação musical por meio das manifestações e expressões da cultura popular, compartilhando o aprendizado das brincadeiras cantadas e cantigas folclóricas e, assim, enriquecer o repertório das crianças. A origem do intercâmbio e brincadeiras surgiu um pouco antes, quando participei do FLADEM (Seminário Internacional do Fórum Latinoamericano de Educação Musical), que acontece uma vez por ano. Em um dos encontros, surgiu a proposta de intercâmbio e parceria entre as escolas e educadores musicais, que acabou não vingando como um projeto institucional. Fiquei pensando que era um desperdício perder essa oportunidade de troca entre alunos e educadores, então formatei essa nova proposta, de maneira mais ampla, simples e aberta.

A ideia era que os alunos fossem protagonistas do projeto e que pudessem apresentar algum recurso ou alguma característica da sua cultura para os outros participantes. Em meados de 2015, o projeto teve início como uma proposta experimental e hoje está plenamente consolidado como uma importante referência ao educador musical. A plataforma já conta com indicação de mais de 80 atividades de diferentes países, como Uruguai, Grécia, Espanha e do próprio Brasil, em São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), João Pessoa (PB), Rio de Janeiro (RJ), entre outras.

Quando eu propus essa plataforma, fomos os primeiros a gravar uma música da cultura popular, “A lavadeira” e demos o início ao intercâmbio, que foi muito bem aceito pelos nossos pares pela simplicidade e riqueza de informações presentes no projeto. Em 2016, utilizei as atividades presentes na plataforma “Cantando pelo mundo” como referência para o trabalho musical em sala de aula com meus alunos do Colégio Magno/Mágico de Oz. Pesquisamos músicas, cantigas e brincadeiras cantadas de diferentes regiões do Brasil e do mundo e optamos em sistematizar o conteúdo trabalhado em duas vertentes: um livro-CD com os registros e produções realizadas pelos alunos (clique para ver exemplo) e uma apresentação “ao vivo” das músicas trabalhadas durante o ano.

O importante de se entender nesse projeto é que ele é interdisciplinar, no sentido de que outros professores também são incentivados a colaborar

O importante de se entender nesse projeto é que ele é interdisciplinar, no sentido de que outros professores também são incentivados a colaborar. Não é apenas o professor de música que participa. Nesse trabalho, o grupo de professores de música da escola elaborou a proposta, mas as pesquisas de contextualização, por exemplo, foram realizadas com as professoras de outras disciplinas. Estamos pensando sempre no primeiro ano, crianças de 6 e 7 anos em processo de alfabetização.

Acreditamos que é muito importante dar uma noção mais ampla às crianças para que elas aprendam não somente a música trabalhada, mas também algumas características da sua cultura, ou seja, o contexto de onde vem. Os alunos adoraram, por exemplo, conhecer e experimentar algumas comidas típicas de determinada região, pronunciar a língua falada em cada país, identificar as roupas e vestuário utilizados, bem como escutar a sonoridade dos instrumentos tocados naquele lugar.

O desenvolvimento do trabalho permitiu uma troca muito rica de informações e aprendizados. Lá na seção de vídeos da plataforma, temos uma família que mora em Israel. Eu trouxe a referência de uma música, uma brincadeira e a família gravou um vídeo mostrando como ela funcionava, como aquela canção era brincada pelas crianças israelenses. Em outra seção, uma escola da Espanha fez uma dança típica e apresentaram para os alunos. Aqui no Brasil, uma outra escola de Fortaleza (CE), fez a mesma coisa com a brincadeira cantada folclórica, “Bambu, Tirabu”.

Esse trabalho envolve um processo: mostramos a música, aprendemos a cantar, tocar e vamos atrás da contextualização. Podemos trabalhar a sonoridade ou ensinar a letra e tentar entender o que ela está dizendo. Por, exemplo, numa música indígena Surui, identificamos o significado de um ritual de luta somente pela intenção da prosódia (canto) e o ritmo constante dos tambores. Também tivemos uma situação muito bacana que um avô português de uma aluna veio ensinar na escola uma brincadeira cantada de Portugal.

É muito interessante quando conseguimos organizar todo material pesquisado e sistematizar as informações aprendidas

É muito interessante quando conseguimos organizar todo material pesquisado e sistematizar as informações aprendidas. Nesse nosso projeto, tivemos dois importantes momentos: A gravação das crianças cantando e interpretando as músicas e a produção do livro, que é o registro do processo com as informações, escrita e ilustrações realizadas pelos próprios alunos.

O projeto proporcionou aos alunos (e também educadores!) uma abertura na visão de mundo e aprendizado dos conhecimentos de diferentes culturas. Uma coisa é mostrar ou escutar simplesmente uma música. Outra coisa é ter uma música que iremos pesquisar a fundo e nos surpreender: “Puxa vida, de onde é isso? Que som é esse?”. É uma descoberta e constatação de que existem outras referências culturais e musicais. Por exemplo, o som de um sitar (instrumento de origem indiana) é totalmente diferente da sonoridade que estamos acostumados a ouvir na música do nosso cotidiano. Eu creio que os alunos vão se abrindo a outras referências ao passar por esse processo de fazer o registro, cantar a música e conhecer sua origem.

O meu desejo é que esse aprendizado permaneça e que permita às crianças abrir horizontes a uma visão de mundo mais ampla, com outros referências, com respeito à diversidade cultural, não só as referências musicais que temos por aí na mídia. Que possamos criar bons ouvintes, boas pessoas!

Roberto Schkolnick

É professor de musicalização de educação infantil e ensino fundamental 1 na Escola de Educação Infantil Jaracarandá, Colégio ALEF (ex Bialik) e na Escola Miguilim. Também é professor e coordenador pedagógico da área de música na educação infantil e dos primeiros anos do Colégio Magno/Mágico de Oz. Desenvolve trabalho de formação continuada junto a professores de educação infantil e fundamental em caráter de oficinas e/ou cursos de música nas redes pública e particular de ensino. Coordena o projeto “Cantando pelo mundo - cantigas e brincadeiras”, vinculado ao PEA-BRASIL UNESCO). Em 2011, foi vencedor do Prêmio Educador Nota 10, promovido pela Fundação Victor Civita, com o projeto “Songbook de Adoniran Barbosa – 100 Anos – Grupos 4 e 5”. É licenciado em música pelo Claretiano e bacharel em psicologia.

TAGS

aprendizagem colaborativa, autonomia, brincadeiras, competências para o século 21, educação infantil, ensino fundamental, livros digitais, música, socioemocionais