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Inovações em Educação

Projeto social para ensinar eletrônica vira negócio em 1 ano

Com kit de montagem rápida, jovens de Curitiba atraem a atenção de instituto e negociam empresa com rede de escolas de programação para crianças

por Vinícius de Oliveira 26 de abril de 2017

Amigos de faculdade, uma ideia na cabeça, a vontade de empreender e a missão de ajudar alguém. Muitos são os jovens que sonham em aproveitar as relações nascidas em sala de aula para colocar em prática um projeto, que diante de muita dedicação pode se tornar um negócio de impacto social. Esse foi o caso de Ismael Dias e Pedro Chianca, que estavam no mestrado de engenharia eletrônica na UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) no começo de 2016 e, em seguida, começaram a desenvolver um kit para ensinar eletrônica e programação para crianças. Os resultados não poderiam ter vindo mais rápido.

Tudo começou com investimento modestos de R$ 3 mil para desenvolver protótipos, e a saída encontrada para economizar foi usar os equipamentos disponíveis na própria universidade, que fica em Curitiba. “Tivemos acesso a impressoras 3D, CNC, marcenaria e pedimos muita ajuda pros professores e alunos de design e engenharia mecânica. Isso foi imprescindível, pois não tínhamos conhecimento suficiente e nos apoiamos na ajuda deles”, diz Chianca.

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Uma vez prontos, chegava a hora da primeira experiência em campo, com 200 crianças do Centro Social Marista de Guaraqueçaba (cidade distante 173 km da capital). “Ensinávamos usando uma protoboard (placa com furos e conexões condutoras para montagem de circuitos elétricos), Arduino e resistor”, descreve Chianca que classificou os resultados como “pontuais”. “Só os que tinham mais talento conseguiam evoluir, enquanto havia crianças que no último mês ainda estavam aprendendo a ligar o led”.

A chance de evoluir veio quando o Instituto Robert Bosch, da multinacional alemã Bosch, se interessou pelo projeto e fez a dupla avaliar a experiência de Guaraqueçaba. O que estava errado no processo? Por que as crianças não aprenderam tanto? “Chegamos à conclusão que o problema era a protoboard. Aquele monte de furo atrapalhava na hora de fazer conexões e prejudicava o resultado final. Dá para fazer funcionar, mas tudo fica muito sensível a erro. Até a criança perceber que o led está invertido, ela já se frustrou e quer fazer outra coisa”.

Aos poucos, os equipamentos que antes eram soltos começaram a ser reunidos em kits, os fios, escondidos, e as conexões, ponto de maior dificuldade para as crianças, passaram ser feitas por ímãs. Algumas noites em claro depois, o Instituto Bosch ficou com 20 kits, que foram destinados ao Colégio Estadual Arlindo Carvalho de Amorim, no bairro Cidade Industrial de Curitiba. Segundo Chianca, a escola vivia uma realidade comum a outras instituições do país, com professores desmotivados, muitas aulas vagas e paredes pichadas. Ainda assim, o piloto foi visto como uma grande oportunidade. “Usamos o projeto social de agosto a novembro para desenvolver o produto na prática. Os alunos são extremamente sinceros na hora de avaliar. Fomos melhorando enquanto ouvíamos ‘não gostei’, ‘tá ruim’ e ‘não serve'”.

Os alunos são extremamente sinceros na hora de avaliar. Fomos melhorando enquanto ouvíamos ‘não gostei’, ‘tá ruim’ e ‘não serve’

Com um produto mais estável e com a experiência de quem já havia conhecido a vida em sala de aula no primeiro semestre, os empreendedores organizaram, em dezembro, um hackateen, maratona de programação com os estudantes do colégio, que surpreendeu pelos resultados alcançados. O grupo que ficou em segundo lugar usou um leitor de RFID (tecnologia de rádio-frequencia que permite a etiquetas serem lidas automaticamente por sensores) para controlar a presença e o horário que os alunos entram na sala de aula, facilitando o controle de frequência e a vida do professor, que não precisaria mais fazer chamada “Esses alunos eram aqueles que a gente achava que ia dar trabalho desde o primeiro dia de aula”, descreve Dias. “O resultado serviu para mostrar para a diretora que esses alunos têm total condição de serem bons assim como outros”. No pitch para empreendedores, donos de startups e aceleradoras, o grupo vencedor apresentou um projeto de um sinal de trânsito que recebe um sinal da ambulância e deixa o sinal verde para facilitar o tráfego e agilizar o atendimento.

Perto da entrega de seu 100º kit de eletrônica, que está na 12ª versão e tem um preço médio de R$ 317, a Elétron, que virou empresa apenas em novembro, acaba de ser vendida, por valores não divulgados, para a Supergeeks, uma rede de 40 escolas de programação e robótica para crianças e adolescentes. Da eletrônica, agora Dias e Chianca falam em partir para a robótica. “A gente vai desenvolver um produto novo, o Robogeeks, com blocos programáveis que poderão ser usados tanto nas unidades da Supergeeks quanto em outras escolas”, explica Dias.

Se por um lado o negócio recebe reforço em suas estruturas para se manter em pé, por outro faz com que a dupla sonhe em continuar avançando. “A gente abraçou essa oportunidade (de venda), porque nos dará garantia de continuidade. O objetivo da Elétron desde o começo foi de democratizar o ensino de tecnologia e especificamente de eletrônica. Agora é espalhar o ensino da robótica para além das escolas e chegar até as universidades”. Antes disso, eles voltam a correr contra o tempo e precisam finalizar a primeira versão do kit de robótica, que tem lançamento previsto para a Bett Educar, feira de educação que acontece no próximo mês de maio, em São Paulo (SP).

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aprendizagem baseada em projetos, ensino fundamental, ensino médio, negócios de impacto social, programação, robótica, tecnologia