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Inovações em Educação

Quando a revolução do ensino superior bate à porta

Na semana em que Veduca e USP anunciam primeiro Mooc da América Latina, Porvir discute novos caminhos para a universidade

por Patrícia Gomes 10 de junho de 2013

Carolina Cavaleiro, 26, designer gráfica formada pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), tem gasto seu tempo livre dos últimos cinco fins de semana estudando a história do rock – por prazer e porque essas informações lhe podem ser úteis em seu trabalho de infografista. A universidade que dá essas aulas, a Rochester, fica em Nova York, mas Carolina não precisa sair de casa, nem pagar nada para ter acesso ao curso. Liga seu laptop, assiste a videoaulas, faz exercícios, lê o material complementar, conversa com colegas de todo o mundo. “Não sei se existe um curso similar no Brasil. Talvez tivesse que fazer uma faculdade de música se quisesse aprender o que estou aprendendo. Como eu trabalho, nunca teria tempo”, diz a jovem, típica representante da geração Y, grupo de pessoas de 18 a 30 anos que usa a tecnologia com destreza em atividades cotidianas, preza por flexibilidade, espírito colaborativo e quer ter oportunidade de se envolver a fundo com temas de seu interesse. Nem que seja fora da universidade tradicional.

crédito eemarcello / Fotolia.com

“É o caminho que o mundo está trilhando. É você não precisar adequar seus horários para as atividades de que gosta, como ver filmes, ouvir música e, por que não, estudar”, diz Carolina, uma das milhares de brasileiras que aderiram aos Moocs (massive open on-line courses ou cursos abertos, gratuitos e para grandes públicos). O movimento, que começou a pipocar no ano passado com o Coursera (inciativa das universidades Stanford, Princeton, Michigan e Pensylvania) e o edX (Harvard e MIT), ganha nesta semana a primeira iniciativa da América Latina, com o lançamento da parceria entre a USP (Universidade de São Paulo) e o portal Veduca, para oferecer cursos de física e estatística. “Estamos usando a tecnologia para quebrar paradigmas”, afirma Vanderlei Bagnato, responsável pelo Mooc brasileiro de física básica. Na semana em que a discussão sobre o impacto desse tipo de curso no ensino superior ganha força, o Porvir consultou especialistas para saber: afinal, como será a universidade brasileira do século 21?

“Temos visto que a universidade vai ter que trabalhar com recursos abertos, valorizar colaboração, criatividade, espírito empreendedor, permitir uma formação que englobe múltiplos interesses”, afirma Cristiana Mattos, especialista em tecnologias educacionais e membro do grupo brasileiro do New Media Consortium, organização que publica relatórios anuais temáticos sobre o futuro da educação. Na edição deste ano sobre ensino superior, o documento apontou, além das características citadas por Cristiana, também a necessidade de se desenvolverem habilidades que sejam úteis “no mundo real”, aceitar muitas outras fontes críveis de informação – além do tradicional livro e do professor, não mais únicos detentores do conhecimento – e de se adaptar a um novo paradigma de ensino, cada vez mais on-line, híbrido e calcado em modelos colaborativos.

“Os diplomas terão de ser diferentes. Não vamos ter mais o engenheiro, mas o engenheiro que é designer e comunicador”, afirma Tiago Mattos, cofundador da Perestroika, uma escola que dá cursos livres de assuntos tão diversos quanto novas formas de pensar e negócios digitais. Mattos é também um dos únicos brasileiros a ter cursado a Singularity University, uma instituição que tem reunido líderes do mundo em torno do objetivo de aplicar as tecnologias emergentes para resolver desafios mundiais, como a falta de ensino básico e a fome em países subdesenvolvidos. Para ele, os membros da tal geração Y estão muito interessados em se tornarem profissionais multidisciplinares e, aos poucos, as universidades deverão se atentar a essa demanda já sinalizada pelo mercado. “O emprego como conhecemos hoje vai se tornar obsoleto em 15 anos”, afirma. Em relatório da consultoria McKinsey divulgado na semana passada sobre educação e emprego, apenas 31% dos empregadores disseram que os recém-formados saem da universidade preparados para desempenhar funções em suas áreas de formação.

“Isso permite um ensino mais personalizado, em que o aluno escolhe os caminhos que querem seguir, no tempo dele, no jeito dele, segundo as necessidades dele”

“A maior parte do que se aprende hoje na universidade não representa nada no mercado de trabalho, porque os conteúdos mudam”, afirma Marcelo Knobel, que é professor do Instituto de Física da Unicamp, já foi pró-reitor de graduação e segue pensando caminhos para o ensino superior. Segundo o especialista, a grande preocupação da universidade deve ser a adequação dos currículos, de maneira a permitir uma formação mais ampla,  abrangente e que desenvolva nos alunos a habilidade de “aprender a aprender” ao longo da vida, e não apenas na universidade. Cristiana vai além: para ela, os currículos devem ser escolhidos como um cardápio. “Isso permite um ensino mais personalizado, em que o aluno escolhe os caminhos que querem seguir, no tempo dele, no jeito dele, segundo as necessidades dele”, diz a educadora.

Outra característica que a universidade brasileira deverá desenvolver é o estímulo ao espírito empreendedor. “O empreendedorismo é a nova Lei Áurea. É a forma de libertar a pessoa, permitir que ela seja mais feliz e produtiva”, afirma Mattos, da Perestroika. Bem próxima ao empreendedorismo, a valorização do aprender fazendo – ou o learn by doing, do inglês – também deve ganhar mais espaço, com oportunidades de aprendizado por projetos. “É muito menos um conteúdo transmitido por uma pessoa e mais grupos em que um monte de gente aprende junto, entre pares”, diz Mattos.

Entre as características citadas como tendências para a universidade brasileira, poucas estão efetivamente sendo aplicadas, afirma Cristiana. “Existem iniciativas pontuais acontecendo, mas a própria sociedade vai exigir mudanças. Temos um belo caminho pela frente e o primeiro grande desafio é mudar a mentalidade dos gestores”, diz ela. Mattos, da Perestroika, cita três momentos paradigmáticos da história da humanidade: a revolução agrícola, a industrial e a digital. Esta última, acontece agora. “Estamos surfando numa onda e não sabemos onde nem como ela vai quebrar. Tudo indica que teremos muitas mudanças daqui para frente”, prevê o educador.

Para entender melhor o que são a universidade e os alunos de hoje e as tendências esperadas para um futuro próximo no ensino superior, o Porvir preparou um infográfico. Confira.

crédito Regiany Silva / Porvir
Infográfico Ensino Superior

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aprendizado baseado em projetos, aprendizagem colaborativa, ensino superior, mooc

  • Excelente o post, parabéns! Gostaria apenas de destacar que essas tendências apontadas pelo estudo da New Media Consortium vem se realizando a décadas de uma forma ou de outra. A necessidade de instensificar experiências práticas nas universidades deu início ao movimento empresa júnior, por exemplo. Alunos já fazem as buscas em fontes diversificadas de informação para seus trabalhos à revelia do que dizem os professores.

    No entanto, acredito que muito aconteceu apesar da universidade, e não por causa dela. A escolha é: podemos resistir às mudanças como a maioria tem feito hoje ao tentar controlar e checar a originalidade de um trabalho que não desafia nem engaja o aluno; ou o professor e a universidade podem juntos parar de culpar o aluno e passarem a eles se proporem o desafio e a responsabilidade pela formação dos jovens.

    • Marcelino

      A ideia apresentada no texto é muito boa, mas isso não corresponde à realidade. A maioria dos jovens não são tão engajados nos temas citados no texto, pois a maioria se informa sobre os mesmos bem superficialmente e não possuem opinião própria, pois só repetem o que a maioria diz. Hoje em dia não se valoriza o conhecimento; para se certificar disso, basta ver, por exemplo, o que a TV (ou outros meios de comunicação) oferecem para as pessoas. Se eles oferecem, é porque há demanda. Nesse contexto, a maioria dos jovens não exige uma programação de qualidade, muito pelo contrário, eles são boa parte da audiência.

      Um outro problema, os jovens não gostam de aprender assuntos complexos. Tudo para eles tem de ser rápido e fácil. Infelizmente, esse novo modelo de educação parece favorecer esse mau hábito ao mostrar como algo negativo o fato das universidades favorecer a aprendizagem teórica. O que deveria ser destacado é a relação da teoria com a prática, não o favorecimento da prática em detrimento da teoria, esta vista como algo quase obsoleto.

      Quanto aos cursos à distância apresentados na matéria, estes são cursos complementares, oferecidos para quem já é formado (ou está se formando), como foi o caso da estudante de designer formada pela Unesp. Para ela, por ter maturidade e saber estudar, esses cursos à distância são bem vantajosos. Mas para uma pessoa sem preparo, um curso desse não renderia nada.

      Como eu disse antes, infelizmente a sociedade não valoriza o conhecimento, pois o que importa é apenas ganhar dinheiro, não importando se alguém é ou não entendido no assunto, desde de que se ganhe muito dinheiro. Isso já começa na escola, pois quem é bom aluno recebe o apelido pejorativo de “nerd”, e ninguém quer ser visto como alguém que estuda bastante, alguém “nerd”.

      O maior desafio para a educação é será oferecer um ensino de qualidade e fácil acesso para todos. No dia em que a elite de nosso país deixar de mandar os seus filhos para estudar no exterior ou em nossas melhores universidades públicas, que aprendem por meio dos métodos “arcaicos” de ensino, com aulas presencias, professores na sala, avaliações escritas e tudo mais, e passarem a aderir aos novos modelos educacionais, aí podemos começar a vislumbrar uma real revolução no ensino. Agora, se essa revolução será algo democrático, aí já é outra história.

      • Wilson

        Vivemos a era fastfood, onde tudo tem que ser rápido e prático, e o jovem de hoje, auxilado pela tecnologia, oportunidade, aparente menor esforço intelectual tem aderido massivamente a esta prática, que passa a ser defendida pelos especialistas educacionais como o ingrediente mais importante para a evolução educacional e profissional do homem. Mas a história da humanidade tem mostrado que nem tudo ou talvez quase nada pode ser assim. Desenvolver a cura de doenças graves nunca foi e nem será feito num estalar de dedos ou pelo simplório método da tentativa e erro, tampouco ir à lua, muito menos compreender à luz da História, Filosofia, Sociologia ou qualquer ramo do conhecimento a evolução do homem, recuperar o ecossistema do planeta e conseguir desenvolver a tal da sustentabilidade. Tudo isso exige que o homem seja jovem ou não “queime pestanas” exercite exaustivamente as faculdades mentais mesmo com o precioso auxílio da tecnologia, produza teoria (simples ou complexa) e a transforme em um processo prático. É disso que o jovem precisa ser conscientizado e convencido a aderir. O mais é criar moda educacional como vimos fazendo a pelo menos a 100 anos, enquanto isso nas nações desenvolvidas, o método “arcaico” vai produzindo riqueza e poder. Havard, Stanford, Princeton, MIT e outras aderem a essas novas tecnologias, porém não desistem ou abandonam o velho e proveitoso “arcaísmo” universitário. Porque será, hein?!

  • Marcos

    Pois eu ja vejo a coisa bem invertida. Quanto mais o pessoal quiser fugir do curriculo classico, maior sera a necessidade do especialista. Esse profissional “faz tudo ” eh que nem multifuncional: faz um monte de coisa mas nao faz nada direito.

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