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Rede no fundo do rio leva internet a estudantes no Amazonas

Projeto que pretende instalar 8 mil quilômetros de fibra ótica subfluvial promete revolucionar ensino em comunidades remotas

por João Carlos Magalhães 24 de agosto de 2015

Na manhã do dia 8 de abril deste ano, uma espécie de balsa navegava sobre o Rio Negro, em Manaus (AM), levando um carretel de mais de quatro metros de altura. Dele, um fio grosso e preto era cuidadosamente desenrolado até submergir na água, sob os olhares de funcionários paramentados de capacetes, óculos escuros e macacões laranjas.

Quem observasse a curiosa cena talvez não soubesse, mas aquele era o primeiro passo prático do maior plano já desenhado para ligar populações isoladas da Amazônia à internet ­– e com isso levar a promessa de uma mudança sem paralelo nas possibilidades de aprendizagem na região.

Chamado de “Amazônia Conectada”, o programa de R$ 1 bilhão é capitaneado pelas Forças Armadas e tem um objetivo grandioso: passar cerca de 8 mil quilômetros de fibra ótica pelos rios Negro, Solimões, Madeira, Juruá e Purus para chegar a 52 municípios e dar conectividade de banda larga a centenas de milhares de pessoas, dentre eles mais de 240 mil alunos de todos os níveis do sistema estadual.

 

 

Para se ter uma idéia da extensão que o plano pretende cobrir, 8 mil quilômetros equivalem quase ao trajeto em linha reta de ida e volta entre Oiapoque (AP), extremo norte do país, e Chuí (RS), extremo sul.

A solução encontrada busca responder às dificuldades criadas pelas peculiaridades da floresta. Nela, boa parte da população está em comunidades cuja única forma de acesso é o rio – estradas e aeroportos têm custos ambientais e econômicos proibitivos. O acesso à internet é precário e instável. Majoritariamente, ele ocorre por meio de conexões por satélite, e muitas vezes a escola é o único local onde essa conexão pode ser acessada – não raro, por apenas uma máquina.

Além de limitado, esse uso é também caríssimo, pois é preciso pagar pelo uso do satélite. A transmissão de 1 mega custa ao menos R$ 4 mil. “E já foi muito mais caro, quando havia menos satélites direcionados para essa área”, disse Rossieli Soares da Silva, secretário de Educação do Amazonas, entidade que é uma dos parceiras do programa. Mesmo se houvesse dinheiro para o uso em larga escala desse tipo de conexão, continuaria havendo dificuldades físicas de instalação de equipamentos. As parabólicas têm de ser carregadas em barcos às vezes por dias a fio até as escolas rurais, e estão sujeitas a fenômenos climáticos – como as cheias dos rios.

Já a idéia do “Amazônia Conectada” parece, inicialmente, simples e, uma vez terminado, de uso barato. A fibra, que pesa uma tonelada por quilômetro, cairia naturalmente no leito do rio, sendo ao longo do tempo soterrada e recebendo uma proteção natural. No entanto, os desafios são vários.

Primeiro, os rios têm topografias complexas. A fibra poderá ter de ser colocada em locais de cachoeira, por exemplo. Outra questão é como fazer com que, dessa espinha dorsal de fios subaquáticos, saiam as redes (sem ou com fio) para atingir comunidades e escolas localizadas quilômetros adentro da floresta.

Por ora, esses problemas parecem distantes, pois o programa está em seus passos iniciais (o trecho piloto é entre Manaus e Tefé) e deve demorar anos para ser terminado. Os militares falam em concluí-lo em 2017. Rossieli é mais pessimista ­– vislumbra ao menos quatro anos de trabalho, dadas as dificuldades logísticas.

Quando concluído, no entanto, ele poderá trazer uma revolução ao ensino da região, e se tornar um exemplo a ser replicado em outros Estados. Segundo o secretário, um problema de difícil solução quando se trata do uso da internet na educação nessas comunidades é que, mesmo que exista uma conexão e mesmo que existam computadores, dificilmente haverá banda ou sinal suficientes para que os alunos possam, sozinhos, acessar à internet. O uso da rede, quando possível, é uma experiência coletiva. Os alunos não têm a chance de explorar eles mesmos a tecnologia.

Essa situação, lembra Rossieli, limita muito as possibilidades pedagógicas da conectividade, e deve mudar se o projeto se concretizar. O Estado do Amazonas já tem um programa avançado de videoaulas, com um foco justamente nas comunidades ribeirinhas. Elas são ao vivo, permitem um certo grau de interação, por meio de chats e emails, e demandam professores nos locais para desenvolver atividades ligadas ao conteúdo da palestra assistida pelos alunos. Com uma internet de qualidade e máquinas funcionando, os alunos dessas localidades poderiam, mesmo sem ter um professor de física, por exemplo, ter acesso ao conteúdo da matéria.

O Amazônia Conectada também aumentaria muito o alcance das videoaulas. Hoje, os programas, gerados a partir do Centro de Mídias de Educação do Amazonas, em Manaus, é captado por meio das caras conexões via satélite e permitem que 40 mil estudantes de 3 mil comunidades tenham aulas de ensino médio e fundamental onde moram, em vez de fazer longas viagem até escolas mais próximas. Mas calcula-se que apenas metade das comunidades isoladas se beneficiem desse ensino à distância.

A Internet poderia também ajudar a sanar um grave problema do Amazonas: a falta de professores devidamente treinados. Hoje, em diversas comunidades os professores lecionam matérias com as quais têm pouca ou nenhuma intimidade. O Amazônia Conectada ampliaria as possibilidades de ensinar os professores dessas localidades isoladas.

O resto da sociedade também teria acesso à cultura daqui. O mundo poderia enxergar como é o interior do Amazonas

Questionado sobre quão importante é a conectividade para a evolução da educação no Estado, o secretário disse que ela é de “altíssima prioridade”, mesmo se comparada com outras questões mais tradicionais, como o tamanho das salas de aulas. Ele disse estar consciente de que a chegada da internet pode ter um impacto na cultura local – basicamente indígena –, mas afirma que a comunicação é de duas mãos, e daria voz a uma parte da população normalmente esquecida. “O resto da sociedade também teria acesso à cultura daqui. O mundo poderia enxergar como é o interior do Amazonas.”

Ainda que o programa federal seja a maior aposta, o governo estadual estuda outros caminhos para fazer com que a banda larga chegue até esses locais e suas escolas. Uma delas é tornar operacional a fibra que acompanha a linha de transmissão da hidrelétrica de Tucuruí (PA). Outra é a utilização de balões de conexão projetados pelo Google.

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conectividade, especial tecnologia na educação, infraestrutura