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Diário de Inovações

Voluntária cria projeto que ajuda a “perceber o outro”

Para melhorar a percepção que os alunos tinham sobre os colegas, Kita Flórido realizou atividades dinâmicas que envolvem a memória e os sentidos

por Kita Flórido 27 de abril de 2016

Como voluntária no Colégio Sidarta, em Cotia (SP), percebi uma carência entre alunos do 6º ano de atividades que envolvessem trabalhos manuais, artes e outras habilidades. Por isso, conversei com a diretora e perguntei se poderia desenvolver algo para a aula de projetos especiais, que estava estava livre. Após uma sondagem com as crianças, entendi que, mais do que desenhar e realizar criações artísticas, os alunos queriam saber por que estavam na escola e tinham que estudar. Para ajudá-los a encontrar respostas para seus anseios, criei o projeto das caixas, que chamei de GLOWD!. A ideia não era responder essas perguntas, mas mexer com os sentidos e mostrar para os jovens que quando a gente está alerta, conseguimos perceber o nosso entorno e ter uma visão muito mais ampla do mundo.

O exercício começou com a montagem de caixas no meio da quadra, o que já foi uma brincadeira divertida para eles. Depois, para mostrar como o olfato desperta memórias, pedi que entrassem em suas caixas com um lenço com o perfume da mãe ou do pai ou algum cheiro que remetesse a infância e escrevessem, na parte de dentro, lembranças que tinham da vida. Um aluno até perguntou se eu iria ler o que estavam escrevendo, mas eu falei: “não, é uma coisa sua”.

caixas 03Alunos escrevendo dentro das caixas. Acervo pessoal

Depois, na outra aula, a gente trabalhou com música e tato. Pegamos a mesma caixa e eles pintaram dois lados com cores que não os representassem. Esse exercício foi feito enquanto eles ouviam música, cada um com um fone, e teve que pintar esses dois lados da caixa com guache, sem pincel. Eles usaram a mão pra sentir a cor. Foi uma bagunça, depois que acabaram, eles se pintaram inteiros, foi bem divertido. Em outra aula, eles pintaram os outros dois lados com cores que os representavam, usando o mesmo processo com a música e o tato.

Na semana seguinte, eu falei pra eles: “agora vocês vão entrar na caixa, ficar de pé, no escuro, e com um lápis bem afiado, vão começar a furar a caixa”. A ideia era que eles escolhessem alguma lembrança que escreveram no lado de dentro e fizessem um furo pra cada tipo de sensação que foi marcante na lembrança. Por exemplo: para o dia que você caiu de bicicleta, qual é a sua lembrança maior? Pode ser uma lembrança do tato, porque sentiu dor, ou uma lembrança do cheiro da grama onde caiu. O número de furos representava a intensidade da lembrança.

A partir disso, eles perceberam que, quanto mais furos faziam, mais luz ia entrando. Aí eu falei “depois que vocês tiverem feito um número de furos suficientes, vocês podem começar a se mover dentro da caixa e andar pela quadra para tentar reconhecer o outro”. Os que tinham mais furos, conseguiam se locomover melhor.

caixas 01Movimentação pela quadra. Acervo pessoal

Quando todo mundo saiu da caixa, fizemos um círculo com um estudante no centro. Eu comecei perguntando qual era a cor da caixa da pessoa que estava em destaque, mas cada um respondeu uma cor. Instiguei o debate com mais uma pergunta: quem tinha a visão correta de que cor era a caixa? E eles chegaram a conclusão que a visão dependia da posição de cada um e que nunca iam conseguir entrar num consenso sobre que cor era a caixa se não tivessem a iniciativa de observá-la sob vários ângulos.

No fim, eu não ensinei matéria alguma. Eu ensinei as crianças a perceberem as coisas

Uma das crianças perguntou o que tinha dentro da caixa e eu respondi com outra pergunta: “Como dá pra saber o que tem dentro?”. E outro aluno respondeu que só “entrando na caixa”. A minha próxima pergunta foi: “E se a caixa for uma pessoa?”. Aí foi quando eles entenderam que a visão que você tem da pessoa por fora não é o que a pessoa é por dentro. Eles começaram a pensar que você não conhece alguém só de ficar olhando pra ela e a atividade desencadeou toda uma discussão sobre preconceitos e estereótipos.

caixas 02Alunos trabalhando em suas caixas. Acervo pessoal

Desde o começo do projeto, eu pedi que eles fizessem um desenho por dia. Na aula final, eu entreguei o envelope com todos os desenhos e falei pra cada um colar os seus do lado de fora da caixa. Aqueles que capricharam, tinham desenhos maravilhosos para colar. Já outros, não tinham um material tão bom assim. Com isso, eles perceberam que o empenho de cada dia reflete na imagem que as pessoas terão de você. Uma aluna até perguntou se podia fazer tudo de novo. Eu falei que sim, mas só havia aquele dia para o trabalho ser finalizado e eles perceberam que não adianta querer resolver todo o problema em um dia só.

Depois de todo esse processo, os próprios alunos entenderam que quando a gente está no nosso próprio mundo, estamos no escuro, na ignorância. Dar importância para as nossas experiências e para os nossos sentimentos muda a nossa vida e a gente começa a enxergar o outro. No fim, eu não ensinei matéria alguma. Eu ensinei as crianças a perceberem as coisas.

Kita Flórido

Arquiteta e Diretora de Arte. Além de trabalhar com publicidade, curadoria e arquitetura, trabalhou como voluntária durante mais de 10 anos no Núcleo de Projetos Sidarta e no Colégio Sidarta, desenvolvendo projetos culturais de arte educação. O Projeto GLOWD! é um dos projetos desenvolvidos e aplicados no Colégio Sidarta.

TAGS

aprendizagem colaborativa, brincadeiras, ensino fundamental