Desafios e caminhos para a formação de professores no Brasil - PORVIR
Crédito: luigi giordano / Fotolia.com

Inovações em Educação

Desafios e caminhos para a formação de professores no Brasil

Porvir inicia série de reportagens para estimular o debate sobre como devem ser preparados os novos profissionais de educação

por Marina Lopes ilustração relógio 15 de outubro de 2015

S
Este conteúdo faz parte da
Série Formação de Professores

Um bom docente tem um papel fundamental na vida do seu aluno. A decisão sobre como deve ser a formação de professores gera impacto no projeto educacional de qualquer nação. Com as mudanças constantes nas formas de aprender e ensinar, os cursos de licenciatura devem preparar os futuros professores para dialogarem com a nova realidade da sala de aula, atuando como mediadores e designers de aprendizagem.

Para estimular o debate sobre a preparação dos novos profissionais, o Porvir aproveita a celebração do Dia dos Professores (15) para lançar a série de reportagens Formação de Professores, que apresenta o cenário atual, desafios e caminhos para a formação inicial no país.

De acordo com os dados do Censo da Educação Superior 2013 (último levantamento divulgado), existem 7.900 cursos de licenciatura na área de educação espalhados por todo país. Neste ano, mais de 200 mil alunos foram licenciados (56% pela modalidade presencial e 44% pelo ensino à distância). Porém, especialistas na área apontam que muitos cursos ainda estão bastante distantes da realidade da sala de aula.

Em 2010, ingressaram 392.185 alunos em cursos de licenciatura na área de educação. Após quatro anos, o número de concluintes chegou a 201.011. No ano de 2013, das 990.559 vagas que foram oferecidas, apenas 468.747 foram preenchidas (152.397 em instituições públicas e 316.350 em privadas). Segundo Valeska Maria Fortes de Oliveira, pesquisadora da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e coordenadora do grupo de trabalho de formação de professores da ANPEd (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), a atração de profissionais para o ingresso na carreira docente é um dos primeiros entraves para a formação inicial no país.

Se nós não cuidarmos dos professores da educação básica, estamos fadados a continuar tendo dados educacionais de baixo nível

A formação é um dos itens que, de acordo com a pesquisadora, integra a chamada condição docente, constituída por carreira, salário e condições de trabalho. “A forma com que se trata o professor é um dos primeiros problemas que hoje enfrentamos para atrair alguém para dar aula no Brasil”, diz Oliveira, ao analisar a necessidade de valorização da carreira.

Leia o artigo “O que explica a falta de professores nas escolas brasileiras?”

O PNE (Plano Nacional de Educação) dedica quatro de suas 20 metas aos professores: prevê formação inicial, formação continuada, valorização do profissional e plano de carreira. Para que se tenha uma dimensão do trabalho que o país tem pela frente, entre os 2,2 milhões de docentes que atuam na educação básica do país, 24% não possuem a formação adequada, conforme dados do Censo Escolar 2014. “Se nós não cuidarmos dos professores da educação básica, estamos fadados a continuar tendo dados educacionais de baixo nível”, afirma a pesquisadora Bernardete Gatti, vice-presidente da Fundação Carlos Chagas.

O cenário contrasta com a meta número 15 do PNE, que prevê que todos os professores da educação básica tenham formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área em que atuam. Para Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a formação inicial no país ainda é muito frágil. “Ela é insuficiente em relação às demandas das próprias leis brasileiras”, afirma. Cara explica que para se aproximar das metas é preciso começar a tratar o plano como prioridade.

Dentro das medidas adotadas no primeiro ano de vigência do PNE, em julho de 2015, foram divulgadas as novas diretrizes para a formação de professores, elaboradas pelo CNE (Conselho Nacional de Educação). O documento aumenta o tempo mínimo de formação para os cursos de licenciatura, que passam de 2.800 para 3.200 horas. Além disso, os cursos deverão contar com mais atividades práticas, aproximando os futuros professores do cotidiano da escola.

Aproximação entre teoria e prática

As novas diretrizes tentam lidar com um dos principais gargalos da formação de professores no país: a articulação entre teoria e prática. Segundo Paula Weiszflog, coordenadora geral de pós-graduação e extensão do Instituto Singularidades, de São Paulo, muitos profissionais saem da universidade com o domínio do conteúdo, mas com pouca base didática. “Ele [professor] chega na sala de aula totalmente despreparado porque não sabe como passar aquele conteúdo que viu”.

Para Miguel Thompson, diretor da mesma instituição, a experiência de alunos na universidade ainda está muito concentrada no lado acadêmico. “Elaborar um paper se tornou mais importante do que fazer um plano de aula. Essa questão tem que ser debatida”, ressalta, ao mencionar que algumas licenciaturas estão formando biólogos, físicos e matemáticos, mas não professores de biologia, física e matemática.

Bernardete Gatti, da Fundação Carlos Chagas, avalia que a situação requer medidas que vão além de ajustes. “Nosso grande problema é fazer uma espécie de revolução na formação de professores”. Segundo a pesquisadora, as licenciaturas não estão estruturadas para formar um professor. “Elas não formam bem nem no conhecimento específico e nem nas didáticas e práticas de ensino necessárias para uma atuação nas escolas”.

Não adianta reformular os currículos dos cursos de pedagogia ou licenciaturas, se a própria postura e concepção dos professores formadores dentro das universidades não mudar

Além das questões envolvendo o ambiente universitário, a falta de diálogo com a realidade da escola é outro fator apontado como fonte de dificuldades para os professores recém-formados que ingressam nas redes de ensino. Jorge Carvalho, secretário de Educação do Estado de Sergipe e coordenador do eixo prioritário Planos de Carreiras no Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), diz que durante esse processo habilidades necessárias para a prática docente acabam ficando de lado. “As universidades, de modo geral, estão oferecendo licenciaturas que muito se assemelham a um bacharelado. Elas estão muito preocupadas em formar pesquisadores.” Segundo ele, a sociedade deve fazer um pacto sobre o tipo de professor que se quer formar.

Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), defende que a formação inicial deve preparar um professor para ser capaz de ler a realidade do seu aluno, ter empatia com a comunidade e, além de dominar os conteúdos, saber como ensinar. No entanto, ela pondera: “Não adianta reformular os currículos dos cursos de pedagogia ou licenciaturas, se a própria postura e concepção dos professores formadores dentro das universidades não mudar.”

Novas metodologias, uso de tecnologia e avaliação

Assim como se fala sobre o uso de novas metodologias na educação básica, as instituições formadoras devem transformar a sua forma de ensinar. “Há uma pedagogia dentro da universidade que precisa ser refeita e aberta. Há formadores fechados, achando que ainda cabe ensinar dentro do modelo que aprenderam”, destaca a pesquisadora Valeska Maria Fortes de Oliveira, da ANPEd, ao mencionar que, para criar referências para o futuro professor, é importante usar a homologia dos processos, ou seja, aplicar na sua formação as mesmas práticas pedagógicas que deverão utilizar com seus alunos.

– Confira o especial Tecnologia na Educação 

“O mundo avança rapidamente, e as crianças já nascem com acesso à tecnologia. Essa criança certamente vai exigir uma participação muito maior na sala de aula”, diz Rodolfo Joaquim Pinto da Luz, secretário municipal de Educação de Florianópolis (SC) e membro da diretoria nacional da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação). De acordo com ele, é preciso preparar os futuros professores para atuarem em um novo contexto, onde possam ser mediadores, saibam promover a inclusão de todos os alunos e estejam constantemente atualizados de acordo com uma didática alinhada ao século 21, incluindo até noções de neurociência para compreender como seus alunos aprendem.

A responsabilidade de formar jovens é grande. A nação tem que assumir isso

Dentro do desafio de preparar os novos professores, a formação também deve incorporar a tecnologia e as novas linguagens. “O professor tem que estar preparado para utilizar, no seu dia a dia, todos os equipamentos que podem oferecer uma aprendizagem diferenciada para os alunos”, defende o dirigente. Mas, diante de todas essas competências e habilidades desejáveis, como saber se os professores formados estão aptos para lidar com a realidade da sala de aula?

Avaliar os professores que estão sendo formados também é um desafio para o país. De acordo com os especialistas na área, a grande questão é criar métricas que não sejam punitivas, mas consigam dar conta de avaliar os novos profissionais e oferecer suporte para o desenvolvimento da sua prática. “A responsabilidade de formar jovens é grande. A nação tem que assumir isso”, destaca Miguel Thompson, do Instituto Singularidades.

Infográfico mostra o raio-x da formação inicial de professores no Brasil

Confira outros conteúdos da série:O que explica a falta de professores nas escolas brasileiras?Ensino superior se aproxima da escola para formar professores‘Ser físico é muito bom, mas poder ensinar é melhor ainda’No Teachers College, tecnologia faz do professor agente de transformaçãoNeurociência é aliada na preparação do professor para a sala de aulaNovas metodologias usam situações reais para formar professoresFormação de professores deve caminhar junto com a Base
- Avaliação de professores precisa apoiar formação

 


TAGS

formação inicial, plano nacional de educação, série formação de professores

14
Deixe um comentário

avatar
500
11 Comentários ao conteúdo
3 Respostas a comentários
0 Seguidores
 
Comentário com mais reações
Comentário em alta
13 Autores
Mira Mendes PedagogaMauricio ContiMarilene Fagundes Ligia Aparecida Januario de LiThiago Nascimento Quem acabou de comentar
  Acompanhar a discussão  
Mais recentes Mais antigos Mais votados
Tipo de notificação
Cylene Silva Cavalcanti
Visitante
Cylene Silva Cavalcanti

CONCORDO PLENAMENTE, TENHO CURSO DE ORATÓRIA E DIDÁTICA, E FAÇO RECICLAGEM A CADA 6 MESES, AGORA FAÇO LICENCIATURA DE ARTES VISUAIS E AMO DAR AULAS. NÃO TENHO EXPERIÊNCIA NA ESCOLA, MAIS TENHO EXPERIÊNCIA EM DAR AULAS A JOVENS DE 14 A 18 ANOS, POIS JÁ FUI PROFESSORA DE SEMINÁRIO.(ESTUDO BÍBLICO.) E A FORMAÇÃO FOI NA IGREJA DE JESUS CRISTO DOS SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS, CRESCI LÁ DESDE OS 10 ANOS E FUI PROFESSORA DOS MEUS… Ler mais »

Larissa
Visitante
Larissa

Ótimo texto. De fato, precisamos discutir cada vez mais a formação docente para alcançarmos projeções que, de fato, tomem rumos e práticas significativas para a consolidação de cursos de formação inicial (e continuada) que oportunizem aos professores novas perspectivas, concepções, conhecimentos e estratégias didáticas que elevem a qualidade da educação básica ofertada no nosso país.

Tina
Visitante
Tina

Linda reflexão. Precisamos de mais espaço para discutir a formação do professor. Parabéns Porvir! Esquizofrenia educacional – Professores Universitários citando Paulo Freire e praticando a pedagogia da opressão. Os cursos universitários de Pedagogia e Licenciaturas estruturados em grades fragmentadas… uma desumana educação fabril é a mais pura expressão da Pedagogia do Oprimido [Paulo Freire], com alunos sentados um olhando para a nuca do outro, encabrestados voltados para a lousa e um professor discursando seu “todo… Ler mais »

Maria Celeste Lameira da Costa
Visitante
Maria Celeste Lameira da Costa

Tina seu comentário representa toda a realidade cruel da formação dos alunos que, num estilo dominó abala todos os segmentos da formação dos indivíduos, em qualquer área do conhecimento e futuras atuações profissionais

Camila Sabino
Visitante
Camila Sabino

Gostei muito da reflexão, mas por outro lado não podemos esquecer das políticas públicas relacionadas á educação, pois quando falamos em uma educação onde os professores sejam mediadores e que deixam seus alunos argumentarem , expor suas ideias, esquecemos que o professor, principalmente dos anos iniciais do ensino fundamental, está em sala de aula com 30 alunos com as diversas dificuldades, tanto de indisciplina como de aprendizagem. Como pedir a esse professor para que o… Ler mais »

Fabiana Burgos T Garcia
Visitante
Fabiana Burgos T Garcia

Artigo excelente!!! Concordo plenamente que a formação dos professores no Brasil deve mudar para atender as demandas da nova geração e, acima de tudo, a escola inclusiva. Mas concordo também que “não adianta reformular os currículos dos cursos de pedagogia ou licenciaturas, se a própria postura e concepção dos professores formadores dentro das universidades não mudar” para deixar de formar biólogos, físicos e químicos, para formar mais professores de biologia, de física e de química.… Ler mais »

Maria Celeste Lameira da Costa
Visitante
Maria Celeste Lameira da Costa

Concordo com você Fabiana. Os cursos de licenciatura devem promover uma revisão de seus projetos, metas e principalmente Teorias, visando direcionar as futuras práticas docentes por questões que atendam as expectativas da Escola Cidadã, que de fato possa servir as necessidades da vida atual. E para isso é necessário que se discuta, já na escola e universidades, os vários desafios que se apresentam em todos os segmentos da nossa sociedade.

Ivez Medeiros
Visitante
Ivez Medeiros

Excelente trabalho! Adorei! Meus Muitíssimos Parabéns! Estou orgulhosamente grato por isto! Parabéns mesmo!

Thiago Nascimento
Visitante
Thiago Nascimento

Analise relevante e condizente com a realidade!

Planejamento Infantil
Visitante
Planejamento Infantil

Excelente Artigo! Parabéns

Mauricio Conti
Visitante
Mauricio Conti

Enquanto os acadêmicos e os professores brasileiros tiverem como referência Paulo Freire, esqueçam qualquer melhoria na educação. Muito pelo contrário, gastamos muito em educação, mas com essa base conceitual completamente equivocada, todo ano pioramos um pouco mais no ranking PISA.

Mira Mendes Pedagoga
Visitante
Mira Mendes Pedagoga

Eu já digo diferente: Enquanto quem está com a tarefa de ensino escolar só citar o nome de PAULO FREIRE e ACHAR que sabe sobre sua proposta de educação, nada mudará. Quando realmente se compreender O QUE É LEITURA, compreender que A LEITURA DE MUNDO ANTECEDE A LEITURA DA PALAVRA, quando entender que não basta dizer QUE EVA VIU A UVA sem provocar o pensamento de quem planta a uva, quem colhe (a situação do… Ler mais »

Marilene Fagundes
Visitante
Marilene Fagundes

Bastante pertinente o material exposto! Vejo que as universidades precisam mudar e muito, repensar seu papel, pois os cursos de Letras ofertados em minha cidade, os formandos saem da faculdade sem dominar os conteúdos, sem conhecer a própria língua (a gramática), então como saber ensinar? Os futuros profissionais ficam priorizando a apresentação da “mamografia” Mas reforço que “Não adianta reformular os currículos dos cursos de pedagogia ou licenciaturas, se a própria postura e concepção dos… Ler mais »

Ligia Aparecida Januario de Li
Visitante
Ligia Aparecida Januario de Li

Olha estou fazendo um trabalho na minha faculdade e essa materia se encaixou perfeitamente em tudo aquilo que eu queria dizer falta muito ainda para que o educador tenha uma formação digna e respeitada em nosso pais.
Mas nunca é tarde para que juntos possamos fazer a diferença e assim formar-mos professores conscientes daquilo que encontraram em salas de aula e estarão preparados para todas dificuldades que certamente encontrarão parabéns ótima materia.