Crédito: Paulinha Kozlowski/Colégio Medianeira

Diário de Inovações

Estudantes vivenciam todo processo de confecção de um livro

Em laboratório construído para despertar o interesse pela leitura, alunos experimentam etapas de produção, como escrita, composição tipográfica, ilustração e encadernação

por Marcelo Weber Macedo ilustração relógio 3 de maio de 2018

No ano passado, para atender a demanda de uma atividade concreta que fornecesse suporte prático à aprendizagem da escrita e fomento à leitura, criamos o Laboratório do Livro no Colégio Medianeira, em Curitiba (PR).

Para proporcionar uma experiência de aprendizagem integral, os projetos foram desenvolvidos por equipes reunidas pelo critério do interesse comum e diálogo interdisciplinar. Decidimos, por razões abaixo explicitadas, um conjunto de atividades que remontassem as origens do livro, mostrando seu valor na história e na construção das sociedades modernas. A ideia era apresentar técnicas, ofícios e saberes envolvidos na produção e ilustração das obras.

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Criamos um espaço aberto a toda comunidade acadêmica, o qual chamamos de “Laboratório do Livro – Tipografia estudantil”. Esse local foi projetado para possibilitar maior diálogo entre artes e as outras formas de expressão da realidade, através do exercício pouco usual em escolas das técnicas de gravura. Nosso “pacote metodológico” buscou despertar a curiosidade e o interesse pela escritura e produção do livro, este como suporte das diferentes formas de fixar o pensamento, a informação e a imaginação.

Partimos de três diagnósticos de fragilidades em campos distintos. No primeiro, detectamos um crescente afastamento dos alunos do livro e das bibliotecas, uma apatia em relação ao ato da leitura de textos em suporte papel e uma crescente utilização de veículos digitais, como meio de informação e pesquisa. No segundo, constatamos uma lacuna na prática da educação artística, em que as artes visuais carecem dos meios de expressão que as técnicas de gravura oferecem. Nas escolas em geral, a gravura é praticada de maneira isolada e esporádica. Em terceiro, a carência de um espaço multidisciplinar independente da sala de aula, onde estudantes pudessem desenvolver projetos individuais ou coletivos.

A partir deste diagnóstico, procuramos criar estratégias que envolvessem estudantes e professores em projetos tipográficos e produção de livros, postais, cordéis, camisetas, estampas, ex-libris, cartazes e outras formas de expressão. O Laboratório do Livro teve como objetivos o incentivo à cultura do livro e à literatura, oportunizando aos estudantes – e também a toda comunidade educativa – a descoberta dos processos de confecção do livro, da composição tipográfica, ilustração, encadernação.

O Laboratório do Livro ocupou um espaço central no mapa da escola, com circulação permanente de estudantes, funcionários e professores. Nele, desenvolvemos duas linhas de atividades: uma no contraturno – com ofertas de cursos de encadernação, restauro de livros, tipografia, cartazes, impressão em camisetas e oficinas de gravura e produção de papéis. – e outra, associada ao programa curricular, em parceria com professores da educação básica e fundamental, na qual aconteceram as práticas de composição de textos, cartões postais, cordéis, jogos educativos, mapas, representações de material científico, ilustração de histórias, leis, princípios científicos.

O colégio destinou um espaço de 50 metros quadrados para a tipografia, constando de prensas tipográficas, prensa de fuso para encadernação, prensa de cilindro para gravura em metal e madeira, cavaletes com mais de 50 fontes de tipos móveis, famílias de alfabetos de madeira, cubas para pasta de celulose para oficinas de papel reciclado e papel marmorizado, bancadas para produção de gravuras, entintamento, e estampagem. O local também conta com cinco metros de expositores de vidros e dez metros de expositores verticais, para mostra dos trabalhos realizados e para exposições de gravuras, e uma galeria de arte do livro e da ilustração com a exposição didática de estampas exemplificando as técnicas de gravura.

Conseguimos criar um ambiente de admiração pelo livro e valorização da escrita, oferecendo uma série de atividades que reforçam e ilustram o aprendizado teórico da alfabetização, como a tipografia de macarrão de letrinhas (sopa de letrinhas) e as técnicas de gravura, papel artesanal e análise de obras artísticas. Percebemos que possibilitar experiência concreta da produção, reprodução e divulgação do texto escrito e impresso dá ao estudante a experiência do ser autor.


Marcelo Weber Macedo

Tem formação autodidata e incompleta em quatro cursos universitários: engenharia, biologia, filosofia, história. Divide o tempo em práticas de marcenaria, pintura, cerâmica, tipografia, gravura, leituras e a docência com projetos experimentais e inovadores no ensino fundamental e médio, no Colégio Medianeira, em Curitiba. Também desenvolve workshops de educar com arte. Atualmente pesquisa jogos e processos lúdicos de aprendizagem, criando jogos ou adaptando conteúdos curriculares aos esquemas de jogos tradicionais, em parceria com outros professores do colégio.