Garagens se reinventam como lugar de fazer ciência - PORVIR

Inovações em Educação

Garagens se reinventam como lugar de fazer ciência

De Thomas Edison aos hackerspaces, espaços informais de experimentação científica se tornam mais abertos e colaborativos

por Giulliana Bianconi ilustração relógio 25 de abril de 2013

Foram mais de duas mil patentes registradas ao longo da vida, inclusive a da lâmpada elétrica, esse “detalhe” da vida moderna. Parte de todas as criações de Thomas Edison, um dos notáveis do século passado, foi feita em um laboratório próprio, em um subúrbio que ele mantinha em Nova York. No fim do século 19, quando Edison estava no auge da sua produtividade, o mundo respirava a Revolução Tecnológica e foi ali, na garagem, que ele prestou sua colaboração à sociedade. O século de Edison se foi e a Revolução, agora, é Digital. As garagens? Seguem firmes, mas com uma ressalva: estão mais abertas, mais colaborativas.

Trata-se de uma nova forma de produção, de organização, que não é uma realidade somente no Vale do Silício (EUA). A cultura digital vem fomentando modelos colaborativos de trabalho, pesquisa e troca em todo o mundo. O pesquisador Don Tapscott chama isso de Macrowikinomics, e no livro homólogo ao termo ele defende que, a longo prazo, todos vão olhar para o presente como a época em que o mundo começou uma transição do capitalismo industrial para uma nova espécie de economia, baseada em novos princípios, em novas mentalidades e em novos comportamentos.

crédito mauipic / Fotolia.com

Espaços presenciais equipados com tecnologias e infraestrutura para pessoas dispostas a criar, compartilhar e a “esticar a corda da ciência” se difundem mundo afora sob a alcunha de “hackerspaces”. Lá nos anos 60, espaços com conceito semelhante existiam, mas eram um tanto marginalizados, por estarem na esteira da contracultura e manterem um perfil rebelde. Agora, há os que têm até apoio financeiro de prefeituras, como é o caso do Metalab, em Viena, mas que nem por isso perdem a autonomia, uma característica comum a esses espaços.

Ao Porvir, um dos fundadores, Florian Bittner explicou como funciona o Metalab. “É totalmente aberto. Todos podem contribuir para tudo, basta ter interesse. Quem quiser chega, participa das oficinas, usa as ferramentas gratuitas, mas em algum momento, se for uma presença constante, a pessoa será convidada a ser um membro, para podermos manter a infraestrutura para todos”, diz ele, que garante que o modelo vem funcionando muito bem. Atualmente, são 180 membros pagantes que desembolsam cerca de 20 euros mensalmente.

Quanto ao aporte feito pela prefeitura local, não é financiamento para pesquisas, é para investimento para também contribuir com a manutenção daquele espaço, já que é público, pois qualquer pessoa pode passar um dia trabalhando, pesquisando e interagindo nas suas dependências. De criptografia a política, diferentes áreas são abordadas no Metalab, fundado em 2006.

“Se escolas ensinam alguma coisa, ensinam que experimentar e errar são coisas ruins, e acreditamos fortemente que seja justamente o contrário: é nos repetidos experimentos com os inevitáveis erros e reflexões que, de fato, aprendemos alguma coisa.”

No Brasil, os primeiros hackerspaces surgiram em São Paulo, capitaneados por estudantes ou pesquisadores autônomos, e não ficaram apenas na capital. Em Campinas, o LHC (Laboratório Hacker de Campinas) já dissemina o conceito num grupo ainda pequeno, mas que circula pelo mundo. Ali, nada de gente que invade computador, rouba senha e faz transações de forma indevida. Esses são “crackers”. O termo hackers é outra coisa: diz respeito a quem sabe programar e aprecia os desafios dos sistemas programáveis.

Leandro Pereira, um dos fundadores do LHC é um hacker que já esteve em diferentes espaços de ciência aberta em outros países. “Os hackerspaces brasileiros atuais ainda estão bem longe de se tornarem espaços imensos, não somente em área, mas também em número de participantes”, diz ele. Em seguida, avalia: “O que eu tenho percebido é que há pessoas que esperam que um hackerspace seja uma escola no sentido comum da palavra, com cursos, apostilas e coisas do tipo, quando na verdade queremos fugir desse tipo de coisa. Se escolas ensinam alguma coisa, ensinam que experimentar e errar são coisas ruins, e acreditamos fortemente que seja justamente o contrário: é nos repetidos experimentos com os inevitáveis erros e reflexões que, de fato, aprendemos alguma coisa.”

No LHC o espaço também é plural. Há cientistas da computação e engenheiros eletrônicos, esse público quase sempre presente no desenvolvimento de softwares e afins, mas também economistas e pedagogos que pensam juntos projetos como Impressora 3D e Horta Hidropônica que fazem uso de tecnologias digitais. “Mas o maior projeto que temos, com certeza, é o próprio LHC”, filosofa Pereira.

O Garoa, hackerspace pioneiro no Brasil, mantém uma lista com espaços que vão surgindo no país. Pode ser acessada em página wiki.


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Vejo assim: “Lá nos anos 60, espaços com conceito semelhante existiam, mas eram um tanto marginalizados, por estarem na esteira da contracultura e manterem um perfil rebelde.” Este foi um movimento dialético que certamente contribuiu para o surgimento do conceito de ‘Co-labore’. Os ‘ismos’ como, por exemplo, no capitalismo e o socialismo tendem à síntese e a Colaboração em ambientes virtuais ou garagens são resultados desta “E-volução”. É possível e está acontecendo a socialização do… Ler mais »