Inovações em Educação

Kinect ajuda a diagnosticar e a tratar autismo

Videogame que não usa controle e acompanha os movimentos do jogador desenvolve a percepção corporal das crianças

por Patrícia Gomes ilustração relógio 12 de junho de 2012

Um videogame, nenhum controle. O que já parecia uma inovação para o mundo dos aficionados por jogos eletrônicos está agora trazendo mais possibilidades na medicina. O Kinect, sensor da Microsoft que permite interação com games apenas a partir do movimento do jogador, sem a necessidade de ter um joystick nas mãos, está sendo usado nos Estados Unidos no diagnóstico e no tratamento de crianças com autismo.

Na Universidade de Minnessota, o Instituto de Desenvolvimento Infantil vem desenvolvendo um projeto que, por meio de cinco Kinects, tenta identificar sinais de distúrbios comportamentais em crianças com idades entre 3 e 5 anos. As informações colhidas pelo game abastecem um programa de computador que registra o nível da criança em cada atividade e comparam esses números com a média da sala. O sistema vai alertar para que haja uma maior atenção com aquelas que mostrarem comportamentos não esperados, como tendência para ser ativo demais ou de menos.

Kinect ajuda a diagnosticar e tratar crianças com autismocrédito Victor B / Fotolia.com

Tradicionalmente, o diagnóstico do autismo depende, primeiro, que os pais ou as pessoas mais próximas da criança desconfiem que o comportamento dela tem algo de diferente – o que pode ser desde um bebê que não interage com a mãe enquanto ainda é muito novinho até brincadeiras e atitudes ensimesmadas. A partir dessa primeira desconfiança, apenas profissionais especializados podem dar o diagnóstico corretamente, o que normalmente demanda uma avaliação individual e a análise de vários momentos de interação entre a criança e seus pares.

Esse processo, que pode envolver uma equipe de profissionais na observação de vídeos e na conversa com pais e professores, leva tempo e é caro. A equipe da Universidade de Minnesota espera automatizar essa primeira análise. “A ideia não é substituirmos o diagnóstico, mas torná-lo mais acessível”, disse Guillermo Sapiro, um dos responsáveis pelo experimento, à revista New Scientist.

 “Experimento combina conhecimento de várias disciplinas e usa hardwares e softwares muito simples para resolver um problema real e importante, além de ter potencial de trazer um impacto enorme para a sociedade”

Da mesma forma que um professor faz um alerta sobre uma criança com problema, afirmou o especialista, o sistema que eles estão desenvolvendo vai fazer um alerta automático sugerindo que aquela criança receba uma atenção mais individualizada. “O objetivo do nosso trabalho, que ainda é uma pesquisa preliminar, é usar hardwares disponíveis e trabalhar em qualquer tipo de ambiente. Então, em tese, qualquer médico poderá utilizá-lo em seu consultório”, disse Sapiro ao Porvir.

Os resultados colhidos pela equipe de Sapiro no diagnóstico do autismo foram submetidos a conferências sobre o tema e estão sendo revisados. Mas ele adianta que, nesses papers, eles relatam a detecção automática de alguns dos padrões comportamentais relacionados à atenção e ao movimento. “O experimento combina conhecimento de várias disciplinas diferentes e usa hardwares e softwares muito simples para resolver um problema real e importante, além de ter potencial de trazer um impacto enorme para a sociedade”, afirma o especialista.

Wagner Ranña, pediatra e psiquiatra infantil especializado em saúde mental da criança e do adolescente e professor da Faculdade de Medicina da USP, no entanto, aponta problemas éticos no método, que pode parecer uma solução fácil para diagnósticos muito difíceis, como os que envolvem a saúde mental. O professor explica que para se encontrar traços de autismo é preciso análise de comportamento, linguagem, socialização e noção de sujeito e que, por ser algo de extrema complexidade, traz a necessidade de que outro ser humano –devidamente capacitado- esteja no processo. “Uma subjetividade só pode ser avaliada por outra subjetividade”, afirma. Assim, Ranña defende que o melhor investimento de diagnóstico é na formação de bons profissionais.

Tratamento

Além dos passos no diagnóstico da doença, já há centros de tratamento usando o Kinect como ferramenta de estímulo para desenvolver habilidade nas crianças, como o Lake Side Center for Autism, em Seattle.

Em uma competição de dança, por exemplo, o avatar do jogo se move de acordo com os movimentos da criança. Com isso, ela observa seus gestos e percebe a interação deles com o ambiente e assim desenvolve uma melhor noção corporal. “Usamos o Kinect para tentar descobrir como adaptar nossas metas com o que eles são capazes de fazer com a ajuda do jogo. Usando essa tecnologia, nós vimos muitas mudanças nas crianças, envolvendo comunicação, interação social e desenvolvimento da linguagem”, diz Dan Stachelsky, CEO do centro.

 

Texto atualizado em 13 de junho, às 17h24.

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