As pesquisas na área de educação que foram destaque em 2019 - PORVIR
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Inovações em Educação

As pesquisas na área de educação que foram destaque em 2019

Rabiscar melhora o aprendizado? Prêmio por frequentar aula funciona? Meninos e meninas processam os números da mesma maneira? Veja como pesquisadores responderam essas e outras perguntas

por Youki Terada, do Edutopia ilustração relógio 9 de dezembro de 2019

Cada ano traz novas ideias – e alertas – sobre o que funciona na educação. E as pesquisas na área de educação mostram que 2019 não é diferente, uma vez que aprendemos que fazer pequenos rabiscos pode fazer mais mal do que bem quando se trata de lembrar informações. Os prêmios e recompensas por comparecimento não funcionam e podem no fim das contas aumentar as faltas. E embora soubéssemos que as regras de disciplina escolar tendem a prejudicar desproporcionalmente os alunos negros, um novo estudo revela uma das principais razões: em comparação com seus colegas brancos, os alunos negros tendem a receber menos avisos por mau comportamento antes de serem punidos.

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Para lembrar algo, desenhe (e tenha cuidado com os rabiscos)
Um estudo realizado em 2019 descobriu que os alunos lembram menos do que estão aprendendo se estão rabiscando ao mesmo tempo. Esse mesmo estudo, no entanto, também trata de um grande equívoco: rabiscar não é o mesmo que desenhar. Pesquisas anteriores concluíram que desenhar supera facilmente a leitura, a escrita ou a audição quando se trata de aprendizado e retenção.

Então qual é a diferença? Rabiscos de forma livre (você já deve ter feito isso enquanto está ao telefone) costumam ser uma distração do que está sendo aprendido. Pelo menos seis décadas de estudos mostram que a atenção dividida prejudica o aprendizado. Mas o desenho que reforça o que está sendo estudado – por exemplo, esboçar e identificar os planetas do sistema solar – explora áreas visuais, sinestésicas e linguísticas do cérebro ao mesmo tempo, codificando as informações mais profundamente.

Recompensar alunos com prêmios não aumenta a frequência em sala de aula
É comum ver prêmios sendo entregues para recompensar os alunos pela boa participação, mas um estudo de 2019 descobriu que essas medidas podem espetacularmente sair pela culatra, dando aos alunos uma “licença a mais para faltar  na escola” e, na verdade, acabar aumentando as taxas de absenteísmo.

Os alunos têm maior probabilidade de frequentar a escola quando seus professores percebem ausências e se esforçam para chegar a eles e suas famílias, de acordo com um relatório de 2017 da Attendance Works. E um estudo de 2019 descobriu que professores altamente engajados podem diminuir as ausências em 49%, deixando claro que o impacto de um professor se estende muito além das notas e notas das provas.

A área matemática parecida no cérebro de meninos e meninas
A tecnologia de ponta como a ressonância magnética continua a expandir as fronteiras de nossa compreensão do cérebro humano. Depois de analisar o circuito cerebral de 104 crianças de três a dez anos enquanto assistiam a problemas de matemática sendo resolvidos, os neurocientistas descobriram que a atividade neural em áreas do lobo parietal associadas à cognição numérica era quase idêntica entre os gêneros.

As descobertas tendem a confirmar que as diferenças de gênero no desempenho da matemática são construídas socialmente, um argumento reforçado por pesquisas anteriores que mostram que a diferença de gênero na matemática não é tão acentuada em outras culturas – e em alguns países, como Finlândia e Coréia, muitas vezes se reverte a ponto de favorecer as meninas.

Estudo que culpava as férias por queda no desempenho não é replicável
Embora a ideia de culpar as férias pela piora no aprendizado seja amplamente aceita e influente, muito do que sabemos sobre ele se baseia em um estudo da década de 1980 que concluiu que as crianças que passavam o verão brincando ficavam para trás em relação às que ainda passavam o tempo estudando. Mas uma tentativa recente de replicar o estudo falhou, e uma análise aprofundada revelou que os métodos de teste originais distorceram a diferença entre as notas dos alunos.

Ao aplicar métodos modernos de pontuação aos dados antigos, os pesquisadores descobriram que a hipotética e sempre em alta discrepância diminuía à medida que os alunos ficavam mais velhos. Os alunos ainda podem se beneficiar de atividades de férias enriquecedoras, é claro, exatamente como fariam em qualquer época do ano, mas a ideia de que a diferença aumenta ao longo do verão é quase certamente exagerada – e há uma abundância de evidências de que o jogo proporciona benefícios emocionais e cognitivos significativos.

Corte a arte por sua conta e risco, avisam pesquisadores
À medida que os programas de arte continuam enfrentando cortes orçamentários (o texto original faz referência aos Estados Unidos), vários estudos sugerem que isso é um erro grave. As artes oferecem benefícios cognitivos, acadêmicos, comportamentais e sociais que vão além do simples aprendizado de como tocar música ou atuar em uma peça.

Em um novo estudo importante da Universidade Rice, que envolveu 10.000 alunos da terceira à oitava série, os pesquisadores determinaram que a expansão dos programas de artes de uma escola melhorou a pontuação na escrita, aumentou a compaixão entre os alunos e reduziu casos de indisciplina. Os benefícios de tais programas podem ser especialmente pronunciados para estudantes provenientes de famílias de baixa renda, de acordo com um estudo de 10 anos com 30.000 estudantes lançado em 2019.

Inesperadamente, outro estudo recente descobriu que o comprometimento artístico – pense em um violinista iniciante ou em um jovem apaixonado – pode aumentar as habilidades de funções executivas, como foco e memória de trabalho, vinculando as artes a um conjunto de habilidades negligenciadas, altamente correlacionadas com o sucesso tanto na academia quanto ao longo da vida.i

Estudos sobre educação inclusiva ressaltam a importância de intervenções precoces – e de formação para professores
Deixar de identificar e apoiar os alunos com dificuldades de aprendizagem mais cedo pode ter consequências terríveis a longo prazo. Em uma análise abrangente de 2019, os pesquisadores destacaram a necessidade de realizar intervenções alinhadas às fases críticas do desenvolvimento inicial do cérebro. Em um exemplo surpreendente, verificou-se que as intervenções de leitura para crianças com dificuldades de aprendizagem são duas vezes mais efetivas se realizadas na segunda série, em vez da terceira série.

Mas apenas 17% dos professores dizem que se sentem adequadamente capacitados por seus programas de formação inicial, de acordo com um novo relatório dos principais especialistas – e, na falta de boas informações, os conceitos errôneos acabam enraizados. Por exemplo, os pesquisadores descobriram que um terço dos professores acredita que as dificuldades de aprendizagem refletem uma falta de motivação, não uma diferença no desenvolvimento do cérebro. Para apoiar os alunos com dificuldades de aprendizagem, precisamos também enfrentar os mitos difundidos que podem impedir seu potencial.

Mais horas de sono podem render melhores notas
Quando o Distrito Escolar de Seattle atrasou o horário de início do ensino médio em uma hora, os alunos dormiram 34 minutos extras por dia e suas notas melhoraram cerca de 5%, enquanto as ausências diminuíram 7%. A nova pesquisa destaca as maneiras pelas quais os horários tradicionais do ensino médio – que não estão alinhados aos ritmos circadianos naturais dos adolescentes – podem causar problemas de saúde físicos, mentais e cognitivos.

Enquanto os estudos anteriores se baseavam em evidências anedóticas ou autorreferidas para estabelecer um vínculo entre sono, desempenho acadêmico e horário de início da escola, a nova pesquisa é o primeiro estudo científico de alta qualidade a quantificar os benefícios reais de adiar o horário de início de aula para os estudantes de ensino médio.

Menos alertas para alunos negros
Em comparação com os colegas brancos, os alunos negros do ensino médio recebem menos chances de corrigir seu mau comportamento antes de serem enviados à sala do diretor ou receber suspensão, de acordo com um estudo de 2019 da Universidade de Illinois.

A descoberta é a mais recente de uma longa série de conclusões igualmente perturbadoras sobre raça e medidas disciplinares nas escolas, com a maioria das pesquisas concordando que os estudantes negros são desproporcionalmente suspensos ou expulsos em comparação com seus colegas. No ano passado, por exemplo, um estudo constatou que, enquanto surpreendentes 40% dos meninos negros foram suspensos ou expulsos na terceira série, apenas 8% dos meninos que eram brancos não-hispânicos ou de outros grupos étnicos tinham passado por episódios semelhantes.

Papel supera a tela, diz um novo estudo – mas leia com atenção
Virginia Clinton, professora de educação da Universidade de Dakota do Norte, analisou 33 estudos publicados desde 2008 e descobriu que crianças e adultos tendem a se lembrar mais do que leram no papel em comparação com dispositivos digitais, como leitores eletrônicos, tablets e computadores.

Mas há um problema: muitas das vantagens inerentes aos dispositivos digitais – como hiperlinks, comentários e conteúdo multimídia – foram eliminadas para permitir “comparações diretas entre as mídias”. Além disso, as vantagens reais do papel eram “bastante pequenas”, segundo o estudo. As mais recentes ferramentas de leitura digital podem aprimorar a anotação, incentivar os alunos a ler de forma colaborativa e incorporar questionários – tudo isso pode claramente ressaltar benefícios do meio digital.

Teoria da mentalidade de crescimento tropeça e depois se recupera
Uma das teorias mais populares da educação foi posta à prova no ano passado, quando uma grande meta-análise descobriu que as intervenções seguindo uma mentalidade de crescimento traziam benefícios “frágeis” – embora os estudantes vulneráveis tivessem ganhos maiores. Mas um novo estudo nacional, que abrange mais de 12.000 alunos da nona série, dá nova vida à teoria.

Ao contrário dos estudos anteriores, o novo empregava uma abordagem multifacetada. Os alunos aprenderam uma metáfora poderosa: “O cérebro é como um músculo que se fortalece e fica mais inteligente quando passa por experiências rigorosas de aprendizado”. Eles também refletiram sobre seu próprio aprendizado e deram conselhos a colegas que estavam com dificuldade. O resultado? Os alunos obtiveram ganhos modestos de 0,1 ponto e também 9% mais chance de ir para um curso avançado de matemática no ano seguinte. No entanto, os estudantes que estavam com baixa aprendizagem obtiveram grandes ganhos e evitou-se que 11% deixasse de se formar.

Publicado originalmente em Edutopia e traduzido mediante autorização
© Edutopia.org; George Lucas Educational Foundation


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aprendizagem colaborativa, competências para o século 21, educação mão na massa, equidade, formação continuada, gênero, personalização, pesquisas, tecnologia

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