Pesquisa de opinião ajuda a corrigir déficit idade-série - PORVIR

Inovações em Educação

Pesquisa de opinião ajuda a corrigir déficit idade-série

Projeto Nepso, em parceria com a UFMG, tem incentivado alunos de escolas públicas de BH a recuperar conteúdos e autoestima

por Patrícia Gomes ilustração relógio 23 de julho de 2012

De crachá no peito, prancheta e questionário em mãos, alunos de escolas municipais de Belo Horizonte, que antes viviam o estigma de estarem velhos demais para a série em que estudam, estão vendo na pesquisa de opinião uma forma de se afastarem dessa imagem de indisciplinados. E não é só. Com o projeto Nepso, Nossa Escola Pesquisa a Sua Opinião, esses meninos e meninas estão se tornando exemplos positivos para os colegas e, para completar, ainda têm aprendido assuntos, que podem ser até bem complexos, de maneira divertida.

É que a pesquisa de opinião, explica Maria da Conceição Fonseca, coordenadora do polo mineiro do Nepso, é um processo complexo, longo e multidisciplinar, que pode durar todo o ano letivo e, por isso, é dividido em várias etapas. Em cada uma delas, os alunos se deparam com desafios diferentes, desde aprender a tabular dados e fazer cruzamentos estatísticos até entender os princípios democráticos. “Quando eles vão escolher o tema, eles precisam entender que se sua escolha não foi a majoritária, ela não será realizada”, afirma a especialista, que também é professora da Faculdade de Educação da UFMG.

crédito NLShop / Fotolia.com

Por ser um processo que demanda conhecimentos específicos, os professores das escolas que acolhem o projeto são treinados em polos organizados pelo Instituto Paulo Montenegro, do Ibope, que compartilha material e o know-how acumulado no tema. Esses polos estão espalhados pelo Brasil e em vários países da América Latina, normalmente apoiados localmente por uma universidade ou uma ONG.

O de Minas está ligado à UFMG e leva a experiência não apenas ao Entrelaçando, projeto da capital mineira para crianças e jovens que não estão na série adequada para a idade, mas também para a educação de jovens e adultos e outras turmas regulares de escolas públicas. No caso mineiro, o processo de capacitação dos professores é semanal. Nesses encontros, eles são apresentados à metodologia de uma pesquisa de opinião e a estratégias de como utilizá-la em sala de aula. O aprendizado dos professores vai se aprofundando conforme a pesquisa dos alunos também avança.

De acordo com Maria da Conceição, em sala de aula, o primeiro passo é a escolha do tema, que precisa ser consensual e não pode ser aleatória. “Não é qualquer tipo de assunto que pode ser considerado pesquisa de opinião. Tem que ser um tema que a opinião do outro me ajude a chegar a uma informação.”, afirma. Por isso, exemplifica a especialista, a pesquisa não pode ser apenas sobre música, mas deve ser sobre algo opinativo relacionado à música.

Veja vídeo que explica o projeto em Minas:

 

Definido o objeto da pesquisa, começa a segunda etapa: a qualificação do tema. É nessa fase, diz Maria da Conceição, que os alunos vão buscar informações sobre o vão estudar. Aqui, vale entrevistar pessoas da comunidade, procurar informações em bibliotecas, arquivos públicos, internet para entender o que, como e a quem abordar na pesquisa. “Eles precisam se qualificar para elaborar o questionário, para prever alternativas para as perguntas.”

Todo esse processo acaba envolvendo os alunos. No caso dos meninos do Entrelaçando, afirma a professora, eles começam a ver mais sentido nas aulas e a se sentir dispostos para os estudos. “Os alunos começam a se destacar, não porque estão atrasados, mas porque são ‘os meninos que fazem pesquisa’”. Para valorizar o momento, diz Maria da Conceição, quando chega a hora de ir a campo, eles vão com pompa e circunstância: crachá, prancheta, identificação, questionários reproduzidos, ônibus de excursão.

Sobre o efeito que o projeto pode ter entre os alunos, a professora lembra do caso de uma turma que escolheu pesquisar a satisfação dos usuários do zoológico da cidade. Por ser tida como uma classe problemática e indisciplinada, os estudantes nunca nem sequer tinham saído da escola em excursão. Para executar a pesquisa que vinham desenvolvendo, no entanto, eles ganharam o direito de ir ao zoológico aparamentados como pesquisadores. “Pela primeira vez, eles se sentiram valorizados”, lembrou Maria da Conceição.

Ganham os alunos que veem exposto o produto de seu esforço e ganha a plateia, normalmente formada por futuros professores, que aprendem como é possível fazer um trabalho bonito com grupos normalmente renegados

Com questionários devidamente aplicados, é hora de voltar para a escola para mais uma etapa bem trabalhosa: a tabulação dos dados e a análise dos resultados. Dependendo da infraestrutura da escola, esse processo pode ser informatizado ou não. “Os professores são habilitados para tratar os dados e aplicar os procedimentos de tabulação com os alunos. Dependendo do empenho e da curiosidade que eles têm, elas são capazes de fazer cruzamentos de informação bastante sofisticados”, afirma Maria da Conceição.

Por último, vem a divulgação da pesquisa para a comunidade. Nesse momento, enumera a professora, são várias as possibilidades: publicar no jornal da escola, fazer um mural, preparar uma apresentação para a comunidade. Independentemente de como eles divulguem os resultados para a escola, os alunos do Entrelaçando são também convidados a expor seus achados na universidade no seminário do Nepso “feito gente grande”: “Primeiro tem a apresentação em PowerPoint, que eles têm que respeitar horários; depois, tem uma performance artística. Aí aparece de tudo”, orgulha-se Maria da Conceição. Nesse momento de troca, ganham os alunos que veem exposto o produto de seu esforço e ganha a plateia, normalmente formada por futuros professores, que aprendem como é possível fazer um trabalho bonito com grupos normalmente renegados, afirma a professora.

Lá e cá

O Nepso hoje tem tantas articulações no país e na América Latina que o instituto Paulo Montenegro está experimentando uma pesquisa multipolo internacional. Alunos do colégio de aplicação da federal mineira estão fazendo a mesma pesquisa que estudantes de uma escola chilena. O tema central é namoro. Por enquanto, o projeto ainda está no início e eles estão estruturando, no lado brasileiro e no chileno, a forma como o assunto será pesquisado. Por enquanto, além de perceberem que o namoro é um fenômeno que se apresenta de formas diferentes na sociedade, eles também precisam aprender a se comunicar em outras línguas.


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Terezinha Lima
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Terezinha Lima

Achei bem interessante, os alunos utilizam os eixos temáticos e com o direcionamento do professor deles se apropriam. Fantástico!

Terezinha Lima
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Terezinha Lima

Achei bem interessante, os alunos utilizam os eixos temáticos e com o direcionamento do professor deles se apropriam. Fantástico!

Lucilene Souza Feitosa
Visitante
Lucilene Souza Feitosa

Parabéns,
Esta é uma das melhores experiências que eu já li, realmente as pessoas escolhidas para desenvolver certas atividades são as consideradas com bom comportamento, com boas notas, enfim, aqueles que já são esquecidos pela sociedade continuam na escola apenas fazendo números e sendo apontados como “não querem nada”, gostaria de ter mais informações para entender mais e aplicar em nosso município para tentar mudar e valorizar os nossos meninos e meninas.
Obrigado.

Lucilene Souza Feitosa
Visitante
Lucilene Souza Feitosa

Parabéns,
Esta é uma das melhores experiências que eu já li, realmente as pessoas escolhidas para desenvolver certas atividades são as consideradas com bom comportamento, com boas notas, enfim, aqueles que já são esquecidos pela sociedade continuam na escola apenas fazendo números e sendo apontados como “não querem nada”, gostaria de ter mais informações para entender mais e aplicar em nosso município para tentar mudar e valorizar os nossos meninos e meninas.
Obrigado.

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