Por que alguns fazem um bom trabalho, enquanto outros só trabalham - PORVIR
Crédito: Vectorarte / Freepik

Inovações em Educação

Por que alguns fazem um bom trabalho, enquanto outros só trabalham

Grupo de pesquisas de Harvard mostra que o alinhamento de objetivos é fundamental para todas as categorias profissionais, inclusive para os professores

Parceria com Instituto iungo

por Luciana Alvarez ilustração relógio 18 de outubro de 2021

Muitas pessoas trabalham, mas nem todos são de fato bons trabalhadores. Há 25 anos, Lynn Barendsen faz pesquisas sobre esse tema no projeto GoodWork, da escola de educação da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus trabalhos incluem diversas categorias profissionais, entre elas os docentes.

Antes de entender por que alguns fazem um bom trabalho, enquanto outros só trabalham, Lynn defende que é preciso ter uma definição de bom trabalho. Para o projeto GoodWork, é preciso identificar no trabalhador três “Es”: eficiência, ética e engajamento.

“Não tem a ver com a profissão ou qualificação”, afirmou Lynn no 1º Congresso Brasileiro de Metodologias Ativas na Educação Básica, uma iniciativa do Núcleo de Pesquisas em Novas Arquiteturas Pedagógicas da Universidade de São Paulo (NAP/USP), da PANPBL – Association of Problem-Based Learning and Active Learning Methodologies, e do Instituto iungo. É possível, portanto, ter um faxineiro que é um bom trabalhador e um CEO que não é. A pesquisadora lembrou ainda que não se trata de uma visão reducionista, voltada ao lucro das empresas. Ela defende que bons trabalhadores são também bons cidadãos, pois contribuem para construção da sociedade.


Definições dos 3 Es, segundo o projeto GoodWork

Eficiência – o profissional realiza um trabalho de alta qualidade
Ética – o indivíduo se preocupa com o impacto do trabalho que faz
Engajamento – ele encontra um significado naquilo que faz e sente-se realizado


Em todas as áreas produtivas, em todas as faixas de idade, salariais ou hierárquicas, o que mais possibilita que existam bons trabalhadores é o alinhamento de objetivos e visões entre todos os envolvidos no trabalho. “Quando os diferentes atores compartilham a mesma meta, é mais comum encontrar bons trabalhadores. Quando há um desalinhamento, é mais difícil – mas ainda assim é possível e desejável”, afirmou.

Quando os diferentes atores compartilham a mesma meta, é mais comum encontrar bons trabalhadores

A grande resposta, portanto, não é individual, mas sistêmica. Um alinhamento bem forte foi encontrado, por exemplo, entre geneticistas. “Todos os envolvidos – pacientes, cientistas, donos dos laboratórios – querem a mesma coisa”, disse. Isso faz com que a maioria dos geneticistas seja muito feliz no seu trabalho e se empenhem nele.

Na educação hoje, contudo, o que Lynn encontrou foi um “tremendo desalinhamento” entre o que desejam da escola os professores, alunos, famílias, poder público e sociedade. “É importante reconhecer que são tempos extremamente desafiadores para os professores. Não quero falar com leveza sobre isso. O bom ensino é possível, mas não é fácil”, disse.

A pandemia veio ainda agravar a situação, que já era difícil. “Tem uma nova pressão na sala de aula para lidar com a formação de caráter. Usar ou não máscara se tornou um dilema ético. O que vamos fazer com essas discussões? Espero que esse foco renovado inspire saídas criativas”, afirmou. Apesar da dificuldade, Lynn tem certeza que a escola é capaz de superar as adversidades atuais. “Já houve outros momentos difíceis na história e as instituições de ensino se mantiveram.”

Para que a superação aconteça, ela tem algumas sugestões. Quando se trata da formação docente, Lynn defende que a saúde mental seja muito bem explorada. “As pesquisas nos mostraram que entre as categorias de trabalhadores, os professores são mais suscetíveis a trabalhar demais, têm dificuldade em encontrar o equilíbrio com a vida pessoal. É importante incluir a questão nos treinamentos de professores”, recomendou.

As pesquisas nos mostraram que entre as categorias de trabalhadores, os professores são mais suscetíveis a trabalhar demais, têm dificuldade em encontrar o equilíbrio com a vida pessoal

Os cursos devem estimulá-los a fazer reflexões mais pessoais, questionar em que se apoiam, incentivar o companheirismo na categoria, mostrar que é possível reduzir a velocidade e ser mais paciente consigo mesmo e com os outros.

Portanto, uma boa formação tem de dar apoio e motivação, e jamais colocar mais pressão sobre eles.“Trabalhadores que colocamos na categoria ‘cuidadores’, que inclui professores e enfermeiros, demonstram propensão a fazer sacrifícios pessoais. Quando confrontados com interesses conflitantes, quase sempre escolhem os interesses da comunidade a que servem profissionalmente, enquanto outras categorias fazem mais escolhas de acordo com suas metas pessoais”, citou.

Um olhar compreensivo 
Aos professores que lidam com crianças e adolescentes, Lynn recomenda, em primeiro lugar, um olhar compreensivo. “Existe uma crise de saúde mental séria. Assim como os professores, os alunos também estão lutando. Temos que reconhecer isso em primeiro lugar, como parte do contexto mais amplo, sobretudo ao lidar com adolescentes”, disse.

A pesquisadora tem uma dica relativamente simples para se aproximar e conhecer quem são seus estudantes, o que os motiva: perguntar quem são seus ídolos. “Você aprende muito sobre alguém perguntando sobre quem ele admira, quem ele usa como modelo”, afirmou. Com esse conhecimento, fica mais fácil fazer propostas de aprendizagem que dialoguem com as metas de vida dos alunos.

Entre os achados das pesquisas do seu grupo de estudo, Lynn destaca outro dado importante para os professores. Os mais jovens, tipicamente, só se sentem responsáveis por si mesmo e pelos mais próximos, como amigos e parentes. “Isso nos mostrou que os jovens pensam que não têm impacto além de si mesmo, o que é preocuopante”, alertou. Cabe aos professores mostrar que eles podem, sim, influenciar a comunidade de forma mais ampla.

Como construir uma escola mais alinhada 
Outra ferramenta que pode ajudar na escola é o que Lynn chama de “classificação de valores”. Cada pessoa envolvida na escola recebe uma lista com certos valores morais – coisas como honestidade, cooperação, disciplina, tolerância, dedicação etc – e deve ordená-las do que mais importa para o menos importante. “Vamos ver o que cada grupo valoriza; com certeza vai haver diferenças. Essas diferenças devem ser o ponto de partida para alinhar os objetivos. Situações em que as pessoas não querem a mesma coisa pode ser um grande momento para exercitar a criatividade”, disse. Uma escola mais alinhada é um ambiente mais propício para que os professores se tornem bons professores.

Por fim, há um recado para gestores, famílias e governantes: os educadores precisam de apoio para fazer um bom trabalho. “A paixão vai só até um certo ponto. Um professor, como outros trabalhadores, precisam de recursos e apoio”, disse Lynn.

Quer saber mais sobre Projetos de vida na escola?
Clique e acesse

Instituto iungo

TAGS

competências para o século 21, formação de professores, socioemocionais

Deixe um comentário

avatar
500
  Acompanhar a discussão  
Tipo de notificação
X