Primeira doutora surda da UFMG atribui à EJA o sonho de ser professora - PORVIR
Crédito: Alexandre Magalhães Rezende / Belo Horizonte (MG)

Inovações em Educação

Primeira doutora surda da UFMG atribui à EJA o sonho de ser professora

Professora de Letras-Libras, Michelle Murta defende a inserção da Libras nos currículos escolares e relembra como a Educação de Jovens e Adultos transformou seu caminho acadêmico

por Ana Luísa D'Maschio e Marina Lopes ilustração relógio 30 de novembro de 2022

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Este conteúdo faz parte da
Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

Basta ficar em frente ao espelho e repetir, pausadamente, as palavras “bala” e “mala”. Você verá que a boca faz quase o mesmo movimento, e escutará sons parecidos. Imagine, então, a dificuldade de uma criança que passa por perda auditiva para entender a diferença silábica. A falta de acolhimento durante o ensino fundamental e o desconhecimento da escola em relação aos problemas de audição de Michelle Andréa Murta, hoje com 41 anos, fizeram com que ela fosse reprovada cinco vezes até chegar à 5ª série (atual quarto ano), quando, por vergonha, abandonou os estudos pela primeira vez.

“Nos anos 1980 e 1990, o português era muito exigido. Mas o método de ensino, sempre o mesmo, me prejudicou. Nos ditados, ao ouvir ‘mala’, eu anotava ‘bala’, e vice-versa. É impressionante o fato de os professores não terem percebido essa troca: apenas iam me reprovando”, escreveu Michelle em entrevista concedida por e-mail ao Porvir. Foi ao se matricular em uma sala de EJA (Educação de Jovens e Adultos), porém, que ela descobriu o quanto a ausência de estratégias pedagógicas acessíveis a prejudicou. Graças ao aprendizado na EJA, escolheu seguir o caminho docente.

Crédito: Alexandre Magalhães Rezende / Belo Horizonte (MG)

Nascida em Belo Horizonte, passou a infância em Salinas, cidade mineira com pouco mais de 40 mil habitantes. Michelle vem de uma família simples, composta por muitas pessoas com deficiências auditivas, todos oralizados (surdos que usam a língua oral para se comunicar por meio da leitura e/ou escrita e leitura labial). 

Com poucas condições financeiras, Michelle reaproveitava as folhas limpas dos cadernos para o novo ano letivo, e as levava para a escola sem mochila, apenas protegidas em sacos de açúcar ou arroz. Caprichosa, gostava de manter o material em ordem e sempre escrevia em letra de forma. Desistiu da escola na última reprovação, pela falta de estímulo e por ser muito mais velha do que os colegas de turma. “Tudo abalava a minha autoestima. Tinha vergonha. Via minha mãe ser discriminada nas reuniões de uma escola que nunca ensinou o que era inclusão, o que era ser diferente.”

Baixo alcance da língua de sinais
De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 5% da população brasileira tem alguma deficiência auditiva, o que representa quase 10 milhões de pessoas (2,7 milhões não ouvem de modo algum). Em todo o mundo, há 466 milhões de pessoas surdas – e mais de 300 variantes da língua de sinais. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostra que apenas 1,8% dos brasileiros com alguma limitação de ouvir (perda leve a moderada) sabe Libras (Língua Brasileira de Sinais); a porcentagem é maior entre quem tem dificuldade severa de ouvir (3%) e, entre o grupo que nada ouve, 35,8% das pessoas sabem Libras. 

Entenda neste vídeo o que estabelece a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (versão em Libras).

Em 1995, conheceu o “Acertando os passos”, projeto de EJA oferecido à época pela Escola Estadual Elídio Duque, em Salinas. Michelle, já com a deficiência diagnosticada, sentiu-se à vontade para dividir suas questões com os educadores. Em um semestre, finalizou o quinto ano. “Tive muito apoio dos colegas e dos professores. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, relembra. Ali nasceu a vontade de se tornar professora. “Eu tinha sede de crescer.” 

Michelle voltou a Belo Horizonte e seguiu tendo aulas em escolas convencionais de EJA com algumas pausas, mas o primeiro contato com Libras veio apenas em 2003, não na escola, mas quando começou a trabalhar na Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) como datilógrafa. 

“À época, a equipe contava com aproximadamente 20 surdos, todos sinalizantes, e eu sem saber um ‘A’. Foi um período sofrido, porque só conversava com a chefe e com o coordenador, e não conseguia me aproximar de todos os surdos, apenas alguns me davam atenção. Insisti em aprender, fui pegando a sinalização aos poucos.” Em paralelo, ela finalizou, aos 23 anos, o ensino médio no Colégio Minas Gerais, escola particular próxima ao escritório onde trabalhava, ainda sem ter qualquer contato com a Língua Brasileira de Sinais em sala de aula. “Se eu pudesse usar a metáfora entre céu e inferno, diria que meu céu aconteceu da 5ª série ao ensino médio”, explica. Justamente o período no qual frequentou a Educação de Jovens e Adultos.

O que ainda falta para que a EJA seja mais inclusiva?
A Constituição Federal de 1988 define a educação como um direito de todos. E estabelece a “igualdade de condições de acesso e permanência na escola, como um dos princípios para o ensino e, garante como dever do Estado, a oferta do atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino”.

De acordo com o Censo Escolar, 126.029 alunos com deficiência estavam matriculados na EJA em 2019. Para Luiza Corrêa, coordenadora de advocacy do Instituto Rodrigo Mendes, a educação inclusiva na EJA permite uma participação ativa no processo de ensino-aprendizagem e representa a oportunidade de começar ou dar continuidade aos estudos em um ambiente diverso. “Isso porque, até a década passada, muitas dessas pessoas estudavam em escolas segregadas, quando tinham a possibilidade de estudar, ficando impossibilitadas de conviver em um ambiente plural, tal como é a sociedade”, diz.

Quando se fala em EJA para alunos surdos, há, ainda, outra barreira: estudantes chegam à escola sem conhecer nem a língua portuguesa nem a Libras. “A maioria dos nossos alunos [surdos] chegaram sem língua e só com sinais caseiros”, explica Eliana Amaral, professora do Polo Bilíngue do CPFP (Centro Público de Formação Profissional) Valdemar Mattei, em Santo André (SP). Clique aqui para relembrar a matéria.

A formação continuada de educadores que trabalham com turmas de EJA é um dos aspectos mais relevantes para salas de aula cada vez mais inclusivas, ressalta Luiza. “Em salas de EJA, tal como em salas de educação infantil, ensino fundamental e médio, é fundamental que os docentes considerem os conhecimentos prévios de todos os alunos, a realidade, as especificidades de cada estudante, incluindo a maneira como cada um aprende”, afirma. “Também é importante a remoção de barreiras para que esses estudantes possam aprender, como acessibilidade arquitetônica nos prédios, fornecimentos dos apoios necessários, acessibilidade comunicacional e dos materiais didáticos e pedagógicos, entre outros itens”.

Libras no ensino superior

Em apenas seis meses, em 2004, Michelle aprendeu Libras. Mergulhou nos estudos exatos dois anos depois da promulgação da lei nº 10.436, que regulamenta a língua de sinais como meio de expressão e comunicação. “Quando conheci outros surdos e adquiri a Libras naturalmente, apenas com o contato, simplesmente me apaixonei. Eu me senti como o ‘patinho surdo’ que encontrou o seu verdadeiro ninho.” E reforça: “É a minha língua”. Para ela, a legislação deveria reconhecer a Libras como mais uma língua oficial, e as escolas deveriam inseri-las em seus currículos.

Michelle passou a utilizar de vez a língua de sinais apenas ao ingressar na faculdade. Foram duas as tentativas até se matricular no curso de Letras-Libras, oferecido pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), no qual ingressou em 2008. As aulas aconteciam no CEFET-MG (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais) e ali, pela primeira vez, começou a conviver com colegas surdos em sala de aula. Suas tutoras, Rosely Lucas e Clarissa Fernandes, também eram surdas – Clarissa morreu em um acidente de carro em setembro deste ano.

Na faculdade, dei um pulo muito grande, tanto na sinalização quanto [no entendimento] nos meus tabus.

“Na faculdade, dei um pulo muito grande, tanto na sinalização quanto [no entendimento] nos meus tabus. A professora Clarissa se tornou meu modelo de luta diária. Ela sempre será minha inspiração.”

Desde então, a universitária seguiu superando obstáculos. Dois meses depois de formada, Michelle ingressou no mestrado da PUC-MG, tornando-se a primeira aluna surda a se formar mestra pela instituição. Por lá, defendeu a tese “Metáforas em Libras: um estudo de seu uso por pessoas surdas”.

Crédito: Alexandre Magalhães Rezende / Belo Horizonte (MG)

De aluna à professora

O sonho de se tornar professora virou realidade em 2015, ao ser aprovada em um concurso público da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). “Com os novos colegas, aprendi muita coisa, muito mais do que o mestrado”, relembra. Devido à distância do campus e à saudade do filho Gabriel, hoje com 21 anos, e do companheiro, Paulo, optou por voltar para Belo Horizonte quando soube de um edital para lecionar na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). 

Foi aprovada em primeiro lugar no concurso para docente, ainda sem acreditar que iria trabalhar na universidade que tanto admirava. Passou a lecionar na Fale (Faculdade de Letras) em 2016. Ingressou no doutorado da instituição com a melhor nota. E tornou-se, em 18 de janeiro de 2022, a primeira doutora surda formada pela universidade.

Ter o título de primeira doutora surda da UFMG me dá muito orgulho […]. Mas é preciso fazer uma crítica: estamos no século 21 e somente agora fomos ter uma doutora surda formada pela instituição

Orientada pelo professor Guilherme Lourenço, Michelle defendeu, em Libras, a tese “Mapeamentos icônicos na estrutura interna dos verbos em Língua Brasileira de Sinais”. A apresentação durou quatro horas e contou com o apoio de três profissionais capacitados na língua de sinais durante a transmissão online, vista por mais de cem pessoas. “Ter o título de primeira doutora surda da UFMG me dá muito orgulho. Estou muito feliz com a conquista. Mas é preciso fazer uma crítica: estamos no século 21 e somente agora fomos ter uma doutora surda formada pela instituição… Espero que venham muitas outras”.

A doutora em linguística teórica e descritiva segue como professora de Letras/Libras para alunos ouvintes e não ouvintes; o requisito do curso é saber Libras. Ela também participa da disciplina “Fundamento da educação de surdos”, que atende, em média, 1,2 mil alunos por meio da plataforma Moodle. Também se dedica ao projeto Mãos Literárias, que reúne poesias e histórias de surdos voluntários, todas em Libras, com o objetivo de apoiar educadores e estudantes com deficiência auditiva de outras escolas do país.

“Eu desejo ser modelo para os jovens surdos. Sigo lutando, tentando o meu melhor. Quero mostrar a eles que sempre haverá pedras no caminho, mas com elas se pode construir um castelo”, ensina Michelle.

**A pauta foi selecionada pelo 4º Edital de Jornalismo de Educação, iniciativa da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação) em parceria com o Itaú Social. As matérias serão publicadas durante o mês de novembro de 2022.


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eja, ensino superior, Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

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