O centro educacionalri Alsama Project foi anunciado como a primeiro vencedor do Global Schools Prize. O anúncio ocorreu durante o Education World Forum, em Londres, na Inglaterra. O prêmio é concedido pela Fundação Varkey, instituição também responsável pelo Global Teacher Prize e pelo Global Student Prize, e foi idealizado pelo empresário e filantropo Sunny Varkey em parceria com o cineasta e ativista Richard Curtis. A escola receberá US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões) para a expansão de suas atividades.
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A instituição se destaca por manter as aulas diárias durante os conflitos de 2024 e 2026 no Líbano. O projeto opera centros educacionais em campos de refugiados, atendendo mais de 1.100 adolescentes que de outra maneira não teriam acesso à educação formal. Por esse motivo, na etapa anterior, foi vencedora da categoria superação de adversidades.
O Alsama Project, cujo nome significa “o céu” em árabe, atua na educação de jovens refugiados no Líbano e na Síria, utilizando uma abordagem que conduz os estudantes do analfabetismo à preparação para o ensino superior em seis anos. Fundada em 2020 para atender 40 jovens no campo de refugiados de Shatila, em Beirute, a instituição atualmente possui uma gestão composta por 96% de refugiados e é o único sistema de ensino voltado a essa população com a certificação internacional WASC — a Western Association of Schools and Colleges, agência que avalia instituições de ensino e garante padrões elevados de qualidade acadêmica. Esse reconhecimento assegura que os diplomas e históricos escolares de seus alunos tenham validade oficial e aceitação internacional.
Como é a atuação do Alsama Project
Liderado majoritariamente pela própria comunidade (96% da gestão e 87% do corpo docente e administrativo são formados por refugiados) o Alsama lida com um panorama educacional sensível: no Líbano, 85% dos refugiados sírios não frequentam a escola e menos de 2% dos jovens deslocados conseguem concluir o ensino médio.
Como resposta, o Alsama desenvolveu um currículo de aceleração que condensa os 12 anos da educação básica em apenas seis, levando os estudantes do analfabetismo à preparação universitária, com foco na alfabetização inicial em seis meses.A instituição é a única rede voltada a refugiados no mundo a obter a certificação internacional WASC, organização americana que audita escolas globalmente, o que garante que os diplomas e históricos escolares de seus alunos tenham validade oficial e aceitação internacional.
O trabalho chamou a atenção do mundo e rendeu prêmios importantes de alfabetização e empoderamento feminino nos últimos anos. O maior desafio, porém, veio com os bombardeios que atingiram Beirute recentemente. Enquanto as famílias fugiam, o Alsama se desdobrou para não perder um único dia de aula. Viraram o jogo da noite para o dia: criaram grupos de WhatsApp, correram atrás de dinheiro para comprar chips de celular para os alunos e abriram portinhas improvisadas dentro dos próprios abrigos de desalojados.

O impacto dessa mobilização social se reflete diretamente em indicadores que vão muito além do desempenho escolar. No Alsama, 99% das alunas matriculadas evitam o casamento precoce, um contraste com a taxa nacional de 35% entre jovens refugiadas sírias no Líbano. No caso dos meninos, 97% deles ficam longe do trabalho infantil, afastando-se de uma realidade que atinge um terço da juventude vulnerável no país.
Parte dessa transformação passa pelo esporte. O críquete virou uma marca registrada da instituição, que conta com 23 polos onde meninos e meninas treinam juntos (as garotas representam 55% dos participantes), ajudando a quebrar preconceitos de gênero e gerando renda para os estudantes mais velhos, que atuam na monitoria paga dos treinos. Para garantir o suporte integral aos jovens, o projeto também oferece sessões semanais de ioga, oficinas de conscientização e atendimento com psicólogos em tempo integral.
Os resultados já começaram a aparecer no cenário internacional. Alunos do projeto têm conquistado bolsas de estudo em universidades de ponta, como Cambridge, no Reino Unido, e Arizona State, nos Estados Unidos, além de premiações em concursos globais de redação. A primeira turma oficial de formandos do ensino médio conclui os estudos em julho de 2026.
Com o reconhecimento do prêmio, o plano da organização é expandir o modelo pedagógico para Homs, na Síria, onde 14 anos de conflito armado destruíram mais de 8 mil escolas. O aporte financeiro do Global Schools Prize será investido na abertura de um segundo centro educacional na região, com o objetivo de garantir o direito à educação e abrir novas perspectivas para uma geração de jovens impactada pela guerra.

Quem fez parte do júri
Para escolher o grande vencedor, a organização conta com um comitê de peso, codirigido por Stefania Giannini (ex-diretora geral adjunta de educação da Unesco) e Dame Christine Ryan. Entre os avaliadores estão nomes como Andreas Schleicher (diretor de educação da OCDE) e Peter Tabichi (vencedor do Global Teacher Prize de 2019).
Outras finalistas
O Alsama Project não caminhou sozinho nessa reta final. A iniciativa foi escolhida como vencedora após dividir o palco com outras nove escolas do mundo inteiro que também estão redefinindo o dia a dia das salas de aula. Para chegar a esse grupo, o prêmio filtrou quase 3 mil inscrições de 113 países. Cada uma das dez finalistas garantiu o troféu em sua categoria e levou US$ 50 mil para casa, carimbando seu impacto no cenário educacional global.
Conheça os outros nove projetos que disputaram o topo ao lado da escola libanesa:
IISS Ettore Majorana (Itália) – Categoria: Transformação por IA
Localizada em uma região italiana marcada pela desigualdade e pelo risco de evasão, esta escola pública virou referência ao provar que a tecnologia na educação deve servir à equidade e não ao mercado. Sob a liderança do diretor Salvatore Giuliano, a instituição resolveu o alto custo dos livros didáticos criando o projeto Book in Progress, onde os próprios professores escrevem e atualizam os materiais da escola. Hoje, a iniciativa evoluiu para uma inteligência artificial própria, desenvolvida em servidores locais e focada na privacidade dos dados. Além de ser apenas um recurso tecnológico, essa IA funciona como um tutor 24 horas que adapta os conteúdos para diferentes estilos de aprendizagem e necessidades de inclusão, enquanto os estudantes debatem ética digital e checagem de fatos na prática, mostrando que a inovação real nasce da autonomia do chão da escola.
Freedom International Schools – Africa (Quênia) – Categoria: Artes, cultura e criatividade
Localizada em Nakuru, esta escola queniana articula o gor do currículo International Baccalaureate (IB) a uma proposta pedagógica assumidamente afrocentrada. Sob a liderança dos fundadores Eng. Oku e Dra. Utheri Kanayo, a instituição entende a arte, a cultura e a criatividade não como disciplinas extras, mas como a base de tudo. O dia a dia dos 200 alunos começa com o Ubuntu Darasani, um momento de imersão no pensamento de grandes intelectuais negros, e inclui desde dias temáticos dedicados ao design africano até uma orquestra de fusão que coloca instrumentos tradicionais e ocidentais no mesmo patamar. Essa aposta na identidade gerou um desempenho acadêmico 21% acima da média nacional e inspirou projetos práticos dos estudantes, como um banco móvel de sementes nativas criado para debater soberania alimentar.
Escuela de Talentos Guanajuato Azteca (México) – Categoria: Caráter e valores
Esta escola pública mexicana que atende 3000 estudantes dos anos finais do ensino fundamental e médio em contexto de vulnerabilidade social com uma proposta inovadora: uniu o currículo oficial do país ao modelo da Fundación Azteca, colocando as competências socioemocionais no centro da prática pedagógica. Ali, virtudes como empatia, resiliência e justiça não são temas transversais abstratos, mas parte obrigatória do planejamento de cada aula. Esse foco no “chão da escola” ganha vida em ações práticas lideradas pelos próprios alunos, como a “Loja da Honestidade”, um espaço onde eles compram materiais e dão o troco sozinhos, sem qualquer supervisão, mantendo o estoque sempre correto, o “Espaço Zero”, uma sala de regulação emocional gerida pelos estudantes para acolher momentos de estresse, e uma “República Escolar” que organiza gincanas e campanhas de solidariedade.
LEAD 359 (EUA) – Categoria: Cidadania global e construção da paz
Situada no Bronx, em um dos bairros mais vulneráveis de Nova York, esta escola pública virou o jogo da exclusão sob a liderança da Dra. Alexa Sorden, superando todas as metas de aprendizagem do estado. O segredo do sucesso é a metodologia autoral DEEDS (Descobrir, Examinar, Projetar, Fazer e Compartilhar), que conecta as disciplinas escolares à resolução de problemas reais da comunidade: ali, alunos do 4º ano analisam dados de trânsito para redesenhar cruzamentos perigosos do bairro, enquanto os do 7º ano monitoram a qualidade do ar perto de rodovias e criam protótipos de energia renovável. A cultura de paz é vivenciada na prática, com rodas de conversa restaurativas cotidianas para mediação de conflitos e projetos de forte impacto social, como o clube de moda criado pelos próprios estudantes após a perda de uma colega para a violência armada, que vende roupas para apoiar famílias vítimas desse mesmo trauma.
IES Carmen de Burgos Seguí (Espanha) – Categoria: Saúde e bem-estar
Diante do aumento de casos de ansiedade, depressão e automutilação entre os jovens na pequena cidade de Alovera, esta escola pública de ensino médio decidiu colocar a saúde mental no centro de sua identidade. A instituição criou um ecossistema de acolhimento que inclui desde um coordenador de bem-estar dedicado até o Tu Espacio de Expresión (Seu Espaço de Expressão), uma sala voltada para estudantes em crise emocional respirarem e serem ouvidos sem julgamentos. A escola também foi pioneira na implementação de banheiros de gênero neutro para acolher alunos trans, organizou “Recreios Ativos” com esportes cooperativos que reduziram drasticamente os conflitos no pátio e lançou o projeto Música que Acompaña, onde os estudantes tocam para pacientes em hospitais da região, trabalhando a empatia na prática.
Suubi Community Primary School & Secondary Schools (Uganda) – Categoria: Inclusão e necessidades educacionais especiais
Localizada na zona rural do distrito de Mubende, esta escola de educação básica nasceu para combater uma dura realidade local: o fato de que muitas crianças frequentam as aulas, mas não conseguem aprender devido à pobreza, às longas distâncias e aos traumas das crises de ebola e covid-19. Com o lema de que “toda criança pode aprender, mas não no mesmo ritmo”, a instituição estruturou um modelo pedagógico de nivelamento sem depender de tecnologias de alto custo, focando em avaliações diagnósticas individuais e planos de estudo adaptados que usam recursos visuais, contação de histórias e aprendizado entre pares. O grande diferencial inclusivo da escola é colocar os estudantes com necessidades especiais em cargos de liderança ativa em projetos de ciências, artes e agricultura, transformando a autoestima desses jovens perante a comunidade.
Neeson Cripps Academy (Camboja) – Categoria: Educação STEM
Construída a menos de 300 metros de onde funcionava um dos maiores e mais tóxicos lixões do Sudeste Asiático, esta escola transformou a realidade de jovens que antes catavam lixo para sobreviver em Phnom Penh. Criada pela organização Cambodian Children’s Fund, a instituição atende cerca de 500 estudantes de alta vulnerabilidade social com um ensino focado em STEAM (abordagem integrada de ciências, tecnologia, engenharia, artes e matemática). Substituindo o tradicional modelo de memorização por projetos práticos e colaborativos, a escola alcançou uma taxa de aprovação de 98% no ensino médio, sendo que 39% de seus egressos ingressam em faculdades de exatas — com um destaque incrível para as mulheres, que representam 74% dos universitários apoiados pelo projeto. Com alunos premiados em olimpíadas mundiais de robótica e ex-alunas estudando com bolsas integrais na Austrália, a escola tem uma sólida parceria de formação docente com a Universidade de Nottingham (Reino Unido).
Institución Educativa Comercial de Envigado (Colômbia) – Categoria: Sustentabilidade
Diante de uma crise que combinava poluição do ar, contaminação da água local e um surto letal de dengue, esta escola pública colombiana que atende 1.900 estudantes decidiu se reinventar criando a metodologia de pesquisa socioambiental GCA e o programa INVENTIPAZ. A iniciativa transformou cada sala de aula em um laboratório de investigação científica, onde os próprios alunos desenvolvem soluções para os problemas reais do território. Os resultados práticos no “chão da escola” e na comunidade são notáveis: biopesticidas solares criados pelos estudantes reduziram os casos locais de dengue de 236 para apenas 3, jardins filtrantes despoluíram o ar, e sistemas de biofiltragem limparam o riacho da região em mais de 62%. Além disso, os alunos desenvolveram tecnologias de ponta, como pernas robóticas antiminas terrestres, drones purificadores de água e uma mão robótica premiada para tratamento de artrite. Com uma redução de 73% na evasão escolar e acumulando prêmios da UNESCO e da Fundação das Nações Unidas, a instituição mostra como a ciência cidadã pode transformar a realidade comunitária.
Reach Academy Feltham (Reino Unido) – Categoria: Formação de professores
Localizada em uma das comunidades mais diversas de Londres, esta escola pública melhorou os índices de aprendizagem locais ao tratar a formação docente como o principal motor de sucesso dos alunos. Sob a liderança da diretora-executiva Rebecca Cramer, a instituição oferece a cada professor sessões semanais de mentoria prática (coaching instrucional) e formações diárias baseadas em ciências cognitivas. O impacto dessa aposta é evidente: enquanto apenas 20% dos jovens da região costumavam chegar ao ensino superior, cerca de 97% dos ex-alunos da Reach agora ingressam nas melhores universidades do país. Além de recrutar e dar bolsas para que pais de alunos e assistentes da comunidade local se tornem professores qualificados, a escola cuida de quem ensina com uma política rigorosa de bem-estar, que inclui licenças remuneradas flexíveis e salários acima da média. Pioneira, a instituição também criou um hub de apoio social que vai do berço à carreira e já foi replicado por centenas de escolas britânicas.

