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Inovações em Educação

Cinema e TV precisam refletir o olhar da criança

Festival comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano trouxe a São Paulo (SP) profissionais que incluem o público infantil como protagonistas de suas produções

por Marina Lopes / Vinícius de Oliveira 24 de agosto de 2017

A discussão sobre protagonismo do estudante esbarra no adultocentrismo dentro da escola e também na mídia e no cinema. No último final de semana, o festival de cinema infantil comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano, trouxe a São Paulo (SP) dois profissionais que procuram reverter esse quadro, abrindo espaço para que a criança compreenda a realidade ao seu redor e consiga expressar livremente suas emoções diante da câmera, sem ter que se preocupar com o certo ou o errado.

Após a oficina “Como entrevistar crianças e selecionar casting infantil?”, o Porvir falou com o holandês Jan-Willem Bult, produtor e realizador de programas de TV e editor-chefe da rede internacional de noticiários “Wadada, News for Kids”, e com a argentina Aldana Dualde, produtora de TV e diretora de conteúdo do “Alta Noticia”, noticiário dirigido a crianças do canal Pakapaka. Seja produzindo programas de TV ou documentários, o tema da educação centrada no aluno dominou a conversa.

Tudo começa por ouvir a criança e dar espaço para que ela exerça sua autonomia. Isso fica mais claro, segundo Jan-Willem, em Merle, documentário que lançou em 2008 e venceu festivais na Alemanha, Japão, México e Uruguai. No filme, uma menina de 11 anos experimenta a liberdade de fazer uma escultura de madeira com uma motosserra. “Como profissional, poderia descrever essa postura centrada na criança como uma maneira de usar sua posição em favor da história. Enquanto os programas tradicionais dedicam-se aos processos e a explicar como as coisas funcionam, eu tento colocar as crianças em uma profunda conexão com outras para que elas também se sintam desafiadas a criar”, diz Jan-Willem.

No WADADA News for Kids partimos do princípio que a grande mídia não detém mais o controle da informação, mas isso não significa que devemos ignorá-las e deixar de produzir notícias dedicadas para crianças, feitas por crianças

Segundo o diretor holandês, a lógica industrial, que exige produções rápidas no menor tempo possível resulta em medo e distanciamento de lidar com o público infantil. “Se você vai assistir a um filme da Disney com 500 pessoas na sala, todas as pessoas vão ter a mesma emoção. Mesmo se você tiver o lucro como objetivo, é necessário colocar a criança no centro. Isso leva mais tempo, criatividade e perda de controle, mas o resultado é mais significativo”.

Apesar de admitir que ainda “vivemos uma pré-história da mídia para crianças”, o diretor afirma que é crucial colocá-las como produtoras de conteúdo audiovisual, ainda mais diante da polarização e radicalismos políticos. Isso levou conversa ao projeto WADADA News for Kids, que permite a crianças produzirem vídeos, podcasts ou programas de rádio. “No WADADA News for Kids partimos do princípio que a grande mídia não detém mais o controle da informação, mas isso não significa que devemos ignorá-las e deixar de produzir notícias dedicadas para crianças, feitas por crianças. O material serve como base para que elas comecem a adaptar, criar e compartilhar notícias em redes sociais”, explica.

Para Jan-Willem, essa formação para apresentar a educomunicação para crianças deve apenas tomar cuidado com o adultocentrismo. “Primeiro, é importante não achar que eles devem produzir do jeito que os adultos fazem. Depois, deve-se oferecer ajuda de acordo com a necessidade. E terceiro, é crucial que consigam produzir notícias pensadas para crianças”.

Um noticiário para crianças
Na Argentina, uma experiência semelhante à WADA busca formar audiências críticas desde a infância. No ano passado, o canal público Paka Paka começou a exibir um noticiário sem tecnicismos ou jargões para ajudar crianças a compreender o cenário nacional e internacional.

“Encontramos na audiência para crianças uma oportunidade de falar sobre a realidade, mas sem o egocentrismo de achar que ela se compõe apenas pela visão adulta”, conta Aldana Dualde, diretora de conteúdo do Alta Noticia. “Um noticiário para crianças é importante porque elas se envolvem com as informações que as cercam.”

Em um período no qual o acesso à informação se torna cada vez mais requisitado, Aldana diz que as crianças têm o direito de saber o que acontece ao seu redor. No entanto, ela avalia que boa parte dos noticiários não são apropriados para essa faixa etária, seja por apresentarem imagens inapropriadas ou até mesmo por espetacularizarem as notícias e não contemplarem diferentes pontos de vista.

Encontramos na audiência para crianças uma oportunidade de falar sobre a realidade, mas sem o egocentrismo de achar que ela se compõe apenas pela visão adulta

Mais do que transmitir informação, a diretora de conteúdo do Alta Noticia menciona que o noticiário infantil assume um papel de grande relevância na construção do pensamento crítico das crianças. “Os noticiários dão possibilidades de ver e refletir sobre o que está acontecendo para que as crianças adotem a sua postura pessoal, que complementa a visão da escola, dos pais e dos colegas”, explica.

De acordo com ela, qualquer tema pode ser comunicado ao público infantil, desde que seja pensado como esses conteúdos serão apresentados. “Isso não é tão fácil. Temos uma eterna busca porque as crianças mudam constantemente”, diz Aldana, ao exemplificar que também é possível falar de inflação com as crianças, desde que sejam usadas metáforas e um vocabulário acessível. “O direto e simples acaba beneficiando todo público, não apenas as crianças.”

Trabalhar notícias com crianças também requer alguns cuidados, como ela faz questão de ressaltar: “As notícias não deixam de ser histórias, então elas precisam ser bem contadas, principalmente quando são para crianças.” No Alta Noticia, por exemplo, para não conduzir a emoção das crianças com estímulos que não são informativos, não são inseridas músicas durante as reportagens. O alinhamento editorial do programa também tenta apresentar um equilíbrio entre diferentes pontos de vista e múltiplas fontes, além de sempre incluir na pauta o debate sobre inclusão, equidade de gênero, diversidade e paz. “Temos certos princípios que vão polindo o que cremos ser um bom noticiário.”

Diante de uma onda de notícias falsas que se propagam pela internet nos últimos tempos, Aldana também diz que a produção de noticiários infantis pode ser uma ferramenta para combater as chamadas fake news. “Temos que fazer um trabalho de alfabetização para as mídias muito profundo em todos os níveis, inclusive entre os adultos”, conclui.

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cinema, educomunicação, protagonismo juvenil