10 livros para você fortalecer o seu letramento racial
Aperfeiçoe seu letramento racial com uma seleção de livros que combinam teoria, reflexão e prática educativa
por Rafael Silva
16 de dezembro de 2025
O período de recesso permite que educadores tenham mais tempo para se dedicarem a atividades que o cotidiano muitas vezes não permite. A vida de quem está na sala de aula ou na gestão escolar é bastante corrida e nem sempre as leituras ficam em dia. No caso do letramento racial, não é possível avançar ou se aprofundar sem dedicar tempo às leituras.
Em treinamentos e palestras que fiz ao longo do ano, muitos professores me fizeram a mesma pergunta: como começar ou aprofundar uma trajetória de letramento racial e se tornar um educador comprometido com a equidade racial?
Não por acaso, a escola tem sido um dos espaços mais desafiados a repensar suas práticas, narrativas e políticas em busca de uma educação antirracista.
É importante começar o letramento
O letramento racial requer coragem para abandonar antigos pressupostos. É preciso rever crenças e fundamentos teóricos, ter sensibilidade para perceber como o racismo se manifesta em microgestos e políticas institucionais e, sobretudo, compromisso ético para reconstruir a escola como um espaço seguro e afirmativo para crianças e jovens.
Isso significa que a prática não é um conjunto de respostas prontas, mas um processo contínuo de formação, que nasce da escuta, do diálogo e da disposição de reconhecer desigualdades que atravessam nosso cotidiano escolar e atingem, especialmente, estudantes não brancos, seja no ensino público ou privado.
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Os livros a seguir ajudam a construir um repertório crítico e sensível, alinhado às demandas de uma escola mais justa. São obras que apoiam quem está começando esse percurso, mas também provocam quem já caminha há algum tempo. Ou seja, tem leitura para todos os gostos e níveis de letramento.
Mais do que aprender sobre racismo e suas formas de manifestação, a ideia dessa lista é fazer educadores repensarem práticas pedagógicas, currículos, relações interpessoais e a própria função social da escola. Essas leituras são uma oportunidade de voltar para o próximo semestre mais preparado, mais consciente e mais conectado com a responsabilidade de ensinar em um país marcado por profundas desigualdades raciais.
Confira a lista:
Pequeno Manual Antirracista
Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 136 páginas)
Considero este um dos livros mais acessíveis para quem está iniciando o caminho do letramento racial. A filósofa e escritora brasileira Djamila Ribeiro organiza conceitos fundamentais sobre raça e racismo com clareza, mostrando como esse sistema estrutura relações sociais, práticas institucionais e escolhas do cotidiano. Para educadores, ajuda a nomear fenômenos, reconhecer desigualdades e começar a agir com intencionalidade antirracista dentro da escola.
Superando o racismo na escola
Kabengele Munanga (Ministério da Educação, 204 páginas)
Mesmo publicado há mais de duas décadas, este é um clássico que segue atual, sobretudo em um sistema educacional que ainda reproduz desigualdades raciais. Organizado por Kabengele Munanga, antropólogo congolês-brasileiro e professor titular da USP (Universidade de São Paulo) e editado pelo MEC (Ministério da Educação), o livro traz o relato de 11 educadores e especialistas em educação para analisar como a escola naturaliza preconceitos, invisibiliza culturas e reforça estereótipos. É leitura obrigatória para quem deseja compreender as raízes institucionais do racismo na escola e atuar de forma propositiva.
Como ser um educador antirracista
Bárbara Carine (Editora Planeta, 160 páginas)
Este é um guia prático e profundo para quem deseja transformar a ação pedagógica. A escritora – autora de “História Preta das Coisas: 50 invenções científico-tecnológicas de pessoas negras”, “Querido estudante Negro”, “Educando crianças negras”, entre outros – une conceitos teóricos e o que acontece no dia a dia com muita habilidade, mostrando como o racismo se manifesta nos currículos, nas interações, nas propostas pedagógicas e nos materiais didáticos. Aqui, não se trata apenas de fazer denúncias, mas de fazer proposições que mudem a postura docente.
A terra dá, a terra quer
Antônio Bispo dos Santos (Ubu Editora, 112 páginas)
Conhecido como Nego Bispo, o poeta, professor e líder quilombola Antônio Bispo dos Santos apresenta o conceito de contracolonialidade de forma brilhante, convidando o leitor a entender a vida e o conhecimento a partir de perspectivas afroindígenas. A obra provoca educadores a repensar a relação com o território, comunidade e saberes tradicionais, desafiando modelos de pensamento que priorizam apenas conhecimentos ocidentais. É um livro curto, mas imenso em densidade e impacto, duvido você lê-lo e “sair” o mesmo depois dele.
Letramento Racial Crítico Através de Narrativas Autobiográficas
Aparecida de Jesus Ferreira (Editora Estúdio Texto, 174 páginas)
A proposta da professora Aparecida de Jesus Ferreira é rever a própria história para despertar a consciência racial. Este volume combina teoria, relatos e atividades práticas que convidam educadores a revisitar suas próprias histórias, silêncios e referências. É uma leitura transformadora porque desloca o foco do “ensinar sobre raça” para “reconhecer-se racialmente”. Ideal para formações continuadas, grupos de estudo e processos institucionais de mudança.
A terra dos mil povos: História indígena do Brasil contada por um indígena
Kaka Wera Jecupé (Editora Peirópolis, 175 páginas)
O escritor, conferencista e ambientalista Kaká Werá reapresenta a história do Brasil, mas desta vez contada a partir da perspectiva de uma pessoa indígena, mostrando fatos, situações e maneiras de ver o mundo que nem sempre aparecem nos livros didáticos. Educadores encontram aqui não apenas conteúdo, mas formas de ensinar de maneiras mais sensíveis, plurais e alinhadas à diversidade étnica do país.
A Pedagogia da Encruzilhada
Luiz Rufino (Mórula Editorial, 200 páginas)
Rufino recorre ao conceito de pedagogia que nasce da encruzilhada — espaço de encontro, trânsito, conflito e criação presente nas cosmologias afro-brasileiras. O livro instiga educadores a revisitar práticas escolares desde uma perspectiva que valoriza corporeidade, oralidade, espiritualidade e saberes populares. É uma obra densa e poética, que expande o entendimento sobre o que pode ser conhecimento e como ele pode ser vivido na escola. Perfeita para quem busca inovar com sentido decolonial e sensibilidade cultural.
Terra: antologia afroindígena
Vários autores (Ubu Editora, 392 páginas)
Esta antologia reúne poetas, pensadores e artistas que abordam temas como ancestralidade, espiritualidade, disputa e cuidado. A riqueza textual faz do livro um excelente recurso para projetos interdisciplinares, especialmente em História, Artes, Linguagens e Educação Ambiental, que ajudam a ampliar o repertório cultural e a ver com mais atenção perspectivas indígenas muitas vezes invisibilizadas

Vozes de Abya Yala
Vários autores (Rede de Antropologias do Sul, 295 páginas)
Reunindo reflexões de diferentes povos originários do continente, esta obra traz análises sobre território, futuro, política, espiritualidade e coletividade. Para educadores, o livro oferece não só conhecimento, mas também novos referenciais éticos: como pensar escola, democracia e cuidado a partir de conhecimentos indígenas? A leitura traz contribuições fundamentais para a construção de um currículo mais plural, conectado à decolonialidade e à justiça socioambiental.
Dispositivo de racialidade
Sueli Carneiro (Zahar, 432 páginas)
Sueli Carneiro, filósofa, escritora e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, dedica este livro a uma reflexão profunda sobre como a racialidade estrutura relações de poder no Brasil e como esse sistema organiza instituições, discursos e práticas, inclusive as escolares. É uma obra de base teórica robusta, essencial para educadores que desejam compreender as engrenagens do racismo estrutural e seu discurso desumanizador. Densa e extremamente reveladora, essa leitura pode permear qualquer debate sobre raça dentro do cotidiano escolar.
Rafael Silva
Homem negro, professor e palestrante, com graduação em História e Geografia, Mestrado em História Social da Cultura, especialista em Diversidade e Educação das Relações Étnico-Raciais. É cofundador do Pré-Vestibular Social PECEP e atua como Professor e Gerente de Equidade e Inclusão na Our Lady of Mercy School. Também é professor na PUC-Rio, nos cursos de Diversidade na Prática das Organizações e MBA em Impacto Social. Foi reconhecido internacionalmente com a 30ª posição no ranking Favikon “World's 200 Top Voices in Education”.














