Estudantes segurando certificados em uma sala de aula.

No Mato Grosso, em Roraima e na Amazônia, indígenas produzem podcasts para preservar suas línguas e transmitir histórias ancestrais. Em Belém (PA), alunos da rede pública se tornam coautores de um jornalista local, revisando textos e refletindo criticamente sobre o conteúdo. Já em Florianópolis (SC), a Mostra de Cinema Infantil oferece filmes e oficinas, formando plateias críticas e ampliando o acesso à cultura.

Esses são apenas três exemplos dos atuais 226 projetos que integram o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, plataforma criada para reunir e divulgar iniciativas de educação midiática de todo o Brasil. 

O mapa é uma colaboração entre a SECOM/PR (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o governo do Reino Unido e o Porvir. 

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As inscrições para a segunda edição do Mapa seguem abertas até o dia 16 de março. Educadores e gestores de todo o país são convidados a inscrever seus projetos e fortalecer essa rede de transformação. Para inspirar novas candidaturas, o Porvir selecionou 12 projetos já cadastrados que exemplificam como o pensamento crítico e a educação midiática podem ser aplicados na prática. Confira a lista:

Região Norte

Saúde e Alegria
Tapajós, Santarém – PA

Criado em 1987, o Saúde e Alegria é um projeto de desenvolvimento comunitário que integra saúde, educação, comunicação popular e sustentabilidade, impactando diretamente as comunidades ribeirinhas e indígenas na região amazônica. A iniciativa, coordenada por Caetano Scannavino, nasceu com foco na saúde, mas expandiu suas ações para áreas como saneamento, energia renovável e alternativas econômicas sustentáveis. Entre seus marcos, destaca-se a criação do Barco Hospital Abaré, modelo que foi adotado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e replicado em toda a Amazônia. A metodologia do projeto é construída em parceria com as comunidades, visando soluções adaptadas às suas realidades.

Apresentação cultural com dança e música em comunidade.
Crédito: Divulgação

A comunicação popular sempre foi uma das ferramentas centrais do projeto, com a criação do Circo Mocorongo de Saúde e Alegria, que leva teatro e música às aldeias, e a Rede Mocoronga de Comunicação Popular, formada por jovens locais que produzem conteúdo com a cultura da região. O projeto também investe em educomunicação, ensinando os jovens a criar e gerenciar mídia local, resgatando saberes tradicionais e promovendo a educação ambiental. Além disso, com o prêmio Mocoroscar, os jovens são incentivados a produzir vídeos e campanhas educativas.

Rádio Educação Cidadania (REC)
Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Rondônia

O REC (Programa de Extensão Rádio Educação Cidadania), da Universidade Federal de Rondônia, é uma iniciativa de educomunicação voltada a escolas e comunidades da região. Fundado pela jornalista e educadora Evelyn Morales, o projeto utiliza o rádio e os podcasts como ferramentas para fortalecer a oralidade e dar voz a comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e extrativistas. A metodologia, inspirada nos educadores Paulo Freire e Mario Kaplún, foca na produção coletiva de conteúdo, onde os próprios moradores entrevistam uns aos outros e criam narrativas sobre suas histórias e vivências.

Gravação de podcast em uma comunidade rural.
Crédito: Divulgação

O REC já formou comunidades em diversas regiões de Rondônia, como o projeto realizado com mulheres catadoras de Porto Velho, que resultou no documentário “Guerreiras da Vila Princesa”. Apesar das dificuldades de recursos, o projeto segue avançando com o apoio de movimentos sociais e doações. Evelyn, que já enfrentou questionamentos sobre a relevância do rádio em tempos de internet, destaca que a realidade das comunidades locais exige alternativas simples, como o rádio, que pode ser operado com pilhas e é uma forma eficaz de comunicação em áreas isoladas. Além disso, o REC promove a autonomia local, capacitando jovens a produzirem conteúdo e a ocupar espaços de decisão, disseminando as práticas para outras comunidades.

Jornalismo e adolescência
Escola Pública Antônio Lemos
Santa Izabel, Pará – PA

Em 2024, a ideia de transformar estudantes em coautores de conteúdos jornalísticos tornou-se realidade na Escola Pública Antônio Lemos, em Santa Izabel, no interior do Pará, através de uma parceria inovadora entre Daniel Nardin, jornalista premiado e fundador do Amazônia Vox, e a professora Marcela Castro. O projeto, que envolve adolescentes de 14 a 16 anos, coloca os alunos no papel de revisores de textos jornalísticos, promovendo uma educação midiática prática e colaborativa. Os estudantes revisam artigos publicados no portal Amazônia Vox, oferecendo sugestões para melhorar a fluência do texto e aproximá-lo de um público mais jovem e regional.

Estudantes segurando certificados em uma sala de aula.
Crédito: Divulgação

O projeto vai além da simples revisão de textos, pois estimula uma análise crítica das produções jornalísticas e coloca os alunos como protagonistas no processo de criação de conteúdo. Eles questionam a linguagem técnica, sugerem sinônimos e discutem temas relevantes, como a realidade amazônica e questões socioambientais. O sucesso foi tanto que, em um caso marcante, um dos artigos revisados, sobre a cobertura pré-natal em comunidades ribeirinhas, foi premiado no Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde. Além disso, o projeto gerou parcerias com outras escolas e inspirou iniciativas de educação midiática, demonstrando a importância de integrar o jornalismo às escolas públicas para formar leitores críticos e engajados.

Região Nordeste

COAR Notícias
Piauí – PI

A COAR Notícias, criada por Marta Alencar, é uma iniciativa de checagem de fake news que nasceu da tragédia causada por uma informação falsa, resultando no linchamento de Fabiane Maria de Jesus em 2014. Em resposta a esse episódio, Marta fundou o projeto em 2019, com o objetivo de combater a desinformação e salvar vidas por meio da educação midiática. Desde então, a COAR tem atuado como a primeira agência de fact-checking do Nordeste, com um foco especial em “desertos de notícias”, onde o acesso à informação confiável é escasso. O projeto não se limita à checagem de notícias, mas também promove educação sobre o uso consciente da tecnologia e a identificação de fake news, especialmente em escolas.

Estudantes com livros em uma sala de aula.
Crédito: Divulgação

Em 2024, Marta criou o Manual Arriégua, um material de fácil compreensão e linguagem regional que tem sido amplamente utilizado por professores em todo o Brasil. O manual tem sido adotado por escolas em regiões de difícil acesso, como Piauí, Maranhão e Sergipe, e se tornou uma ferramenta essencial no ensino de crianças e jovens sobre o combate à desinformação. O impacto foi tão grande que o projeto foi reconhecido por instituições como a ministra Cármen Lúcia e o Tribunal Superior Eleitoral. A COAR segue em expansão, com planos de levar o projeto a mais estados e alcançar um público ainda maior, ajudando a formar cidadãos críticos e informados.

Mundo Mídia
Prefeitura do Recife
Recife, Pernambuco – PE

O Mundo Mídia, uma série de vídeos educacionais criada pela Prefeitura de Recife, tem se destacado por promover a educação midiática de forma inovadora, capacitando professores e alunos para o desenvolvimento de um pensamento crítico no ambiente digital. Lançada dentro do programa EducaRecife, a série aborda temas como letramento midiático, segurança digital, e combate à desinformação, com o objetivo de formar cidadãos ativos e conscientes nas redes sociais. Os episódios, que variam de 5 a 10 minutos, têm roteiros bem definidos e produção audiovisual profissional, visando um aprendizado dinâmico e relevante para a realidade dos estudantes.

Jovem utilizando dispositivo assistivo para escrever em um computador.
Crédito: Divulgação

Além de impactar diretamente os estudantes, o Mundo Mídia também transformou a prática pedagógica dos professores, que passaram por uma formação intensiva. A professora Karla Soatman, por exemplo, relatou como o projeto a desafiou a se tornar uma “influencer” na sala de aula, utilizando a linguagem digital e redes sociais para engajar seus alunos de maneira mais efetiva. O sucesso da série ultrapassou os limites da capital pernambucana, alcançando público em outras cidades e até em outros estados. Agora, a Prefeitura de Recife busca expandir o alcance do projeto através de parcerias com o Ministério da Educação e a Fundação Roberto Marinho, visando a inclusão dos conteúdos em plataformas nacionais como o MEC RED e o Globoplay.

Região Centro-Oeste

OpsLab
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Mato Grosso – MT

O OpsLab nasceu em 2017, quando a professora Pamela Craveiro, ao assumir seu cargo na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), percebeu a falta de discussões sobre o papel social da publicidade. Inicialmente, o projeto de extensão foi voltado para a leitura crítica da publicidade em escolas da rede básica de educação em Goiás e na região metropolitana. Com o tempo, o projeto cresceu e, em 2019, se transformou em um laboratório acadêmico, articulando ensino, pesquisa e extensão, com o objetivo de desenvolver habilidades culturais, críticas, criativas e cidadãs em crianças, adolescentes e jovens comunicadores.

Jovens participando de atividade ao ar livre.
Crédito: Divulgação

Baseado na ideia de literacia publicitária e social, o OpsLab utiliza a publicidade como ferramenta pedagógica, estimulando os alunos a questionarem a sociedade de consumo e refletirem sobre o impacto da comunicação em suas vidas. O projeto fomenta a produção criativa dos alunos, incentivando-os a criar anúncios e vídeos. A iniciativa também promove materiais educativos online, como fichas pedagógicas e minicursos, para apoiar educadores em diversas partes do Brasil, incentivando a leitura crítica e a transformação social. Além disso, o OpsLab busca democratizar o acesso ao conhecimento, promovendo a educação midiática como um direito fundamental para todos.

Educom.indígena
Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)
Mato Grosso – MT

O projeto Educom.indígena, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), promove uma educação midiática adaptada às realidades e saberes dos estudantes indígenas, com foco na troca de conhecimentos, produção de podcasts e reflexão crítica sobre o uso da tecnologia nos territórios. Coordenado pela professora Antonia Alves, o projeto visa respeitar os tempos e modos de vida indígenas, ao mesmo tempo em que propõe uma formação crítica sobre o uso de tecnologias digitais. As oficinas, realizadas de forma presencial e virtual, incentivam os alunos a gravar entrevistas com anciãos, preservar suas línguas maternas e contar histórias a partir da própria visão de mundo.

Pessoas em uma sala de aula participando de uma apresentação.
Crédito: Divulgação

Desde sua criação em 2024, o Educom.indígena tem integrado a produção de conteúdo audiovisual com questões socioambientais, como o uso consciente do celular e a reciclagem de materiais nas aldeias. O projeto também enfrenta desafios, como a exposição de crianças a conteúdos digitais inadequados, mas busca promover uma educação digital responsável, formando multiplicadores nas próprias comunidades. Com essa abordagem, o Educom.indígena não só fortalece a identidade cultural, mas também empodera os estudantes e professores indígenas, oferecendo ferramentas para transformar a tecnologia em aliada na preservação e divulgação de suas tradições.

Região Sudeste

Em meio ao território de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, onde a comunicação muitas vezes é marcada por estigmas negativos, surge o projeto Vozes Daqui de Parelheiros, uma agência de comunicação comunitária que tem como objetivo combater a desinformação e dar visibilidade às potências locais. Criado durante a pandemia de 2020, o projeto atua com metodologias adaptadas ao contexto cultural da região, promovendo a escuta ativa e valorizando as histórias dos moradores, muitas vezes marginalizadas pela grande imprensa. O projeto oferece, ainda, formações gratuitas em comunicação para jovens de 14 a 29 anos, contribuindo para a formação de uma juventude crítica e engajada com seu território.

Jovens pintando cartazes de conscientização em um ambiente urbano.
Crédito: Divulgação

O Vozes Daqui se destaca por sua atuação colaborativa e pelo fortalecimento da comunicação como um direito humano e ferramenta de transformação social. Além de produzir conteúdos audiovisuais e promover oficinas, a iniciativa também registra histórias de vida por meio da série Memórias de Parelheiros, que dá voz a moradores afrodescendentes e indígenas da região. Com ações voltadas para a preservação ambiental, como a campanha “Contra o racismo eu planto”, o projeto também tem um compromisso com a sustentabilidade, reflorestando áreas de Mata Atlântica e criando espaços culturais dentro da floresta.

Pretinhas Leitoras
Providência, Rio de Janeiro – RJ

O Pretinhas Leitoras é um projeto educacional transformador que une literatura, afetividade e educação midiática para promover o protagonismo social de crianças e adolescentes da comunidade carioca da Providência. Iniciado por Elen Ferreira, a partir de um questionamento de sua filha Helena sobre o que as crianças fazem durante os tiroteios na favela, o projeto se expandiu para um canal no YouTube, livro, biblioteca e até uma escola. Desde 2005, a iniciativa tem trabalhado com jovens, resgatando a oralidade, promovendo rodas de leitura e criando um espaço seguro para o desenvolvimento da autoestima e do pensamento crítico.

Duas jovens posando para foto ao ar livre.
Crédito: Divulgação

O projeto também teve um impacto significativo ao integrar mídia e educação, formando jovens para ocupar espaços de fala e resistência. Com a criação da Biblioteca Erê, um espaço físico dedicado à cultura afro-brasileira e à formação de novas gerações, e da Escola Por Vir, que oferece atividades culturais e educativas, o projeto expande o conceito de educação para além da sala de aula formal, alinhando-se aos princípios de Paulo Freire. Hoje, Pretinhas Leitoras se mantém como um exemplo de resistência cultural e educação transformadora, onde a literatura se torna uma ferramenta para denunciar e anunciar novas possibilidades de futuro.

Mostra Audiovisual
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), Fiocruz
Rio de Janeiro – RJ

A Mostra Audiovisual Estudantil Joaquim Venâncio, coordenada pelo professor Gregorio Galvão de Albuquerque, é uma iniciativa que une educação midiática crítica e produção audiovisual, proporcionando aos alunos da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) uma plataforma para expressar suas inquietações e formar um olhar crítico sobre o mundo. Criada em 2010, a Mostra valoriza a produção independente de vídeos por estudantes, com foco na reflexão e na interpretação de imagens, em vez do simples domínio das ferramentas tecnológicas. O projeto busca não apenas ensinar a operar câmeras, mas incentivar a construção de sentido e transformação através da imagem.

Jovens assistindo a um evento educacional.
Crédito: Divulgação

Com categorias como Mostra Internacional, Povos Originários, e Combate à Desinformação, o projeto atrai inscrições de diversas partes do Brasil e do mundo. Entre os exemplos mais impactantes estão o curta Jesus Negro, que aborda a representação de Jesus em um contexto de racismo, e o trabalho de uma aluna autista que se expressou através de animações, criando uma monografia em formato animado. A Mostra também se tornou um ponto de encontro e troca com outras iniciativas de educação audiovisual, como o Cinead/CAP UFRJ e a Rede Kino, ampliando sua capacidade de impacto e replicação.

Região Sul


Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis
Florianópolis, Santa Catarina – SC

A Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, idealizada por Luiza Lins, é uma iniciativa que busca democratizar o acesso ao cinema nacional e formar plateias críticas desde a infância. Criada em 2002, a Mostra nasceu da inquietação de Luiza, ao perceber a falta de atividades culturais para crianças em Santa Catarina, especialmente em sua cidade natal. A cada edição, o evento seleciona e exibe filmes que abordam temas de inclusão, direitos humanos e representatividade, promovendo uma educação cultural e midiática para estudantes e professores. Além disso, oferece oficinas de audiovisual e atividades educativas que envolvem crianças e suas famílias.

Crianças assistindo a um filme em um festival de cinema infantil
Crédito: Divulgação

Com um impacto significativo na formação de público, a Mostra já atendeu mais de um milhão de crianças e jovens e se consolidou como um espaço de conhecimento e expressão, com edições que atraem filmes de diferentes partes do mundo. Ao longo dos anos, o evento também se tornou um importante aliado na luta contra o preconceito com o cinema brasileiro, oferecendo capacitação aos educadores e ampliando os repertórios culturais. Para o futuro, a Mostra pretende expandir sua atuação, levando o projeto para outras partes do Brasil e aproveitando o potencial do streaming para alcançar mais crianças e fortalecer a cultura audiovisual nacional.

Afonte
Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (Unisinos)
Porto Alegre, Rio Grande do Sul – RS

O projeto Afonte, criado por Taís Seibt e Marília Gehrke, tem como objetivo combater a desinformação e promover a educação midiática no Brasil. Fundado em 2019, o projeto combina checagem de fatos, jornalismo de dados e tecnologia, visando formar cidadãos críticos e capacitar professores e estudantes na identificação de fake news. A principal ferramenta do Afonte é o repositório de conteúdos educativos Postar ou Não, que oferece e-books, podcasts e atividades para serem utilizadas em sala de aula. Além disso, o projeto promove oficinas e eventos de formação em diversas escolas e comunidades, com foco na criação de um público mais consciente e bem informado.

Público assistindo a uma apresentação em um evento.
Crédito: Divulgação

A iniciativa também se destaca por sua atuação em situações de crise, como as enchentes no Rio Grande do Sul, quando o projeto Verifica RS foi criado para combater a desinformação disseminada durante a tragédia. Com o apoio de voluntários, o Afonte tem se consolidado como uma plataforma educativa e colaborativa, atuando para fortalecer a literacia midiática e promover o uso responsável das tecnologias. A parceria com instituições de ensino e a realização de eventos como a Maratona de Dados são parte do esforço contínuo para sensibilizar e engajar a sociedade na luta contra as fake news.