José Armando Valente, o pesquisador brasileiro que subverteu a relação entre educação e tecnologia ao defender que computadores deveriam servir como “espelhos da mente” em vez de meras ferramentas de instrução, morreu neste domingo (28). Ele tinha 77 anos.
José Valente criticava o sistema educacional por sua rigidez e previsibilidade, nas quais o saber é fragmentado em “gavetas disciplinares”, geridas pelo ritmo burocrático de um sinal sonoro. Para ele, a revolução educativa não ocorreria por decreto, mas gradualmente. Os dispositivos portáteis integraram o mundo ao cotidiano escolar, democratizaram o acesso à informação e aos interesses dos alunos, o que forçou a instituição a enfrentar um presente antes ignorado.
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Programar para pensar
A origem dessa ruptura intelectual remonta a 1975, em um encontro nos corredores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Valente, então um jovem pesquisador fluente em inglês, foi o cicerone de Seymour Papert e Marvin Minsky, pioneiros da inteligência artificial no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos). Em um webinário para a Rede de Aprendizagem Criativa, o professor lembrou da ocasião como uma verdadeira imersão nos conceitos de aprendizagem, programação e experiências práticas que depois virariam base do construcionismo.
Hospedado com o grupo em uma fazenda sem eletricidade, José Valente apresentou um projeto para ensinar matemática de forma linear e automatizada. Papert, ao observar o trabalho, respondeu com franqueza: “Não é nada disso”.
A virada no MIT
Aquele “não” mudou a vida de José Valente e ajudou a e consolidar as bases do construcionismo no Brasil. Na Unicamp, ele vivia uma frustração com a ciência da computação após desenvolver, no mestrado, um sistema para linguistas que nunca chegou a ser usado, o que o fez questionar o sentido daquele trabalho. Em 1976, ele partiu para o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), onde permaneceu por oito anos e concluiu o mestrado e o doutorado. Lá, contribuiu para o desenvolvimento da linguagem de programação Logo, famosa pela “tartaruga” robótica que desenhava formas geométricas no chão.
Valente descrevia o robô como um dispositivo circular (algo parecido com um aspirador de pó), equipado com buzina e caneta. A genialidade, porém, residia na experiência: ao comandar a máquina, a criança projetava o próprio corpo no robô. Para desenhar um quadrado, o aluno precisava se imaginar caminhando e virando, como se estivesse dentro da tartaruga.
Nos Estados Unidos, ele também conheceu um projeto que utilizava tecnologia para interpretar os movimentos de pessoas com paralisia cerebral, traduzindo-os em ações no computador. Isso revelou, para ele, um uso concreto, relevante e socialmente transformador da tecnologia. Foi também nesse período que conheceu Ann Berger, sua companheira de vida e pesquisa.
O erro como motor da aprendizagem
José Valente foi um dos principais articuladores entre o construcionismo de Seymour Papert e a pedagogia da autonomia de Paulo Freire. De um lado, compreendia a programação de computadores como um ato de alfabetização e conscientização, entendendo o computador como um verdadeiro “espelho da mente”. De outro, apoiava-se em Freire para afirmar que o uso de tecnologias na educação não pode ser mecânico nem meramente instrumental. Para ele, cabe ao educador refletir criticamente sobre sua prática, compreender o sentido pedagógico das ferramentas digitais e questionar para que, para quem e em que contexto elas são utilizadas. Nesse entendimento, a tecnologia não é neutra e tampouco um fim em si mesma, mas um meio a serviço da formação crítica e da autonomia dos sujeitos.
Ao retornar ao Brasil nos anos 1980, José Valente foi um dos fundadores do NIED (Núcleo de Informática Aplicada à Educação) na Unicamp. Em um país no qual computadores ainda eram artigos de luxo, liderou a formação de docentes defendendo a “Espiral de Aprendizagem”. Nela, o erro (o “bug”) deixava de ser falha para se tornar motor do conhecimento. Ao depurar um código, o aluno depurava o próprio pensamento.
Também foi o responsável pela tradução do livro “Logo: computadores e educação”, obra de Papert lançada no país em 1985. O título tornou-se a principal referência do construcionismo no Brasil, embora tenha se esgotado rapidamente nas livrarias.
Um legado para além da tecnologia
Em outubro, na 5ª Conferência Brasileira de Aprendizagem Criativa, em Brasília (DF), José Valente debateu a história do construcionismo e o relançamento da obra, agora intitulada “Mindstorms: crianças, computadores e poderosas ideias”. Ao dividir o microfone com Ann, o professor afirmou que a inteligência artificial generativa expande o construcionismo ao permitir um diálogo reflexivo com a máquina. Nesse modelo, o retorno constante amplia repertórios e refina o pensamento, sem a obrigatoriedade da programação.
“O maior desafio não é tecnológico, mas estrutural. Embora as pessoas estejam familiarizadas com tecnologias no dia a dia, a escola ainda funciona com uma lógica antiga, baseada em aulas por hora, certificações por tempo e modelos rígidos de organização”, disse. Para José Valente, essa estrutura impede mudanças profundas e exige uma transformação radical, como a ocorrida no setor bancário. Ele reconheceu que a transição é lenta, mas alertou que “manter o modelo tradicional, centrado em cópia e repetição, tende a se tornar insustentável”.
Essa visão aparece em diferentes publicações do pesquisador. Organizador da coletânea “Tecnologia e Educação: passado, presente e o que está por vir”, José Valente defendia que a inovação é, sobretudo, humana. Para o professor, a escola deve deixar de ser um “esquema de expulsão” para se consolidar como um ambiente de convivência e experimentação.
A Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa divulgou nota de pesar:
“É com profundo pesar que a Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa se despede do Prof. José Armando Valente.
Pesquisador do NIED/UNICAMP, professor, formador de educadores e pioneiro da informática na educação no Brasil, foi referência na construção de pontes entre teoria e prática, tecnologia e educação, sempre em defesa de uma aprendizagem mais humana, significativa e criativa.
Inspirado pelo construcionismo de Seymour Papert, Valente dedicou sua trajetória a promover o aprender fazendo, o protagonismo de quem aprende e o uso da tecnologia como meio para criar, pensar e transformar realidades.
A RBAC agradece e honra a vida do Prof. José Armando Valente e o legado que ele construiu, que permanece vivo nos projetos, nas práticas e na comunidade que ajudou a fortalecer.
À nossa querida Ann, familiares, colegas, alunos e amigos, nossa solidariedade e carinho.
Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa (RBAC)”
Memória
Reveja a participação do professor José Valente em diferentes webinários:

