Crianças uniformizadas escrevem em cadernos durante aula em sala de aula
Crédito: Prefeitura de Itacoatiara/Divulgação

O que ocorre quando a escola deixa de ser apenas um lugar de aulas para se tornar um espaço de vínculos, cultura e pertencimento? Distribuídas pelo Brasil, 738 experiências de educação em tempo integral ajudam a responder a essa pergunta. Elas compõem o novo Mapa de Experiências Inspiradoras, lançado pelo MEC (Ministério da Educação), plataforma digital que mostra como a jornada estendida amplia as oportunidades de aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes. 

O mapa é um banco de dados com sugestões de projetos para escola de tempo integral e um ambiente de intercâmbio, onde as práticas são filtradas por etapa de ensino, modalidade, estado, região e temas transversais, como gestão, currículo, territórios, diversidade e inclusão. Além disso, cada experiência gera um arquivo em PDF para download, desenvolvido para apoiar processos formativos em reuniões pedagógicas e equipes técnicas de secretarias.

Mapa do Brasil com estados coloridos por regiões e pontos brancos representando experiências de educação integral
Mapa mostra como escolas de todo o Brasil constroem vínculos, inclusão e protagonismo com a educação integral. Crédito: Reprodução

Diversidade e respeito ao território

Em Poções, no interior da Bahia, a educação integral estruturou-se como estratégia de proteção social articulada ao território. O projeto “Entre Cantos e Cores: o reisado como patrimônio vivo na formação integral dos estudantes” integra manifestações culturais locais, como o Terno de Reis, à rotina escolar por meio de oficinas de música, atividades coletivas e cortejos. A proposta reconhece a cultura como processo de aprendizado e pertencimento. Ao mesmo tempo, a jornada ampliada atende a demandas das famílias ao assegurar alimentação, infraestrutura e permanência para crianças em situação de vulnerabilidade.

Em São João do Caiuá, no Paraná, a política de tempo integral é caminho para avançar na inclusão de estudantes neurodivergentes. A rede municipal reorganizou o trabalho pedagógico com base no PEI (Plano de Ensino Individualizado), alinhado à formação docente contínua. As escolas oferecem oficinas de neuroeducação, integrando respiração, relaxamento e música ao cotidiano. Um diferencial é a atuação de equipe multidisciplinar, com profissionais da saúde e da educação, além de um Centro de Atendimento Educacional Especializado próprio, o que reduz deslocamentos e fortalece a articulação entre educação integral e inclusiva.

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No município de Itacoatiara, no Amazonas, a educação integral conecta-se diretamente aos desafios ambientais. O projeto “Desvendando o futuro da pesca na Amazônia”, em parceria com a UFAM (Universidade Federal do Amazonas), envolve estudantes em investigações sobre os impactos da seca de 2023 nas comunidades ribeirinhas. A proposta articula biologia, geografia e história em abordagem interdisciplinar que parte de problemas reais para construir conhecimento. Ao assumir a pesquisa, os jovens ampliam a compreensão sobre as mudanças climáticas e veem a escola como local de soluções locais.

A experiência “LibrasCoin: inclusão, empreendedorismo e equidade em ação”, em Guarapuava, no Paraná, promove o protagonismo de estudantes surdos ao integrar metodologias ativas, como o STEAM (acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e a aprendizagem baseada em projetos. Na prática, os alunos criaram uma horta vertical automatizada e um sistema de economia solidária. Por meio da comercialização dos cultivos e da troca de recicláveis por fraldas geriátricas — utilizando a moeda própria LibrasCoin —, os estudantes aplicam conceitos de sustentabilidade e cidadania, tendo a Libras como base para um aprendizado interdisciplinar.

Para o professor Levindo Diniz Carvalho, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e um dos coordenadores do projeto, essas experiências revelam que ampliar o tempo de escola significa habitar o tempo de outras maneiras. “Não se trata apenas de estender horas, mas de criar vínculos, fortalecer autonomias, conectar a escola ao território e articular dimensões da formação humana”, afirma.

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Radiografia nacional da educação integral

As 738 experiências selecionadas estão distribuídas por 25 estados, 15 capitais e 714 municípios, com a seguinte configuração regional:

  • Nordeste: 319 experiências (43,2% do total).
  • Sudeste: 192 experiências (26% do total).
  • Sul: 119 experiências (16,1% do total).
  • Norte: 74 experiências (10% do total).
  • Centro-Oeste: 35 experiências (4,7% do total).

As ações foram escolhidas via edital público e o MEC já anunciou uma nova edição da seleção para 2026. Coordenada pela Secretaria de Educação Básica, a iniciativa busca contribuir para o cumprimento da Meta 6 do PNE (Plano Nacional de Educação), que trata da expansão da oferta de tempo integral no país.

Por que o modelo de escola em tempo integral faz sentido?

A adoção deste modelo justifica-se pela transformação da escola em um espaço que supera o ensino acadêmico tradicional, com foco no desenvolvimento intelectual, físico, social e emocional. Segundo o MEC, ampliar a jornada requer qualificar o período por meio de um projeto político-pedagógico que conecte o currículo aos saberes da comunidade e aos interesses dos alunos.

Para uma transição efetiva, o modelo prioriza a qualidade da permanência com formação de lideranças, materiais pedagógicos e projetos inovadores. A proposta destaca-se ainda pelo caráter intersetorial, unindo educação, saúde, cultura e esporte em uma rede de proteção que previne violências e promove o bem-estar. O processo é acompanhado por avaliação e monitoramento sistêmico, assegurando o aprimoramento da política pública com a participação da sociedade.


Materiais de apoio

Acesse as cartilhas e guias do MEC para fundamentar a implementação da jornada ampliada. Os documentos oferecem diretrizes técnicas e pedagógicas para gestores e educadores:

É diretor e editor do Porvir e faz parte da equipe desde 2014. Nesse tempo, já produziu séries sobre formação de professores e guias multimídia sobre temas como educação socioemocional, tecnologia, participação estudantil e aprendizagem prática....

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....

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