Ao assumir o papel de mediadora de experiências literárias, em vez de limitar a leitura ao cumprimento de avaliações e fichamentos, a escola ganha a oportunidade de contrapor o discurso alarmista sobre a falta de leitores no país. Quando colocam em prática ações capazes de unir o prazer estético ao desenvolvimento crítico, educadores conseguem se adaptar a um formato de mediação que já apresenta resultados práticos: os clubes de leitura.

Esse movimento de adaptação é especialmente importante diante do cenário revelado pela última edição da pesquisa Retratos da leitura, desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro. O levantamento mostrou um Brasil que lê cada vez menos: o percentual de não leitores saltou de 48% em 2019 para 53% em 2024. Pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2007, o número de brasileiros que não leem superou o de leitores.

Estudantes sentados ao redor de mesa leem livros em atividade coletiva
Crédito: Freepik

Apesar desse dado desanimador, há um crescimento silencioso puxado justamente pelas estratégias de compartilhamento. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, houve um aumento de 35% na criação de clubes de leitura nas últimas duas décadas. O dado confirma que a escola, sendo uma das primeiras fontes de contato com a literatura para a maioria dos estudantes, mantém um papel central na reversão das estatísticas por meio de práticas mediadas por educadores.

Como funcionam os clubes de leitura

Érica de Faria, professora de pedagogia do Instituto no Instituto Vera Cruz, em São Paulo (SP), destaca que os clubes funcionam quando se tornam espaços de acolhimento. Neles, estudantes e educadores devem sentir-se à vontade para compartilhar desde suas análises a respeito dos recursos linguísticos até interpretações mais subjetivas ou emocionais. 

Para que um clube tenha sucesso, algumas condições são necessárias:

  • Acervo disponível: acesso de todos os participantes à mesma obra;
  • Participação nas escolhas: envolvimento do grupo na seleção dos títulos para ampliar o engajamento;
  • Ambiente de escuta: garantia de um espaço para trocas reais, evitando falas isoladas.

“Se isso não acontecer no início, pode comprometer a continuidade do grupo”, ressalta a educadora. Embora o entusiasmo inicial seja comum, a sustentabilidade exige um cronograma factível, alinhado à realidade do grupo. 

Érica pondera que a frequência não precisa ser rígida: Pode ser bimestral, por exemplo. O importante é manter a regularidade e o propósito. Mesmo que os professores leiam quatro ou cinco livros por ano, isso já é um grande avanço. O essencial é manter o foco”, destaca Érica. 

O que define um leitor e um não leitor?
Seguindo os critérios utilizados pela pesquisa Retratos da Leitura, pessoas leitoras são aquelas que leram ao menos um livro nos três meses anteriores à entrevista. Quem não leu nenhum volume no período é considerado não leitor.

A mediação como eixo central

Apesar da promessa de muitos benefícios, montar um clube de leitura requer preparação. A figura do mediador é central nesses contextos. “Considerando que não temos, em geral, professores leitores no Brasil, um dos principais desafios é sair do nível das impressões pessoais”, diz Erica. Para ela, memórias afetivas são importantes, mas insuficientes. 

“O mediador precisa ajudar os leitores a observar como o texto funciona, sua arquitetura, a relação entre linguagem, imagem e materialidade do livro, e como isso impacta a experiência”, complementa.

Quando um educador participa de um clube de leitura para professores, dois processos coexistem: ele se forma como leitor e como mediador. Rafaela Deiab, editora na Companhia na Educação, identifica nesse movimento uma “homologia de práticas”: ao vivenciar a metodologia, o professor aprende a replicá-la com os alunos.

A mediação, avalia Rafaela, “é uma arte” e demanda que o educador saia da posição de detentor do conhecimento para uma espaço mais amplo de mediação de interpretações. 

“O desafio é fazer com que os participantes e as leituras dialoguem entre si, ampliando a interpretação sobre a obra em vez de fechá-la em perguntas de certo ou errado”, afirma. 

Habilidades para mediação

Esse processo põe em curso o desenvolvimento de habilidades como o saber perguntar, participar de maneira respeitosa, entender como expor opiniões e acolher opiniões divergências. 

Professores participam de clube de leitura e apontam trecho em livro enquanto colega sorri durante leitura
Crédito: Freepik

“No clube de leitura, a principal função do mediador também é esta:  fomentar a construção coletiva de sentidos. No entanto, o clube pode proporcionar maior autonomia aos estudantes, dependendo da faixa etária. O mediador continua tendo um papel central, mas precisa ser intencional ao escolher não intervir, permitindo que as conversas aconteçam de forma mais livre”, aponta Érica.

Assim, cabe ao mediador decidir o momento da intervenção. Quando o faz, é para destacar algum aspecto da obra, mediar diferentes pontos de vista, lidar com divergências ou, ainda, chamar atenção para elementos importantes do texto.

“Trabalho com formação de professores e venho refletindo muito sobre isso. Defendemos o clube de leitura como uma estratégia formativa potente para professores, pois sabemos que, para formar leitores, é preciso ser leitor”, diz a educadora. 

Clubes do Livro x Clubes de Leitura
Há uma diferenciação conceitual importante entre ambas as nomenclaturas, apesar de ambas serem usadas constantemente como sinônimos. Os clubes do livro geralmente estão associados aos programas de assinatura: o leitor contrata um serviço para receber títulos periodicamente . Esse modelo pode ou não prever leituras em conjunto.

Já os clubes de leitura estão centrados no ato de ler coletivamente, com direito a processos de mediação, facilitação e troca de experiências. Neles, não é obrigatório que os participantes tenham comprado o livro.

Objetivos de um clube de leitura 

Como todo projeto educativo, o clube requer intencionalidade. O que se espera ao criá-lo para estudantes? E quando a gestão planeja um clube somente para o corpo docente?

Cada uma dessas modalidades vai exigir escolhas específicas. Patricia Auerbach, escritora, formadora de professores e idealizadora da Redelê, avalia que, para começar, é preciso focar em três pilares: começar pequeno, ter disciplina e priorizar a atividade. 

“Às vezes se cria um desafio muito grande.  Se começamos pequeno, com textos curtos em alguns minutos de uma reunião pedagógica, o repertório já cresce muito ao longo de um ano”, afirma. 

O que é a Redelê
A Redelê é uma comunidade de aprendizagem voltada à formação docente por meio da troca entre pares. Nos clubes da rede, as obras são lidas de forma síncrona pela facilitadora no início dos encontros online. O modelo dispensa preparo prévio ou acesso físico aos livros, garantindo a participação imediata. Com foco na construção coletiva de saberes, o projeto reúne educadores para atividades de leitura compartilhada e ampliação de repertório literário.

Previsibilidade é importante

A disciplina garante que o leitor se forme pela repetição dos debates, enquanto a priorização impede que outras demandas atropelem o espaço da leitura “Enquanto a leitura não for prioridade, sempre vai ter alguma coisa mais urgente ocupando esse espaço. É preciso entender a importância da leitura para todo o resto”. 

A professora Érica também argumenta que essas atividades promovem o desenvolvimento de diversas aprendizagens literárias e, portanto, a literatura na escola não deve ser tratada apenas como entretenimento. “É preciso planejar esse momento, pois ele envolve ensinar como falar sobre um livro, o que observar e como dialogar sobre ele”, disse. 

Para Rafaela, um clube de leitura para professores carrega consigo aprendizados específicos da metodologia, além de uma ampliação de repertório leitor para aqueles que se tornarão mediadores. 

Já com os estudantes, mais do que a ampliação de repertório e análise das obras, há a possibilidade de desenvolver neles maneiras distintas de apreciação das obras, de maneira que vá além do “gostei ou não gostei”. 

Onde entram as bibliotecas nessa história? 

Ausentes em muitas escolas brasileiras, as bibliotecas são espaços parceiros no fortalecimento da formação leitora e na criação dos clubes de leitura. 

Diferentemente de como acontece na sala de aula, a leitura – mediada ou não – nas bibliotecas possui outros contornos. A editora da Companhia das Letras argumenta que os clubes vinculados às bibliotecas significativamente a vida leitora dos estudantes. 

“O primeiro passo é garantir ao livro,  muitas vezes um ‘alienígena’ nas casas brasileiras. Assim, a gente dessacraliza e torna esse objeto cotidiano e um repositório de conhecimento”, afirma. 

Em outras palavras, ela considera que o ato de ir à biblioteca é como descobrir o mundo: permite folhear, manusear, ler um trecho ou entender se gosta ou não de determinado gênero sem as amarras dos componentes curriculares.

Ela ressalta que os compromissos das bibliotecas são diferentes daqueles da sala de aula. “Na biblioteca, temos um espaço mais focado nas práticas sociais de leitura. É possível fazer empréstimos, dialogar com colegas ou com os bibliotecários, receber indicações, conhecer novos autores e descobrir outros gêneros textuais”.

Clubes temáticos são uma boa opção? 

As especialistas ouvidas pelo Porvir afirmam que a diversidade de gêneros e autorias é enriquecedora e importante. Para Rafaela, um clube de leitura não deve se confundir com um grupo de estudos. 

“O clube de leitura é um espaço de negociação de sentidos de uma obra artística. Em grupos de estudos de não ficção ou obras técnicas, a premissa e o convite à participação do leitor são outros”, explica. 

Patrícia concorda que o foco excessivo em assuntos pode limitar o trabalho. “O risco é reduzir a leitura ao tema, quando a obra também é sobre a forma”, conclui

Materiais de apoio para seu clube de leitura

Redelê: seleção de clubes de leitura para educadores brasileiros.

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Repórter. Entre os principais temas da educação, acompanha de perto assuntos relacionados à educação antirracista, literatura, inclusão e primeira infância.

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