Por que vale a leitura:
- Conheça três tendências que ajudam a entender as mudanças no trabalho, na tecnologia e nos territórios.
- Veja o que essas mudanças exigem da formação dos professores e do planejamento das escolas.
- Entenda por que preparar os estudantes para usar IA exige reflexão e apoio aos educadores.
Linhas de produção cada vez mais automatizadas, agentes de inteligência artificial que realizam transações financeiras de forma autônoma, vídeos sintéticos que desafiam as noções tradicionais de verdade no debate público e óculos inteligentes que introduzem novos riscos à privacidade de quem está ao redor. Queiramos ou não, essas transformações reconfiguram as relações entre as pessoas, as tecnologias e os territórios que habitam.
Para ajudar a compreender esse cenário e seus impactos na educação, a 9ª edição do Estudo Macrotendências 2027–2028: Pessoas, Máquinas e Territórios oferece uma análise que pode interessar a educadores, gestores escolares e pesquisadores. A publicação foi lançada no dia 22, em evento na Casa Firjan, no Rio de Janeiro (RJ).
Realizado pelo Lab de Tendências da Firjan IEL, o mapeamento reúne perspectivas econômicas, tecnológicas, socioambientais e regulatórias. O laboratório pesquisa transformações sociais, tecnológicas e de mercado para apoiar empresas e lideranças na antecipação de cenários e na construção de estratégias.
“O estudo é desenhado para apoiar decisões, acelerar a transformação. Pensar futuros amplia a capacidade de antecipar movimentos críticos, orientar decisões e construir trajetórias mais inovadoras e mais valorosas a longo prazo”, afirma Carol Fernandes, coordenadora do Lab de Tendências.
📱Inscreva-se no canal do Porvir no WhatsApp para receber nossas novidades
Como a educação pode responder às macrotendências
Carol destaca que o avanço da IA exige repensar a educação em múltiplas camadas, desde a educação básica e a capacitação dos jovens até a requalificação continuada de profissionais que veem suas rotinas serem remodeladas. Para evitar que o avanço tecnológico chegue como um “choque”, o estudo defende o letramento de futuros: uma postura antecipatória para que escolas e universidades aprendam a mapear cenários e agir preventivamente.
Na prática, esse exercício pode envolver professores e gestores na identificação de mudanças que afetam a escola, na avaliação de riscos e oportunidades e no planejamento de ações para diferentes cenários futuros.
Conforme descreve o relatório, os próximos anos serão definidos por uma economia na qual autonomia, território e confiança se tornam variáveis estratégicas. Na macrotendência Cognia, a inteligência artificial deixa de ser mera ferramenta e passa a atuar como um agente autônomo, segundo Isabela Petrosillo, especialista em conteúdo e inovação empresarial do Lab de Tendências.

A formação humana e a parceria com o território
Para a educação, essas transformações exigem uma formação que vá além das habilidades técnicas. Isso inclui preparar estudantes e profissionais para trabalhar com sistemas de inteligência artificial, avaliar criticamente seus resultados e compreender as implicações éticas e sociais das decisões tecnológicas.
Isabela chama a atenção para o descompasso entre as demandas do mercado de trabalho e o tempo necessário para atualizar currículos e formar profissionais. Diante desse cenário, empresas têm ampliado sua atuação na formação de trabalhadores, estabelecendo parcerias com escolas, instituições de ensino técnico e universidades.
A especialista ressalta, porém, que a educação não deve se limitar às necessidades imediatas do mercado. Nesse contexto, destaca o papel das universidades e dos centros de pesquisa como espaços de reflexão crítica sobre as transformações tecnológicas, especialmente para discutir os limites éticos da automação e seus impactos na sociedade.
Nesse contexto, Isabela destaca o papel das universidades e dos centros de pesquisa como espaços de reflexão crítica sobre as transformações tecnológicas, especialmente para discutir os limites éticos da automação e seus impactos na sociedade.Desafios para docentes e cognição dos estudantes
Para Carol Fernandes, as instituições de ensino precisam oferecer condições para a formação continuada de professores e equipes técnicas, além de flexibilizar processos burocráticos que dificultam a adoção de novas práticas pedagógicas. Diante de rotinas docentes já intensas, esse apoio é fundamental “para que não fique uma carga também só nesse professor”, ressalta.
As especialistas também alertam para o uso passivo da inteligência artificial pelos estudantes, como a entrega de trabalhos gerados por algoritmos sem leitura ou reflexão. Essas mudanças exigem repensar o papel da escola, da universidade e da formação continuada.
“Os alunos usam essas inteligências artificiais, mas sem o pensamento crítico, o olhar para aquilo ali, às vezes até ler o que a inteligência artificial entregou. Então, como que isso pode impactar também essas gerações de forma cognitiva?”, sugere Carol.
Nesse contexto, o estudo convida alunos e educadores a se reconhecerem como participantes ativos da construção da realidade. A proposta é promover discussões críticas em sala de aula para que a tecnologia contribua para o desenvolvimento cognitivo e a capacidade de discernimento.
“Como posso fazer isso na minha escola ou universidade? Quem preciso reunir para refletir sobre o que está faltando, quais oportunidades temos, o que os alunos desejam e que tipo de educação queremos construir aqui?”, questiona Isabela.
Como é o Estudo de Macrotendências
O estudo foi elaborado com base em pesquisas e debates conduzidos por uma equipe multidisciplinar. Seu objetivo é oferecer análises que possam subsidiar a construção de planejamentos estratégicos. Nesta edição, destacam-se três macrotendências para os próximos anos:
| COGNIA | À medida que sistemas de inteligência artificial ganham mais autonomia, eles passam a influenciar cada vez mais decisões que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Isso levanta discussões sobre quem decide, quem é responsável pelos resultados e como o valor gerado é distribuído. |
| GEOTRAMA | O lugar onde pessoas e empresas estão localizadas passa a ter um peso cada vez maior. Fatores como energia, infraestrutura, recursos naturais e estabilidade política influenciam o que pode ser produzido, vendido e desenvolvido em cada região. |
| OCULARIUM | Vivemos em uma sociedade cada vez mais registrada digitalmente. Fotos, vídeos, dados e conteúdos criados por inteligência artificial tornam mais difícil distinguir o que é verdadeiro, aumentando a importância da confiança, da privacidade e do consentimento. |
Nesta edição, o estudo identifica dez sinais de mudança emergentes, que revelam transformações em curso e servem de base para a análise das três macrotendências projetadas para os próximos anos.
| PRODUTIVIDADE EM DISPUTA | Ganhos tecnológicos passam a integrar debates sobre salários, jornadas de trabalho, tributação e distribuição de valor. |
| AUTOMAÇÃO NEGOCIADA | Trabalhadores reivindicam participação nas decisões sobre a adoção de robôs e sistemas autônomos. |
| EXPANSÃO ESPECULATIVA | Empresas e investidores pressionam para que os gastos com IA se revertam em produtividade, receita e retorno financeiro. |
| GEOPOLÍTICA EM FRICÇÃO | Conflitos, tensões comerciais e mudanças nas alianças entre países ampliam as incertezas e afetam investimentos e cadeias produtivas. |
| VOLATILIDADE DE RECURSOS | Choques geopolíticos e climáticos intensificam oscilações nos preços e na disponibilidade de energia, alimentos e matérias-primas. |
| CAPACIDADES INTERCONECTADAS | A expansão de sistemas e infraestruturas interconectadas cria oportunidades e desafios para a continuidade das operações. |
| ALIANÇAS EM RECOMPOSIÇÃO | Países reorganizam suas alianças em função de interesses específicos relacionados ao comércio, à tecnologia, à defesa e aos recursos estratégicos. |
| VERTIGEM TECNOLÓGICA | O avanço acelerado da inteligência artificial amplia a insegurança diante de seus limites, riscos e consequências, ainda difíceis de antecipar. |
| REALIDADE SINTÉTICA | A proliferação de conteúdos sintéticos desafia a distinção entre o real e o artificial, ampliando dúvidas sobre autenticidade e credibilidade. |
| RISCO CLIMÁTICO REPRECIFICADO | Eventos extremos alteram a precificação de seguros e crédito, além de influenciar a localização de ativos e as decisões de investimento. |
A IA passa de ferramenta a ator econômico
A primeira macrotendência, Cognia, mostra como sistemas inteligentes passam a realizar negócios, efetuar pagamentos e gerenciar equipes, com impactos sobre a produtividade, os empregos e os custos empresariais. Nesse cenário, a inteligência artificial ganha autonomia para negociar e fazer compras.
Entre os exemplos apresentados no capítulo estão transações financeiras iniciadas e concluídas por agentes de IA. As operações utilizaram identificadores digitais próprios para autenticar autorizações prévias dos clientes.
Outro caso é o da Uber, onde o crescimento acelerado do uso de inteligência artificial levou a empresa a rever a gestão dos custos tecnológicos. Mesmo com o aumento expressivo das solicitações feitas a agentes de IA, a companhia conseguiu estabilizar os gastos com essas tecnologias a partir de abril de 2026.
“Uma das questões que exploramos no estudo é como as empresas podem se organizar diante de tecnologias que passam a assumir novas responsabilidades. Esse movimento abre espaço para refletir sobre a colaboração entre pessoas e sistemas, a distribuição de tarefas e os critérios pelos quais avaliamos resultados”, explica Isabela.
O estudo aponta que a transformação também exige formação e preparo das lideranças: “Como formamos pessoas para distribuir trabalho entre humanos e agentes?”. Como exemplo, o relatório destaca o Camp AIR, programa de capacitação em inteligência artificial da Microsoft que já alcançou mais de 3 mil engenheiros. Em outra frente, a empresa implementou mais de 111 agentes em processos de sua cadeia de suprimentos, com redução de até 75% no tempo de execução de determinados fluxos de trabalho.
O território redefine as possibilidades dos negócios
A localização geográfica e as condições de cada ambiente tornam-se mais determinantes para a competitividade e a viabilidade dos negócios. Disponibilidade de água, acesso à energia, infraestrutura digital, redes de logística e exposição a riscos climáticos estão entre os fatores analisados em Geotrama, segundo capítulo do estudo.
Um dos casos apresentados é o da seguradora italiana Vittoria Assicurazioni, que participou do desenvolvimento de uma solução experimental que combina dados do programa europeu Copernicus com inteligência artificial. A ferramenta avalia riscos de enchentes em instalações empresariais e considera projeções climáticas até 2050.
No Brasil, essa tendência se manifesta nas agendas de transição energética, gestão de riscos no agronegócio e avanços regulatórios relacionados a minerais críticos e data centers. Segundo o estudo, o movimento apresenta diferentes estágios de maturidade entre os setores industriais.
“Este cenário propõe uma reflexão sobre a importância dos territórios nas transformações que estamos acompanhando. A ideia é observar como diferentes realidades se conectam com as mudanças em curso e ampliar as perspectivas sobre novas possibilidades de ação”, explica Carol Fernandes, coordenadora do Lab de Tendências.
Entre as habilidades estratégicas para os próximos anos, o relatório destaca a leitura de dados ambientais e regulatórios, a simulação de cenários e a previsão de impactos que considerem as particularidades locais. Também aponta a capacidade de reorganizar a produção diante de eventos climáticos ou da escassez de recursos e de articular parcerias para solucionar gargalos regionais.
Autenticidade e privacidade na construção da confiança digital
O capítulo Ocularium analisa como deepfakes (tecnologia que usa inteligência artificial para criar vídeos, áudios ou imagens falsos que parecem reais), clones de voz, registros em tempo real e sensores inteligentes tornam o consentimento e o “direito à invisibilidade” questões estratégicas para as empresas. Comprovar a procedência de um registro digital e controlar o que pode ser visto, coletado ou omitido pelas máquinas passa a ter implicações econômicas.
O relatório detalha duas transformações na gestão da imagem e das informações corporativas:
- A autonomia da identidade: representações digitais, como clones de voz, imagem e movimentos, podem circular, interagir e produzir efeitos no mercado de forma independente e contínua.
- O direito à invisibilidade: a proliferação de câmeras, sensores e dispositivos vestíveis torna a proteção contra capturas não autorizadas uma condição de segurança física e industrial.
Um dos exemplos apresentados é o Human Consent Registry, plataforma pública lançada pela Human Consent Foundation no Parlamento Europeu. O sistema permite aos cidadãos registrar, em formato consultável por IA, a autorização, a limitação ou a proibição do uso de seu nome, imagem e voz para treinamento e geração de conteúdo.
No Brasil, o estudo relaciona o avanço desse debate ao aumento das fraudes digitais, às decisões da justiça sobre a validade de provas em vídeo e às regras eleitorais sobre o uso de IA e deepfakes em campanhas eleitorais. A adoção de tecnologias de certificação e de governança perceptiva, porém, ainda está em estágio inicial.
Nesse cenário, o relatório aponta a necessidade de transformar experiências em aprendizagem, preservando a segurança e a propriedade intelectual. Entre as competências a desenvolver estão registrar e organizar conhecimentos, incorporar práticas de proteção de dados às rotinas de trabalho e verificar a origem, a autoria e possíveis manipulações em arquivos e mídias digitais. Também é necessário definir regras de sigilo, compartilhamento e reúso de dados.
O estudo foi apresentado durante a 9ª edição do Festival Futuros Possíveis, realizado pela Casa Firjan. Com o tema central “A Era IAxial: O mundo sob um novo eixo”, o evento reuniu líderes empresariais, especialistas, pesquisadores, educadores e artistas para discutir como a Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passou a reconfigurar as bases da sociedade, da economia e do trabalho.
* O Porvir viajou ao Rio de Janeiro para acompanhar o evento a convite da Casa Firjan.

