Até 19 de julho, a Copa do Mundo segue em campo e também pode entrar na sala de aula como ponto de partida para novas aprendizagens. Recentemente, o Porvir publicou uma seleção de pensadores da educação, o que me inspirou a montar uma nova escalação. Desta vez, resolvi aproveitar o clima e encarar a difícil tarefa de montar uma seleção brasileira com alguns dos nomes mais relevantes para a educação das relações étnico-raciais no Brasil.
Não se trata de reduzir uma pauta profunda, urgente e necessária a uma brincadeira. A ideia é adotar a linguagem do futebol para apresentar autoras, autores, intelectuais e militantes que constroem a educação antirracista, seja pela produção acadêmica, pela atuação política, pela crítica ao currículo e a formatos tradicionais de educação ou pela defesa de outras formas de conhecimento.
Como toda lista, esta seleção também tem ausências significativas. Muitos nomes profundamente relevantes poderiam estar aqui, como: Beatriz Nascimento, com sua contribuição indispensável sobre quilombos, corpo, território e memória negra; Cida Bento, com sua formulação sobre o pacto da branquitude; Ailton Krenak, com sua crítica radical ao colonialismo, ao desenvolvimento e à separação entre humanidade e natureza; além de muitas outras pesquisadoras, educadoras, lideranças negras e indígenas que seguem ampliando esse campo.

Longe de encerrar o debate, esta escalação pretende “abrir o meio campo” e organizar caminhos de leitura, estudo e formação docente para que a educação antirracista entre em marque um “golaço” em sala de aula.
Essa curadoria é um convite para que os leitores conheçam esses nomes, mas o mais importante é que leiam e debatam as ideias e conceitos trazidos por esses autores dentro do espaço escolar. O repertório de um educador compromissado com a causa antirracista não se constrói apenas com boas intenções, é preciso estudo, escuta e repensar o currículo e as práticas pedagógicas.
Confira a escalação:

Para “comandar” esse time, nada mais justo que colocar a professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, uma das principais referências brasileiras na institucionalização da educação das relações étnico-raciais. Sua liderança foi decisiva na elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, o parecer técnico e o documento fundamental para a implementação da Lei 10.639/2003, e norteador do tema até o momento.
Suas ideias são relevantes porque ajudam a compreender que a educação antirracista não é um projeto individual de professoras e professores isolados, mas uma responsabilidade curricular, institucional e política das escolas. Sua produção e atuação, sempre foram pautadas na ideia de que o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana é parte da construção de uma educação democrática.
Leitura indicada: Educação das relações étnico-raciais nas instituições escolares.
Download gratuito aqui

Goleira: Eliane Cavalleiro
Eliane Cavalleiro é pesquisadora e professora, referência nos estudos sobre racismo na infância e nas relações escolares. Sua obra tornou visível como o racismo aparece desde os primeiros anos da escolarização, muitas vezes por meio do silêncio, da omissão dos adultos, da ausência de acolhimento e da naturalização de desigualdades entre crianças negras e brancas.
Sua contribuição é essencial para a educação antirracista porque mostra que a escola não combate o racismo apenas quando pune uma agressão explícita. Ela também precisa observar suas rotinas, suas interações, seus silêncios, seus afetos e suas expectativas sobre as crianças, dessa forma, evitando reproduzir formas de racismo institucional.
Leitura indicada: Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil (Editora Contexto, 142 páginas)

Lateral direito: Ana Célia da Silva
Ana Célia da Silva é intelectual, pesquisadora e militante do movimento negro, com contribuição para a análise das representações da população negra nos livros didáticos. Sua produção foi importante para a revisão de produção de materiais didáticos que norteiam, por exemplo, o Programa Nacional do Livro Didático. Seu estudo analisou como materiais escolares podem reproduzir estereótipos, apagamentos, imagens inferiorizantes e narrativas que colocam pessoas negras em posições de subalternidade.
Dessa forma, suas ideias são relevantes porque nos ajudam a perceber que o currículo que vai além dos documentos oficiais. Ele também aparece nas imagens, nos exemplos, nas histórias escolhidas, nos personagens valorizados e nas ausências presentes nos materiais usados em sala de aula.
Leitura indicada: A discriminação do negro no livro didático (Edufba, 117 páginas)

Zagueiro: Kabengele Munanga
Nascido na República do Congo, em 1942, Kabengele Munanga se naturalizou brasileiro em 1985. É antropólogo, professor e uma das maiores referências no Brasil nos estudos sobre raça, racismo, identidade negra, negritude e relações raciais. Sua produção oferece bases conceituais fundamentais para compreender o racismo como fenômeno histórico, político, social e estrutural.
Sua relevância para a educação antirracista está na capacidade de nomear conceitos que muitas vezes aparecem de forma confusa no debate público. Munanga ajuda educadores a diferenciarem raça, racismo, preconceito, discriminação e olhar para o fenômeno racial brasileiro de uma forma muito particular, devido a suas raízes africanas e imigrantes.
Leitura indicada: Superando o racismo na escola. (Ministério da Educação, 206 páginas) Download gratuito aqui.

Zagueiro: Daniel Munduruku
Daniel Munduruku é escritor, professor, intelectual indígena e uma das principais vozes na valorização das culturas, histórias e saberes dos povos originários no Brasil. Sua obra literária e ensaística contribui para romper com visões estereotipadas sobre os povos indígenas, frequentemente tratados pela escola como personagens do passado ou como figuras genéricas e estereotipadas. Destaque especial para sua produção de livro para as infâncias, que, a partir de uma escrita envolvente e simples, aproxima pequenos leitores dos saberes das comunidades indígenas.
Neste sentido, suas ideias são relevantes para a educação antirracista porque ampliam o debate para além da questão negra, lembrando que a educação das relações étnico-raciais também precisa enfrentar o colonialismo, o apagamento dos povos originários e a folclorização das culturas indígenas.
Leitura indicada: Crônicas indígenas para rir e refletir na escola. (Editora Moderna, 108 páginas)

Meio-campo: Sueli Carneiro
Sueli Carneiro é filósofa, escritora, ativista e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Sua obra é uma das mais importantes do pensamento brasileiro contemporâneo, especialmente por articular racismo, sexismo, epistemicídio e produção de poder.
Sua contribuição para a educação antirracista merece ser destacada porque mostra como as instituições podem produzir exclusão não apenas pelo acesso, mas também pela deslegitimação dos saberes negros. Sueli nos ajuda a pensar a escola e a universidade como espaços que precisam enfrentar o epistemicídio e reconhecer outras formas de produção intelectual.
Leitura indicada: Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser (Editora Zahar, 432 páginas)

Lateral: Nego Bispo
Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo, foi pensador quilombola, escritor, lavrador, poeta e mestre de saberes tradicionais. Sua produção apresenta uma crítica profunda à colonização, à lógica da propriedade, ao desenvolvimento, à separação entre humanidade e natureza e às formas hegemônicas de conhecimento.
Suas ideias são fundamentais para a educação antirracista porque deslocam o debate da simples inclusão de conteúdos para uma pergunta mais profunda: que tipo de mundo a escola ajuda a reproduzir? Com conceitos como contracolonização, confluência e biointeração, Nego Bispo nos convida a pensar uma educação enraizada em comunidade, território, ancestralidade e modos de vida.
Leitura indicada: A terra dá, a terra quer (Ubu Editora, 112 páginas)

Meio-campo: Nilma Lino Gomes
Nilma Lino Gomes é antropóloga, pesquisadora, intelectual negra e uma das principais referências da educação antirracista no Brasil. Entre 2015 e 2016, no governo Dilma Rousseff, liderou a SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e, posteriormente, o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e foi a primeira mulher negra a dirigir uma universidade pública federal. Sua produção articula movimento negro, currículo, formação docente, identidade, corpo, cabelo e políticas públicas educacionais.
Sua obra é indispensável porque afirma o movimento negro como sujeito educador. Ou seja, o movimento negro não apenas reivindica direitos, mas também produz saberes, pedagogias, práticas, conceitos e formas de interpretar o Brasil. Nilma ajuda a compreender que a ERER (Educação para as Relações Étnico-Raciais) nasce de uma longa luta social e não apenas de uma decisão institucional.
Leitura indicada: O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação (Editora Vozes, 160 páginas)

Meio-campo: Lélia Gonzalez
Lélia Gonzalez foi intelectual, professora, antropóloga, filósofa e um dos principais nomes do movimento negro e feminista brasileiro do século 20. Sua obra é central para pensar raça, gênero, classe, linguagem, colonialidade e América Latina. Conceitos como amefricanidade e pretuguês seguem fundamentais para compreender a experiência negra diaspórica no Brasil e nas Américas.
Sua contribuição para a educação antirracista está na crítica às formas coloniais de conhecimento e linguagem. Lélia nos ensina que o currículo também precisa ser disputado naquilo que ele valoriza, como cultura, língua, inteligência, memória e pensamento.
Leitura indicada: Por um feminismo afro-latino-americano (Editora Zahar, 376 páginas)

Ataque: Bárbara Carine
Bárbara Carine é professora, pesquisadora, escritora, intelectual negra e fundadora da Escola Afro-Brasileira Maria Felipa. Sua produção articula ciência, educação, infância, currículo, antirracismo e práticas pedagógicas, com linguagem acessível e forte presença no debate público contemporâneo.
Suas ideias são relevantes porque ajudam a transformar a educação antirracista em prática cotidiana. Bárbara Carine discute desde a estrutura escolar até os conteúdos ensinados, mostrando que não basta falar sobre diversidade: é preciso reorganizar currículo, gestão, formação docente, estética, referências e experiências de aprendizagem.
Leitura indicada: Como ser um educador antirracista (Editora Planeta, 160 páginas)

Ataque: Abdias Nascimento
Abdias Nascimento foi intelectual, artista, dramaturgo, político, escritor e uma das maiores lideranças negras do século 20 no Brasil. Fundador do Teatro Experimental do Negro, sua trajetória articula arte, educação, política, cultura, pan-africanismo e luta contra o racismo.
Sua contribuição para a educação antirracista está na defesa do protagonismo negro e na formulação do conceito de “quilombismo” como projeto político, cultural e civilizatório. Abdias nos ajuda a compreender que educar contra o racismo é também reconstruir a memória, valorizar a herança africana e os movimentos de solidariedade afrodiaspóricos na busca por sobrevivência e cidadania da população negra.
Leitura indicada: O quilombismo: documentos de uma militância Pan-Africanista (Editora Perspectiva, 392 páginas)

11. Ataque: Eliane Potiguara
Eliane Potiguara é escritora, professora, poeta, ativista e uma das principais intelectuais indígenas do Brasil. Sua obra articula memória, ancestralidade, território, espiritualidade, violência colonial, direitos indígenas e luta das mulheres indígenas.
Sua presença nesta seleção é fundamental porque amplia a educação antirracista para uma perspectiva também indígena, decolonial e territorial. Eliane Potiguara nos lembra que não há educação democrática sem enfrentamento ao apagamento dos povos originários, às violências coloniais e à negação de suas línguas, histórias e epistemologias.
Leitura indicada: Metade cara, metade máscara (Editora Global, 144 páginas)

