O que define uma escola de qualidade para você? Para 20 mil entrevistados de todo o país, com 16 anos ou mais, a resposta está diretamente ligada à aprendizagem e ao trabalho dos professores. Reconhecidos como fundamentais para a qualidade da educação, os docentes também aparecem no centro da principal demanda da população: a melhoria dos salários e das condições de trabalho nos próximos anos.

Os dados fazem parte da pesquisa “O que a população pensa sobre a Educação 2026”, lançada nesta quinta-feira (3). Conduzida pelo Instituto IDEIA a pedido de Todos Pela Educação, Fundação Lemann, Fundação Itaú, Instituto Natura, Instituto Sonho Grande e Instituto Unibanco, o levantamento foi realizado entre 20 de maio e 20 de julho de 2026, abrangendo todos os estados brasileiros e no Distrito Federal.

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A proposta é investigar como a sociedade avalia a educação pública e quais agendas educacionais considera prioritárias, especialmente neste ano eleitoral. Para 83% dos respondentes, a educação deve figurar entre os três principais focos dos governantes no próximo mandato. Além disso, 71% afirmam que a atuação do governo na educação influencia sua decisão de voto.

A pesquisa mostra que os brasileiros associam o aprendizado à mobilidade social: 61% concordam totalmente que a educação é um fator importante para mudar de vida, e 59% observam que, para o desenvolvimento do país, é preciso melhorar a qualidade da educação pública.

O reconhecimento do papel dos professores reflete uma visão mais ampla do setor. A sociedade identifica disparidades regionais no ensino público, elege a valorização docente como prioridade, cobra avanços em alfabetização e educação profissional e tecnológica e manifesta percepções distintas sobre a educação integral, influenciadas pelo conhecimento sobre a política e pelas condições socioeconômicas das famílias. 

Professora compartilha anotações com estudantes reunidos em sala de aula
Professora do colégio Galois, Roberta Paim, fala com alunos sobre dicas de redação para o Enem (Arquivo 2024) Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Professores no centro da qualidade da educação

A melhoria salarial e das condições de trabalho dos professores foi apontada por 53% dos entrevistados como prioridade para os próximos anos. O aprimoramento da formação dos professores também aparece entre as agendas mais citadas, com 37%.

“A agenda docente está assumindo um lugar muito central na percepção da população sobre o que é essa qualidade da educação”, afirmou o coordenador de políticas educacionais do Todos Pela Educação, Pedro Rodrigues.

O papel fundamental dos professores sobressai quando a população define, espontaneamente, o que é uma escola de qualidade. A resposta mais citada foi “ensino de qualidade”, com 17,8%, seguida por “professores e profissionais qualificados, preparados e comprometidos”, com 13,1%.

“A população brasileira já reconhece o que pesquisas, evidências nacionais e internacionais mostram: que o professor, a profissão docente, é a principal alavanca para aprendizagem, sobretudo num país com tantas desigualdades como o nosso”, explica Patrícia Guedes, superintendente do Itaú Social.

Ela acrescenta que investimento deve ir além da remuneração: “Quando os brasileiros falam que é preciso investir não só em salário e condições, mas em formação, entra a formação inicial e continuada.”

Ao mesmo tempo em que reconhecem a importância dos professores, os brasileiros apontam uma distância entre o papel atribuído à categoria e o reconhecimento recebido por esses profissionais. Mais da metade dos participantes discordam que os professores sejam valorizados pela sociedade.

Estudantes jogam futebol e acompanham a partida no pátio da escola
Alunos jogam futebol durante intervalo no Ginásio Experimental Olímpico Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Educação integral reúne aprendizagem, proteção e cuidado

A opinião sobre as escolas em tempo integral varia conforme o conhecimento que a população tem sobre a política. Entre os entrevistados que já ouviram falar do modelo, 52% matriculariam ou já têm filhos matriculados em escolas em tempo integral. Entre aqueles que desconhecem a política, esse percentual cai para 33%.

O acesso à informação influencia a aceitação das famílias. Entre aqueles que conhecem a política, 59% das pessoas da classe C e 58% das classes D/E afirmam que matriculariam ou já possuem filhos em escolas de tempo integral, contra 37% nas classes A/B.

Os benefícios percebidos vão além da simples ampliação da jornada escolar. A população relaciona o tempo maior na escola à preparação para o ensino superior (57%) e ao ingresso no mercado de trabalho (55%). Além disso, 54% consideram que o ensino integral contribui para que os responsáveis trabalhem com mais tranquilidade.

“Quando a gente fala de escola em tempo integral, a gente está falando de escolas que são não só mais tempo, mas o que é feito com esse tempo é o que importa. Para que a escola seja verdadeiramente integral, esteja formando estudantes integralmente, tem a ver com como esse tempo é entregue”, pontua Lia Rolnik, diretora de operações do Instituto Sonho Grande.

A qualidade da educação integral depende de uma proposta pedagógica que acompanhe o desenvolvimento dos estudantes em diferentes dimensões, complementa Lia. “É preciso ter professores que possam estar em tempo integral nessa escola, que sejam muito bem formados para fazer um acompanhamento próximo e construir um trabalho focado no projeto de vida de cada estudante.” 

Na mesma direção, Caio Valengo, do Instituto Natura, destaca que a discussão sobre educação integral precisa considerar a relação entre tempo, currículo e experiências oferecidas aos estudantes.

“A gente fala sempre de educação integral e tempo integral. O tempo importa, os princípios são importantes, mas esses princípios não costumam caber em cinco horas de aula diária”, reforça. 

Para Caio, é notavel a disparidade na intenção de matrícula conforme o nível de informação dos responsáveis. “Quando olhamos para quem não conhece a escola de tempo integral, 33% fala: ‘Eu colocaria meu filho nessa escola’. Agora, quem conhece, esse número sai de 33% para 52%”, exemplifica.

Assim, o estudo revela que a sociedade compreende a educação integral de forma ampla: uma oportunidade que une desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos estudantes ao suporte prático para as famílias, garantindo segurança para a conciliação da rotina profissional dos pais.

Diferenças na educação pública

Outro achado relevante do estudo é que os brasileiros não enxergam a educação pública de forma homogênea. A avaliação das escolas varia entre os estados, indicando que a população identifica diferenças na oferta educacional.

Na avaliação da qualidade das escolas públicas do próprio estado, 59% dos entrevistados no Ceará classificam a rede como “ótima” ou “boa”, enquanto esse percentual cai para 31% no Rio de Janeiro.

A percepção sobre o a evolução recente também divide opiniões. No cenário nacional, 49% dizem que a qualidade das escolas estaduais melhorou nos últimos quatro anos. O Nordeste registra a opinião mais positiva, com 56%, enquanto o Sudeste registra 43%.

“Durante muito tempo a gente acreditou que qualidade da educação pública estava ligada à infraestrutura, à escola que tem a melhor piscina, a melhor quadra. E o que a gente percebe é que a população, de alguma forma, está conseguindo avaliar qualidade de educação enquanto aprendizagem mesmo”, reforça Pedro, do Todos Pela Educação.

Alfabetização e ensino técnico no radar

Além da alfabetização, o fortalecimento da educação profissional e tecnológica aparece como uma das agendas mais valorizadas pela população. Ampliar os cursos técnicos para jovens do ensino médio foi citado por 48% dos respondentes como meta urgente, e 80% concordam que essa oferta deveria ser ampliada.

Ao mesmo tempo, a pesquisa indica que a população identifica desafios na formação atual: apenas 25% consideram que a escola pública prepara os jovens adequadamente para o mercado de trabalho, indicando que a expansão precisa vir acompanhada por ganhos de qualidade.

“Essa percepção da população geral está muito em sintonia com o que os jovens estão pedindo. Há também uma sintonia com o que as evidências mostram em termos do quanto o ensino técnico amplia oportunidades”, diz Patrícia. “Ele amplia oportunidades de inclusão produtiva, amplia oportunidades de aprendizagem e também, agora a gente já tem mais dados mostrando, amplia inclusive a probabilidade de continuidade dos estudos.”

Segundo ela, a expansão da educação profissional exige planejamento curricular, professores preparados e conexão com as necessidades dos estudantes e dos territórios. “O que importa é que currículo é esse, que cursos são esses. Esses professores que estão ensinando esses cursos técnicos têm esse conhecimento técnico relevante à escolha desses cursos? O que mobiliza é realmente o potencial de inclusão produtiva, do que o setor produtivo está necessitando, dessas novas economias que estão surgindo, do que o território precisa.”

Para Patrícia, a educação profissional não deve ser vista apenas como uma estratégia para reduzir a evasão no ensino médio. Ela precisa fazer parte de uma trajetória mais ampla de formação dos jovens.


Os problemas da matemática

A pesquisa mostra que, embora 82% dos entrevistados considerem a matemática importante para a vida cotidiana, 43% avaliam que os alunos concluem a educação básica sem o domínio adequado da disciplina, o que evidencia um hiato entre a importância reconhecida e a aprendizagem real.O diagnóstico coincide com indicadores oficiais.

Em reportagem no Estadão, a jornalista Renata Cafardo destaca levantamento do Todos Pela Educação que mostra que apenas 8,5% dos estudantes concluem o ensino médio com aprendizagem adequada em matemática. O percentual teve evolução modesta nas últimas duas décadas: passou de 5,2% em 2005 para 8,5% em 2025. Em língua portuguesa, o índice atinge 35,2%.


Inclusão e participação das famílias

A pesquisa mostra que o entendimento sobre qualidade da educação não está restrito à estrutura das escolas ou às políticas de gestão. Para a população, ela também envolve garantir aprendizagem, equidade e condições para que diferentes estudantes permaneçam e avancem na escola.

Cerca de 42% acreditam que a maioria dos alunos das escolas públicas não aprende o esperado para sua idade-série.

A preocupação se estende à inclusão social: 54% discordam que as escolas estejam preparadas para garantir a permanência e a aprendizagem de crianças com deficiência ou neurodivergentes. Além disso, 40% discordam que crianças negras e brancas tenham as mesmas oportunidades de aprendizagem no Brasil.

Para Cila Schulman, diretora-presidente do Instituto IDEIA, os dados reforçam a importância de colocar a educação no centro da agenda pública, especialmente em um ano eleitoral. “A educação aparece como uma demanda central da população, mas ainda precisa ganhar mais espaço nos debates e nas propostas apresentadas aos eleitores. Esperamos que essa pesquisa ajude a colocar esse tema no centro da discussão pública”, finaliza. 

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Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....