A experiência do Ceará no desenvolvimento de competências digitais de professores - PORVIR
Crédito: FG Trade/iStock

Inovações em Educação

A experiência do Ceará no desenvolvimento de competências digitais de professores

Neste artigo, professoras e pesquisadoras da rede pública cearense de ensino compartilham práticas e iniciativas voltadas às habilidades digitais dos docentes no estado

por Vagna Brito de Lima / Jacqueline Rodrigues Moraes / Karine Pinheiro de Souza ilustração relógio 26 de janeiro de 2022

A demanda que se assenta à profissão docente para qualificar o uso das tecnologias digitais na inovação educacional, sobretudo nas práticas didático-pedagógicas, está posta desde o final do século 20. Tal necessidade tem como intuito contribuir com a formação integral das crianças, dos jovens, dos adolescentes e dos adultos, com vistas ao desenvolvimento de competências necessárias para atuarem em um mundo cada vez mais digitalizado.

Neste texto, abordaremos o desenvolvimento de competências digitais na prática dos professores das redes públicas estadual e municipais de ensino do estado do Ceará, por meio da formação continuada realizada pela Coded (Coordenadoria Estadual de Formação Docente e Educação a Distância) da Seduc-CE (Secretaria da Educação do Estado do Ceará), localizada no CED (Centro de Educação a Distância).

⬇️  Baixe o e-book: Itinerário formativo: competências digitais para a docência

Como pesquisadoras do campo da educação, professoras da rede pública estadual de ensino do estado do Ceará e com atuação na formação continuada de professores, falaremos sobre a importância do compartilhamento das experiências mobilizadas pelos docentes da educação básica no exercício da ação-reflexão-ação sobre as práticas didático-pedagógicas como dimensão basilar para a concepção do educador como pesquisador da sua prática.

Tomamos como referência as contribuições sistematizadas em notas técnicas do CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira), Competências de Professores e Multiplicadores para Uso de TICs na Educação, além de recomendarmos a Autoavaliação de Competências Digitais de Professores para as redes estadual e municipais de ensino.

Nesse sentido, foi proposto o Programa de Formação Continuada de Professores: Itinerários Formativos, realizado, inicialmente, como piloto, no ano de 2018, para os professores da rede pública estadual de ensino do Ceará lotados nas componentes curriculares de Língua Portuguesa e Matemática das escolas prioritárias e, por adesão, para os professores em efetivo exercício nos ambientes de apoio pedagógico como Laboratórios Educacionais de Informática e Laboratórios Educacionais de Ciências. Em 2019 e 2020, o programa foi expandido para professores dos demais componentes curriculares.

Os resultados da pesquisa Os saberes docentes no ensino remoto emergencial: experiências no estado do Ceará também embasaram a implantação da referida formação, que apresentou um diagnóstico por meio de questionário on-line, no período de 01 a 31 de julho de 2020, com professores em efetiva regência de sala de aula, resultando no total de 3.623 respondentes, cerca de 30,2% dos docentes da rede. A partir deste diagnóstico, foi possível identificarmos a necessidade de melhoria nas condições de internet, o que demandou uma aquisição de recursos tecnológicos para atender o ensino remoto. O desenvolvimento de competências digitais foi outro indicativo dos respondentes, de modo que 97.6% demonstraram ter interesse em aprofundar o conhecimento sobre o uso dos recursos tecnológicos.

Itinerário Formativo

Em 2021, a formação foi dedicada ao Itinerário Formativo: Competências Digitais para a Docência, com vistas ao desenvolvimento das competências docentes necessárias nessa atuação, a partir de um contexto intensamente digitalizado, sobretudo, devido à pandemia da Covid-19. Essa ação formativa também compõe o Programa de Formação Continuada de Professores: Itinerários Formativos.

A ação contou com a mediação e o acompanhamento de tutores das regionais, que apoiam esse processo de crescimento profissional docente, desde os aspectos técnicos-funcionais como na orientação das atividades no AVACED (Ambiente Virtual de Aprendizagem da Coded/CED), além de contribuírem com os memoriais e os artigos científicos voltados para publicações em e-books e na Revista DoCEntes.

Em sua primeira oferta, o Itinerário contou com pouco mais de 6 mil professores inscritos, distribuídos nas 23 regionais de desenvolvimento da educação. Na segunda oferta, o total de inscritos foi de 13.397, sendo 11.236 referente aos professores lotados nas redes municipais, 2.072 em exercício na rede estadual e 89 AGIs (Agentes de Gestão da Inovação Educacional, mais detalhes abaixo). Vale ressaltar que a oferta de 2021 foi mobilizada por meio da Secretaria de Cooperação com os Municípios, que disponibilizou o apoio de tutores para mediação e acompanhamento dos 6.623 professores que finalizaram o respectivo itinerário formativo.

O Itinerário Formativo teve o intuito de aprimorar as práticas didáticas e metodológicas, além de estimular a reflexão dos professores sobre a docência. A atividade buscou, ainda, atender as mudanças no processo de ensino-aprendizagem, o qual demanda novas competências e requer, por parte dos docentes, aprimoramento nos conhecimentos e usos das TDIC (Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação), de forma consciente, crítica e reflexiva.

Portanto, o curso justifica-se pela premência de formar professores de modo que possam desenvolver competências e habilidades que contribuam para a formação integral dos estudantes, ou seja, conceber aprendizes ativos, pesquisadores, co-empreendedores e corresponsáveis pelas questões contemporâneas, acima de tudo, no que diz respeito ao uso das tecnologias digitais para o exercício da cidadania.

(Ouça, abaixo, nosso podcast em parceria com o CIEB)

Metodologia

O curso foi organizado em três níveis. O nível 1 buscou instigar nos professores a reflexão de questões relacionadas às mudanças sociais e educacionais e, com isso, perceber o desafio  do desenvolvimento das competências necessárias para o exercício da docência.

O nível 2 apresentou as novas interfaces e estratégias de acompanhamento, avaliação da aprendizagem e avaliação digital. Disponibilizou materiais e propostas para subsidiar o planejamento de atividades com o uso de tecnologias digitais, tutoriais de apoio, elaborados pelos professores da rede de ensino estadual, além de indicações de leituras sobre a temática.

No nível 3, assim como nos outros, também houve indicações de leituras, vídeos e materiais complementares com temáticas que podem auxiliar na reflexão da prática pedagógica, tanto nos aspectos relacionados ao uso responsável, seguro e crítico das TDICs, como no sentido de discutir propostas pedagógicas na docência, as quais venham a promover o engajamento dos estudantes para o trabalho em grupo, com atividades interativas e cooperativas, visando o desenvolvimento de projetos de intervenção na comunidade.


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Impactos

Na perspectiva de analisar os impactos, estão os resultados da autoavaliação das competências digitais realizadas por meio do Guia Edutec, nos quais 9.787 professores da rede estadual do Ceará realizaram sua autoavaliação. Isso implica que o Ceará é o estado com maior número de respondentes nessa categoria e o segundo, entre as redes municipais, com 5.778 professores respondentes.

O Guia Edutec foi incorporado ao Itinerário Formativo como a primeira atividade do nível 1. A realização do diagnóstico do nível de adoção de tecnologias na educação pelos professores das escolas públicas do Brasil foi inspirada em instrumentos similares, usados em outros países, elaborados pelo CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira). Como é o caso da ferramenta europeia (DigCompEdu Check-In) desenvolvida com base no DigCompEdu: Quadro Europeu de Competência Digital para Educadores para a autorreflexão sobre as áreas, na qual é possível melhorar a utilização que é feita das tecnologias digitais para o ensino-aprendizagem.

Reflexões

As ações formativas possibilitaram o pensar sobre a prática pedagógica, que se fortaleceu por meio de outras ações, dentre elas, a Conexão Seduc, com as webconferências, que foram desenvolvidas por meio de eixos temáticos semanais, com palestras, colóquios, oficinas e live aulas. Tudo isso para mobilizar uma rede de troca de experiências docentes e discentes, vinculada ao constante diálogo de forma síncrona ou assíncrona, articulado por meio da Coded/CED juntamente a todos os setores do Governo do Estado, de modo a estimular a reflexão crítica e criativa, o fomento de boas práticas e a comunicação colaborativa.

Outra ação da política educacional cearense, que contribuiu com o desenvolvimento de competências digitais, foi o Agente de Gestão da Inovação Educacional (AGI), inserido na rede pública estadual de ensino em 2021, um novo ator social com conhecimento no uso pedagógico das tecnologias e das metodologias educacionais com o intuito de apoiar gestores escolares e professores na mobilização, no planejamento e na implementação de práticas pedagógicas inovadoras relacionadas ao ensino remoto/híbrido. Para fomentar o trabalho com as tecnologias digitais, os AGIs também foram envolvidos na formação Competências Digitais para a Docência, em que 158 educadores finalizaram suas atividades no nível de transformação digital.

Outra perspectiva estratégica na Seduc-CE, para pensar uma educação que incorporasse os aprendizados mobilizados no contexto da pandemia e as inovações educacionais para o século 21, constituiu-se no GAEH (Grupo de Articulação da Educação Híbrida), em parceria com o Instituto Unibanco e o Cientista Chefe da Educação do Ceará, com o objetivo de pensar um Projeto de Educação Híbrida para a próxima década.

Resultados e proposições

O desenvolvimento de competências digitais docentes é uma demanda que necessita de um amplo plano de formação continuada para todos os educadores que se encontram no efetivo exercício da docência, como fator preponderante para iniciar sua atuação na educação básica, de forma que essa abordagem possa fortalecer um ecossistema de inovação educacional.

A segunda consideração, consiste no entendimento da urgência da constituição de políticas públicas efetivas de inclusão, dentre elas, a digital, sobretudo, após a intensificação infotécnica dos últimos anos, no contexto da pandemia da Covid-19.

 


TAGS

competências para o século 21, ensino remoto, formação continuada, objetos digitais de aprendizagem

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