Cartas permitem trabalhar pensamento computacional de maneira desplugada - PORVIR
Crédito: Delpixart/iStockPhoto

Inovações em Educação

Cartas permitem trabalhar pensamento computacional de maneira desplugada

Material pode ser baixado gratuitamente com orientações e atividades para trabalhar computação de forma interdisciplinar

por Beatriz Cavallin ilustração relógio 10 de junho de 2021

Em um momento em que muitos professores e estudantes enfrentam dificuldade de acesso a computadores para ter contato com a programação, um projeto do professor Christian Brackmann, do IFFAR (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, no Rio Grande do Sul) mantém viva a possibilidade de trabalhar com algoritmos. Com o baralho AlgoCards, alunos têm a possibilidade de desenvolver o pensamento computacional de maneira desplugada, impressa, ou seja, sem um computador.

Atualmente, existe um consenso de que a discussão sobre a presença das tecnologias digitais na educação não deve se restringir a meio ou suporte para promover aprendizagens ou despertar o interesse, mas entender como funcionam e qual seu impacto na sociedade. O respaldo vem da própria BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que já contempla o desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas ao uso crítico e responsável das tecnologias digitais.

Mas o que seria esse tal pensamento computacional? “É uma distinta capacidade criativa, crítica e estratégica humana de saber utilizar os fundamentos da computação nas mais diversas áreas do conhecimento, com a finalidade de identificar e resolver problemas colaborativamente através de passos claros de tal forma que uma pessoa ou uma máquina possam executá-los eficazmente”, explica Brackmann. A ideia de trabalhar esse conceito da maneira mais aberta e replicável possível veio durante os estudos de doutorado do professor. Ele percebeu que o pensamento computacional era muito escasso, principalmente aquele que ajuda o educador a trabalhar conceitos fundamentais sem depender de um dispositivo.

As cartas AlgoCards estão disponíveis gratuitamente no site Pensamento Computacional Brasil, criado pelo professor, acompanhadas por instruções de uso e sugestões de atividades para serem desenvolvidas em sala de aula – tanto em formato presencial, quanto remoto. Comandos como “para frente”, “gire à direita”, “gire à esquerda” e “para trás” podem ser impressos em folha de papel e recortados. Isso permite que o estudante desenvolva um algoritmo (sequência de instruções), ou seja, uma analogia do que os estudantes encontrarão nas plataformas digitais.

Segundo Brackmann, a ideia do baralho é simplificar a relação do estudante com o pensamento computacional e, posteriormente, com a programação. “É exatamente aquela coisa cinestésica, como poder lidar com lápis, tesoura, cola, canetinha. São materiais normalmente encontrados nos estojos dos estudantes, então não precisamos lidar com a máquina”, diz Christian. “Tudo isso é importante para quando eles tiveram o primeiro contato com programas como o Scratch, os/as alunos/as chegam muito mais preparados e já com noção de programação”.

O professor ainda reforça que o estudante se sente muito mais confiante ao se deparar com a programação, quando já tem conhecimento dos quatro pilares do pensamento computacional: abstração, decomposição, reconhecimento de padrões e algoritmos, sobre os quais o AlgoCards se apoia. As atividades sugeridas no site foram pensadas para que os alunos possam criar algoritmos simples e podem ser adotadas por todas as etapas de ensino, desde a educação infantil.

No vídeo, você confere algumas atividades que podem ser feitas a partir dos AlgoCards :

Para além de pensar em disciplinas específicas de tecnologia, o professor defende que o pensamento computacional pode ser trabalhado de maneira transversal em sala de aula. Com a ajuda das cartas, por exemplo, é possível desenvolver atividades nas aulas de arte – com o AlgoRitmos, trabalhar formas geométricas e até o aprendizado de outras línguas, tendo em vista que o baralho está disponível também em inglês e espanhol. “O baralho é bem eclético, e o limite é a imaginação”, diz o professor.

O AlgoLabirinto, por exemplo, funciona como um jogo de tabuleiro, no qual os alunos precisam atingir objetivos de aprendizagem.  Para além do baralho, o site traz outras atividades também gratuitas. A tarefa “O que será”, por exemplo, consiste em uma folha quadriculada e dá instruções para que os alunos pintem determinado número de quadrados por linha, a ideia é formar uma imagem e explicar de maneira visual como funcionam os pixels.

Por que trabalhar o pensamento computacional

De acordo com Brackmann, aprender programação é imprescindível para ter sucesso profissional em um futuro não muito distante. “Se você não souber programar, você vai ficar para trás na sua carreira. A gente até brinca, antigamente quando você tinha um cursinho de inglês no seu currículo era um “plus” a mais a sua carreira, hoje isso já ficou no segundo plano. A programação é o novo inglês”. Mas reafirma que o objetivo não é formar programadores, mas sim que os estudantes saiam do ensino médio com noções básicas de programação.

Países como Finlândia, Canadá, China, Cingapura, Reino Unido, Estados Unidos, entre outros, já encaram a computação como disciplina obrigatória em sala de aula. No Brasil, a tentativa de implementar a matéria no currículo escolar começou em 2015, como o próprio Christian, mas só se concretizou em 2018 com a BNCC. Pensando em uma maneira de apoiar os professores nesse cenário, foi desenvolvido pelo CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) o Currículo de Referência em Tecnologia e Computação, que contou com a coautoria de Brackmann e tem como objetivo oferecer diretrizes e orientações para apoiar redes de ensino e escolas a incluir os temas tecnologia e computação em suas propostas curriculares.

“Computação não é um bicho de sete cabeças” é a mensagem que Christian ressalta. “Conseguimos trabalhar com cartinhas, com recortes, com atividades. Computação não é só programar, vai muito além disso”. O professor também oferece formações para professores, em 2020 ministrou mais de 30 palestras sobre o assunto. “Muitas secretarias me contataram pedindo por essas formações, e apesar de eu conseguir conversar com muitos professores, no meu ponto de vista é algo que ainda precisa ser resolvido a nível nacional”.


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base nacional comum curricular, educação online, programação, tecnologia

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