Catador se torna cientista social depois de passar pela EJA e ingressa no mestrado - PORVIR
Crédito: Brayan Martins Viana / Porto Alegre (RS)

Inovações em Educação

Catador se torna cientista social depois de passar pela EJA e ingressa no mestrado

Depois de passar 20 anos longe da sala de aula, Alex Cardoso retomou os estudos e quer se tornar doutor

por Ana Luísa D'Maschio e Marina Lopes ilustração relógio 30 de novembro de 2022

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Este conteúdo faz parte da
Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

“Vai ter catador doutor!” Foi com essa frase que Alex Cardoso, de 42 anos, celebrou no Facebook ao ver seu nome na lista de aprovados do curso de ciências sociais da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre (RS). A postagem, feita no dia 19 de janeiro de 2018, teve mais de 900 interações e centenas de comentários –quase todos emocionados com a conquista do catador, que passou 20 anos longe da sala de aula, concluiu o ensino fundamental e médio na EJA (Educação de Jovens e Adultos) e estudou para o vestibular com o auxílio de um cursinho popular. Quatro anos depois de se tornar calouro, com o diploma de bacharel em mãos, ele continua circulando pelo Campus do Vale. Agora, como mestrando em Antropologia. 

“De catador semianalfabeto, em um prazo de oito anos, eu consegui avançar até ingressar no mestrado em uma universidade federal”, recorda Alex, que precisou deixar a escola aos 15 anos para ajudar a família na coleta de materiais recicláveis. Na época, estava no sexto ano do ensino fundamental (antiga quinta série). Pouco tempo depois, com o nascimento da primeira filha, ficou ainda mais difícil retornar aos bancos escolares. “Isso não significa que eu não tenha aprendido com a vida também”, ressalta. 

Crédito: Brayan Martins Viana / Porto Alegre (RS)

No trabalho com a reciclagem, Alex teve contato com movimentos sociais e experiências que o ajudaram a ler o mundo de forma crítica. Passou pela Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis do Loteamento Cavalhada, pela coordenação do Fórum de Catadores de Porto Alegre e pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. Deu palestras em universidades nacionais e internacionais, incluindo países como Argentina, Estados Unidos, Índia e França. “Eu estava ocupando vários espaços, mas toda vez que tinha que me apresentar, eu era o Alex, catador que estudou até a quinta série do ensino fundamental”, conta. 

Por outro lado, ele sempre ouvia de pessoas próximas “nossa, como você é inteligente” ou “você tem a faculdade da vida”. “Isso vinha de pessoas que eram muito amigas, mas comecei a refletir: Por que o pobre faz a faculdade da vida e o rico vai para a faculdade real? Quando a gente diz que uma pessoa é esforçada e inteligente, que ela não precisa nem de universidade… não, não, não. Eu acho que todo mundo precisa de universidade. Temos que parar com essa lógica e com esse discurso que, de certa forma, exclui as pessoas”, adverte. 

Retorno à educação formal 

Movido por esses questionamentos, depois de postergar por duas décadas o desejo de voltar ao ensino formal, em 2015 Alex decidiu tomar uma atitude: foi até à Escola Municipal de Ensino Fundamental Neusa Goulart Brizola, que ficava a menos de 100 metros da sua casa. “A escola estava com os portões abertos. Eu lembro que entrei e perguntei para a professora como eu poderia me matricular, porque não estava com os meus documentos, tinha estudado pela última vez em 1994.” Naquele momento, vendo sua motivação, de forma muito acolhedora, a professora disse que poderia sentar e assistir às aulas imediatamente. Somente depois teria que enviar a documentação. “Eu percebi uma lógica de inversão. Primeiro me acolheram, depois pediram para organizar a questão burocrática. Aquilo foi muito importante para mim”, afirma. 

Primeiro me acolheram, depois pediram para organizar a questão burocrática

Além do acolhimento inicial, que contou muito para a sua permanência, Alex diz ter encontrado na EJA um processo pedagógico muito conectado com as suas vivências e necessidades, sendo um adulto e trabalhador, com pouco tempo disponível. “É um processo de educação que se adapta aos próprios estudantes, e não ao contrário”, avalia. 

Entre 2016 e 2017, depois de passar EJA Fundamental, Alex deu continuidade aos seus estudos no Colégio Estadual Cônego Paulo de Nadal, onde concluiu o ensino médio. Lá, enquanto conciliava os estudos, no período noturno, com o trabalho e a articulação do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, surgiu a vontade de ingressar na UFRGS. Procurou por um cursinho popular pré-vestibular e, com ajuda de conhecidos, descobriu a Rede Emancipa, um movimento social de educação popular que trabalha em prol da democratização do acesso à universidade. 

Universidade do povo 

No dia 19 de janeiro de 2018, enquanto estava em uma cooperativa em Palmas (TO), articulando ações com outros catadores, as mais de 100 mensagens no seu celular anteciparam a notícia: seu nome estava na lista de aprovados do curso de ciências sociais da UFRGS. “Quando eu cheguei na escadaria da universidade, as pessoas já me conheciam. A minha foto tinha saído no jornal, justamente pela excepcionalidade de um catador, que ficou 20 anos sem estudar e que fez o EJA, ter passado no vestibular”, lembra. 

Ciente da visibilidade que tinha conquistado naquele espaço, Alex decidiu trazer para a universidade os seus conhecimentos e vivências como catador e como egresso da EJA. “A minha pesquisa e a minha relação com a academia foi toda voltada para o processo que eu convivo. Temos que pensar em uma universidade popular que tenha povo e que esse povo seja produtor de conhecimento e de ciência”, diz ele, que produziu um Trabalho de Conclusão de Curso chamado “O Eu Catador: reciclando humanidades, ressignificando resíduos e compartilhando a cultura social da reciclagem”. No período da graduação, Alex também escreveu o livro “Do Lixo a Bixo: a cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vida”, lançado em 2021. 

Do mestrado em Antropologia, que está cursando atualmente, ele não pretende parar. O próximo passo é seguir rumo ao doutorado. “Tenho um convite para estudar na Universidade de Coimbra”, projeta. 

“É um salto grande, sair da quinta série do ensino fundamental e, em oito anos, entrar em um programa de pós-graduação. Teve bastante esforço, mas a minha história está aí justamente para contradizer a ideia de meritocracia”, afirma, ao reforçar que precisou de apoios e de políticas para ocupar esse espaço, como as cotas sociais. “A universidade vai ganhar muito mais quando tiver mães, trabalhadoras, indígenas e quilombolas trazendo suas vivências, que são processos empíricos, e não só teóricos.”  

Sabe aquela revolução social que a gente almeja? Ela acontece todos os dias, cada vez que um aluno entra dentro de uma sala de aula. Se for uma sala da EJA, a transformação é ainda maior

Hoje, Alex olha sua trajetória de vida e não tem dúvida de o quanto o acesso à educação trouxe transformações. “Sabe aquela revolução social que a gente almeja? Ela acontece todos os dias, cada vez que um aluno entra dentro de uma sala de aula. Se for uma sala da EJA, a transformação é ainda maior, porque eles estão retomando um sonho”, conclui. 

**A pauta foi selecionada pelo 4º Edital de Jornalismo de Educação, iniciativa da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação) em parceria com o Itaú Social. As matérias serão publicadas durante o mês de novembro de 2022.


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eja, ensino superior, Série Desafios e Perspectivas da EJA no Brasil

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