Tudo começou quando a minha turma de crianças do CEI (Centro de Educação Infantil Professora Teresa Sabel de Araújo), em Blumenau (SC), encontrou muitas abelhas mortas na quadra da escola. O que teria acontecido? Não vamos ter mais mel? Alguém colocou veneno?

Quando as crianças levantam hipóteses, temos de investigá-las. Ao começar a pesquisa sobre as abelhas, tivemos uma surpresa: entre as espécies, conhecemos as abelhas sem ferrão, nativas do Brasil, também chamadas de abelhas originárias ou abelhas indígenas.

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“Olha só, professora! Será que elas são parentes dos povos originários?”, perguntaram, curiosas, as crianças. Em busca da resposta, a pesquisa ganhou um novo rumo e foi batizada de “Costurando cultura, bordando identidade”.

O passo seguinte foi uma volta às minhas origens: tenho descendência indígena, nasci e cresci na reserva Xokleng. Era um vilarejo simples, mas de uma beleza única – uma beleza requintada, como diria o poeta pantaneiro Manoel de Barros (1916-2014). O povo Xokleng me ensinou que nós somos a natureza e temos o dever de respeitá-la. Mesmo morando na cidade de asfalto, a natureza nunca saiu de mim, e busco levá-la para as crianças em diversas atividades.

Decidi visitar a aldeia Bugio, em José Boiteux, para investigar e entender se aquelas abelhas tinham, de fato, relação com os povos indígenas. Pela distância (94 km de Blumenau), não pude levar as crianças, mas trouxe a elas tudo o que aprendi. Graças à tecnologia, fizemos videochamadas conectando a escola com a comunidade indígena, permitindo que a turma conversasse e tirasse suas dúvidas com os Xokleng.

Saberes ancestrais em diálogo com a escola

Com o apoio de Kayle, cacique e professor da comunidade, tivemos verdadeiras aulas. Descobrimos, por exemplo, que as abelhas indígenas são responsáveis por manter viva uma parte da cultura de seu povo. Com o mel, eles fazem o Mõg, uma bebida servida nos rituais de casamento, batizados e outras cerimônias, que leva de seis a 15 dias para ficar pronta. 

Contudo, essa espécie de abelha está sumindo da Mata Atlântica por conta do plantio de pinus-americano, uma espécie de pinheiro, no lugar de espécies nativas. Kayle nos explicou que a folha do pinus libera uma resina que a abelha leva para sua colmeia e infecta todas as outras. Essa resina também é venenosa para os humanos.

Kayle nos contou que, em sua infância, seu pai mantinha uma colmeia no quintal, de onde colhia o mel para preparar o Mõg. Hoje, para encontrá-la, é necessário ir mata adentro. Quando não é possível, opta-se por um tipo diferente de mel, de outras espécies, o que altera o sabor e a qualidade da bebida.

Os pequenos adoraram as conversas. Tanto que, ao compartilharem com suas famílias, os pais e responsáveis pediram uma nova videochamada, tamanho foi o interesse gerado pelos saberes indígenas.

Para estreitar ainda mais nossa relação com a natureza, passamos a realizar trilhas em áreas da Mata Atlântica próximas à escola, explorando cachoeiras, colmeias e outros elementos naturais. Nessas caminhadas, identificamos plantações de palmito-juçara e embaúba, plantas nativas e usadas também pelos povos indígenas muito antes de nós.

Clique na imagem para conferir a galeria de fotos:

Plantio, colheita e protagonismo infantil

Não ficamos nas atividades externas: além da promoção da diversidade cultural, o projeto trouxe novas dimensões para o brincar das crianças. Partiu delas mesmas o pedido de criação de um jardim biodiverso na escola, a fim de atrair as abelhas e outros polinizadores, como joaninhas e borboletas.

O aluno Caio foi o primeiro a participar, trazendo um chuchu para o plantio. Aprendemos que as flores do chuchuzeiro, pequenas e brancas, são ótimas fontes de pólen. “Professora, vamos plantar! Vai chamar bastante abelha, os povos originários precisam de mel!”, disse o menino. Sua colega Isabella completou: “Quando as abelhas produzirem mel, vamos levar para eles!”

Hoje cultivamos morangos, jabuticabas, acerolas e diversas flores que agradam às abelhas. E não preciso pedir que cuidem do jardim: as crianças assumiram essa responsabilidade, guiadas pelo respeito e admiração que desenvolveram pela cultura indígena.

Um projeto para todos aprenderem

O projeto fundamenta-se nos dois eixos norteadores da Educação Infantil: interações e brincadeiras. Brincar é a forma pela qual a criança se comunica, compreende o mundo e constrói cultura, aprendendo de maneira significativa. Além disso, essa prática natural respeita e promove os direitos de aprendizagem articulados aos campos de experiências.

Mas o projeto proporcionou ainda mais. Ele me faz recordar uma frase do pesquisador da infância João Luiz Silva: precisamos estar encantados para encantar as crianças. E elas, de fato, se encantaram com a sabedoria do povo Xokleng, aprendendo a reconhecer e respeitar diferentes formas de vida e de conhecimento.

A criança aprende a cuidar e valorizar aquilo que admira. E foi isso que aconteceu quando elas perceberam sua conexão com a natureza e reconheceram a singularidade do mundo indígena. O envolvimento foi tão profundo que a turma passou a se autodenominar “Guardiões da Natureza”.

Como relatou Kayle, o conhecimento indígena é transmitido de geração em geração, por meio de lideranças, anciãos, pajés, caciques, contadores de histórias e parteiras. São saberes ancestrais valiosos que precisam ser respeitados.

Compromisso da escola com a diversidade

Assim, também aprendemos. Levar a cultura indígena para a educação infantil é uma oportunidade de ampliar horizontes e apresentar outras formas de saber. Além disso, é necessário mostrar a realidade: muitas comunidades indígenas enfrentam ameaças à permanência em seus territórios, discriminação, dificuldades no acesso a serviços básicos e os impactos das mudanças climáticas.

A escola tem papel essencial na formação de cidadãos críticos e conscientes, fortalecendo vínculos com diferentes culturas. Tal como os povos originários, precisamos aprender a respeitar, colaborar e viver em comunidade. Sozinhos podemos ser bons, mas juntos somos invencíveis.

Pedagoga com especialização em psicopedagogia, efetiva na rede municipal de Blumenau. Trabalha na educação infantil com turmas de 4 a 6 anos.

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5 Comments

  1. Tive o prazer do aprendizado pedagógico em participar do projeto da professora Zilda. Excelente pesquisa e excelente ações foram desenvolvidas com os pequenos. Parabéns, querida Zilda.

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