‘É preciso incutir o valor da sustentabilidade em líderes' - PORVIR

Inovações em Educação

‘É preciso incutir o valor da sustentabilidade em líderes’

Físico austríaco e autor de best-sellers, Fritjof Capra, promove a ecoalfabetização em escolas e empresas

por Patrícia Gomes ilustração relógio 5 de maio de 2012

Enquanto o debate sobre sustentabilidade ganha espaço na agenda de discussões internacionais, um físico famoso vem reformulando currículos de escolas e dando palestras em empresas para promover a chamada ecoalfabetização.

”Precisamos incutir nos estudantes, nos empresários e nos líderes políticos os valores de sustentabilidade”, diz Fritjof Capra, físico austríaco radicado nos Estados Unidos e autor de vários best-sellers, como o Tao da Física e Ponto de Mutação.

Capra ficou conhecido mundialmente por ser um dos divulgadores do pensamento sistêmico, teoria que propõe que a realidade seja compreendida como um todo interconectado. Nos anos 90, ele passou a aplicar o raciocínio também no campo da sustentabilidade. Começou, então, a se dedicar ao que ele e sua equipe chamaram de ecoalfabetização, o processo de desenvolver consciência ecológica –por isso o termo alfabetização– tanto em crianças quanto em adultos.

crédito Basso Cannarsa

Capra defende que a ecologia não pode ser compreendida nem abordada separadamente de outras áreas do conhecimento, por isso suas contribuições acadêmicas começam nas ciências naturais e chegam a campos tão diversos quanto administração e sociologia. Na escola, isso se traduz em aulas de ecologia, que incluem discussões de biologia, filosofia e até matemática, de acordo com a idade dos alunos.

“Quando olhamos para os ecossistemas, nós percebemos que eles são comunidades de plantas, animais e microrganismos que se relacionam de forma a maximizar sua sustentabilidade. Não tem desperdício na natureza”, afirma.

Para desenvolver essa percepção desde cedo, por exemplo, Capra sugere levar turmas da educação infantil para uma horta. Lá, afirma o professor, os pequenos podem ser apresentados ao ciclo de vida dos alimentos, aprender que nenhum ser vive sozinho e descobrir que isso também ocorre no dia a dia deles. “Em São Paulo, se a criança vive no centro, ela não sabe de onde o alimento vem. Ela acha que a comida vem do supermercado.”

Para Capra, os princípios da ecoalfabetização podem e devem ser usados para inspirar escolas brasileiras, inclusive na rede pública. “O Brasil não pode copiar o que estamos fazendo na Califórnia, porque o sistema escolar, a cultura e o clima são diferentes. Mas os professores podem se inspirar e fazer do seu próprio jeito”, afirma. O especialista cita o Instituto Ecoar para a Cidadania, em São Paulo, como uma organização parceira que vem promovendo os conceitos de ecoalfabetização no Brasil.

Experiências no Brasil

“As empresas até diminuem o desperdício e as emissões de gás-estufa; o difícil é permitirem o surgimento de novas lideranças e lidarem com a diversidade”

Mirian Dualibi, presidente do Ecoar, tem ajudado a introduzir o conceito de educação para sustentabilidade na rotina das escolas de todo o país. De acordo com a especialista, um caminho muito bem aceito por professores é o trabalho ecológico por projetos. Nesse método, um problema ambiental local é proposto como tema de discussão na escola e deve ser abordado por todas as disciplinas em todas as séries.

Assim, a recuperação de um rio próximo à escola vira assunto nas aulas de língua portuguesa do ensino médio e o professor ensina os jovens a escreverem um ofício para a Sabesp para relatar o problema. Já o professor de história do ensino fundamental pode pedir que os alunos façam uma pesquisa de fotografias históricas que registraram o rio ao longo das décadas. “Todos os segmentos assumem uma função no projeto. A escola fica mais unida, as notas melhoram, diminui o índice de violência”, diz Dualibi.

A presidente do Ecoar conta que é mais fácil educar para a sustentabilidade no ambiente escolar do que nas empresas, onde a resistência é maior. “Eles acham que é perda de tempo. Às vezes até diminuem o desperdício e as emissões de gás-estufa; o mais difícil é permitirem o surgimento de novas lideranças e lidarem com a diversidade”, diz.

Capra concorda com Dualibi sobre ser mais fácil ecoalfabetizar nas escolas. Os dois, no entanto, têm visões positivas sobre o que vem sendo feito. O pesquisador austríaco ressalta avanços em ambientes empresariais, como a preocupação que alguns bancos no Brasil já têm em oferecer produtos sustentáveis. “Apesar da dificuldade, temos caminhado muito. Hoje o panorama é muito melhor do que há dez anos”, diz Dualibi.

Veja trailer do filme Ponto de Mutação, baseado em livro homônimo de Capra e que explica as bases do pensamento sistêmico.


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