Projeto para educação infantil abraça capoeira e cultura afro-brasileira - PORVIR
Crédito: Elisabete A. Pereira Carneiro/Arquivo Pessoal

Diário de Inovações

Projeto para educação infantil abraça capoeira e cultura afro-brasileira

Com o objetivo de promover valores antirracistas, professora de educação física de Palmas, no Tocantins, incorpora a arte da capoeira nas atividades com crianças de 5 anos

por Elisabete A. Pereira Carneiro ilustração relógio 4 de junho de 2024

De um lado, estudos destacam a capoeira como uma influência importante na formação de valores. Por outro lado, a educação física, enquanto componente curricular da educação infantil, é responsável principalmente por oferecer jogos e brincadeiras no campo de experiência “Corpo, gestos e movimentos”, algo que está intrinsecamente ligado ao campo de experiência “O eu, o outro e o nós”. O projeto “Capoeira na educação infantil: por uma educação antirracista” une os dois pontos e foi elaborado para proporcionar aos meninos e meninas do CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) João e Maria, localizado em Palmas (TO), uma vivência na qual pudessem desenvolver os aspectos motores, cognitivos e sociais, por meio de reflexões sobre temas atuais, como racismo e diversidade cultural.

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Temos de pensar em uma educação antirracista com situações que problematizem contextos fora e dentro da escola. Nossa instituição tem pouquíssimas crianças negras, mas não podemos blindá-las de situações do cotidiano que elas enfrentam. Conhecer as culturas afro-brasileiras é necessário para adquirir o respeito pelo outro, pelo diferente e pelo que pertence à nossa regionalidade.

Etapas do projeto

Duas vezes por semana, 18 meninos e 16 meninas de 5 anos de idade participavam das aulas de educação física. Juntos, lemos “O herói de Damião em: A descoberta da capoeira”, livro de Iza Lotito, com ilustrações de Paulo Ito. A obra traz a história do menino Damião, que não se reconhece em nenhum dos heróis que vê nos filmes e na televisão, mas, ao encontrar uma roda de capoeira, aprende nove golpes e defesas básicas. Ao ser batizado na roda, ele descobre que não precisa de nenhum herói, pois ele mesmo se torna um. 

Conversamos sobre o que eles entenderam da história. E logo vieram os questionamentos: Quem era Damião? Por que ele não se reconhecia nos heróis da televisão? Alguém já se sentiu assim? Quais são os sentimentos que possuem quanto a esse não pertencimento? 

Depois do bate-papo, foi pedido às crianças para recontarem a história por meio de desenhos livres. Acredito na importância de ampliar as referências visuais, evitando formatos prontos ou estereotipados: é preciso valorizar a presença cultural do negro e do capoeirista em nossa cultura. O mesmo se pode dizer sobre a exploração das imagens e dos elementos estéticos sobre a cultura negra e a prática da capoeira. 

As crianças receberam um pedaço de tecido que podiam usar como uma capa de super-herói. Foram momentos de pura alegria e imaginação.

Clique na imagem para ver a galeria de fotos:

A arte da capoeira

Ainda em sala, o conteúdo sobre a história da capoeira foi abordado por meio de um breve questionamento às crianças, com o apoio de vídeos e imagens sobre o que iríamos vivenciar. Durante a escuta, conversamos sobre diferentes temas, desde os movimentos aprendidos até as emoções sentidas. Este foi um bom momento para falar sobre racismo e perguntar a elas o que sabiam, se já conviveram, se conhecem alguma situação que queiram compartilhar.

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Levantei os conhecimentos prévios da turma: quem já brincou com os movimentos da capoeira? Quem já viu uma roda de capoeira? Alguém quer demonstrar algum movimento da capoeira? Nesse momento, algumas crianças se arriscaram em movimentos como os da estrelinha.

Novamente, recorri a um vídeo de uma roda de capoeira com crianças e adultos jogando, a fim de contemplar a dimensão conceitual, importante para o primeiro contato com esse conteúdo. Mas sempre valorizando o que as crianças já sabem a respeito do tema levantado. 

Música e ginga

As práticas corporais da capoeira tematizadas foram: os movimentos básicos da capoeira como ginga, meia lua, esquiva, cocorinha, martelo, aú e rabo de arraia, percussão com instrumentos e canto das músicas. Antes da ginga e das experiências corporais, partimos para uma brincadeira de estátua. Ao parar a música típica das rodas de capoeira, ninguém podia se mexer. 

Chegou a hora da ginga! De mãos dadas com um colega, as crianças desenhavam um triângulo invertido com os pés. Na sequência, em círculo, faziam o mesmo movimento, agora trazendo os braços para frente do corpo na altura do rosto. Privilegiamos, neste momento, a dimensão prática, que visa explorar as vivências no decorrer das aulas. 

Chamou-se a atenção das crianças para o respeito e cuidado que tem que ter com o colega ao fazer o movimento com ele. É importante ressaltar que a participação de cada um é fundamental para a realização da atividade, pois o outro precisa dele para realizar os movimentos. 

Também fizemos a vivência dos movimentos meia lua e cocorinha; martelo e esquiva; aú e rabo de arraia, sempre com uma roda de capoeira para interagir movimentos corporais, toque dos instrumentos e o canto das músicas.

Todas as aulas seguiram essas três sequências: a roda da conversa explanando sobre o que vamos experimentar na aula e deixando as crianças falarem o que já sabem, depois a vivência prática com apropriação do conhecimento através de brincadeiras e sequências pedagógicas e a roda final com uma conversa do que gostaram de vivenciar e a avaliação da aula com relatos sobre o que gostaram de aprender ou o que não gostaram. 

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Percussão com instrumentos

A música é parte fundamental da cultura da capoeira. Assistimos a vídeos com instrumentos como atabaque, berimbau, pandeiro, caxixi e ganzá. Reunimos outros instrumentos para levar à escola, como pandeiro, caxixi, chocalho e berimbau, para que as crianças pudessem explorar mais autonomamente todos os materiais e descobrirem, por conta própria, possibilidades desses materiais.

Neste momento, conversamos sobre as religiões de matrizes africanas que utilizam aqueles instrumentos, questionando-as sobre o conhecimento que possuem sobre o assunto: aqui, o objetivo, mais uma vez, era entregar o conhecimento para alcançar o respeito.

Por fim, organizamos nossa roda de capoeira. Algumas crianças puderam tocar instrumentos que tinham à disposição, outras jogavam no meio da roda os movimentos que aprenderam nas aulas anteriores e batiam palmas. Elas trocando de lugar para experimentar todas as possibilidades de uma roda de capoeira. Algumas canções eram cantadas pelas crianças e outras eram tocadas na caixinha de som. 

Ao final da aula, pudemos fazer a roda da conversa para a avaliação daqueles momentos. Qual instrumento mais gostaram de tocar? Qual posição na roda de capoeira mais gostaram de experimentar? O que acharam da aula daquele dia? 

Apresentamos nossa roda de capoeira no Dia da Consciência Negra, em 2023, e este foi apenas um primeiro passo para a abertura de uma pauta que deve estar nas rodas de conversa todos os dias. Como o contato das crianças com as questões étnico-raciais é permanente nessa proposição pedagógica, é importante que o professor esteja atento às escutas para as percepções e para as respostas das crianças sobre a diversidade racial dentro da nossa escola e fora dela. Assim, por suas atitudes, por seu próprio exemplo, terá condições de mostrar às crianças atitudes de respeito e valorização das diferentes culturas.

Conexão com a BNCC

Na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), podemos incluir a capoeira na competência 3 que diz: “Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico cultural”. E as relações com o documento vão além, quando nos é indicado que a educação das crianças precisa ter uma intencionalidade educativa: não é possível pensar em conteúdos soltos, sem relação com a vida e sem os cuidados relacionados às crianças.

A BNCC também reforça que toda criança tem seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, que são: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Por isso, a capoeira pode contribuir de forma salutar para a garantia desses direitos, colaborando no desenvolvimento infantil na primeira infância. 

Como a capoeira é uma prática coletiva na qual a participação individual é fundamental, a sociabilidade é inerente a sua dinâmica. Nesse contexto, há um estímulo intrínseco para que os praticantes participem ativamente por meio do canto, da percussão e do envolvimento no jogo, respeitando o espaço e as respostas de movimento dos colegas com quem interagem. Este processo favorece o desenvolvimento das habilidades intra e interpessoal, pois a interação com os outros propicia aprendizado sobre si mesmo.

Alinhamento com os objetivos de aprendizagem para a faixa etária

– (EI03CG01) Criar com o corpo formas diversificadas de expressão de sentimentos, sensações e emoções, tanto nas situações do cotidiano quanto em brincadeiras, dança, teatro, música; 
– (EI03CG02) Demonstrar controle e adequação do uso de seu corpo em brincadeiras e jogos, escuta e reconto de histórias, atividades artísticas, entre outras possibilidades;
– (EI03CG03) Criar movimentos, gestos, olhares e mímicas em brincadeiras, jogos e atividades artísticas como dança, teatro e música;
– (EI03TS03) Reconhecer as qualidades do som (intensidade, duração, altura e timbre), utilizando-as em suas produções sonoras e ao ouvir músicas e sons;
– (EI03EF01) Expressar ideias, desejos e sentimentos sobre suas vivências, por meio da linguagem oral e escrita (escrita espontânea), de fotos, desenhos e outras formas de expressão;
– (EI03EO01) Demonstrar empatia pelos outros, percebendo que as pessoas têm diferentes sentimentos, necessidades e maneiras de pensar e agir;
– (EI03EO06) Manifestar interesse e respeito por diferentes culturas e modos de vida.

Desafios e recomendações

Acredito que o projeto “Capoeira na educação infantil” conseguiu garantir os direitos de aprendizagem das crianças, desenvolvendo sua capacidade motora e promovendo a educação antirracista, especialmente em uma escola com poucas crianças negras. Esse projeto não apenas despertou a consciência das crianças sobre a diversidade étnico-racial e cultural, mas também teve um impacto positivo em suas famílias, promovendo tolerância e respeito.

É essencial oferecer propostas que considerem o presente das crianças, reconhecendo-as como sujeitos de direito e protagonistas de seu próprio desenvolvimento e aprendizagem.

Embora muitos fatores possam limitar uma experiência como esta, como a falta de materiais, espaços adequados, temperaturas elevadas da região, falta de apoio de colegas de profissão e a desconfiança de alguns pais, é possível superar essas barreiras. Podemos proporcionar às crianças da educação infantil experiências significativas por meio do movimento corporal contextualizado com temas atuais.


Elisabete A. Pereira Carneiro

Professora de educação física nascida em São Caetano do Sul (SP), está na docência desde 1991, quando concluiu o curso técnico em magistério. Em 2000, formou-se em Educação Física (licenciatura) na Faculdade de Educação Física de Santo André (SP). É professora da rede municipal de Palmas (TO), onde ministra aulas na educação infantil. Especialista em gestão escolar e em educação especial, no momento cursa mestrado profissional em educação física.

TAGS

educação antirracista, educação infantil, Prêmio Professor Porvir 2024

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