Crédito: Jarbas Oliveira

Inovações em Educação

Escola usa espaços da comunidade como extensão da sala de aula

Em Maranguape (CE), Escola Municipal José de Moura usa o território como uma oportunidade de aprendizagem e cria ambiente propício para a leitura

por Marina Lopes ilustração relógio 21 de dezembro de 2018

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Série Educação Infantil

A cerca de 50 km de Fortaleza (CE), o distrito de Cachoeira, na região rural de Maranguape, tem uma história marcada por resistência e trabalho coletivo. Para preservar a memória dos antepassados que deram origem ao centro comunitário, a Escola Municipal José de Moura passou a usar o território como uma extensão da sala de aula. Por lá, desde a educação infantil as crianças participam de passeatas pelas ruas, aprendem com os relatos de vizinhos e exploram o Ecomuseu da cidade, que promove a educação patrimonial e o fortalecimento da identidade local.

“Muita gente acha que a nossa escola é bem diferente, mas para quem está aqui, no dia a dia, é normal. Eu diria que a parte mais importante do nosso trabalho é o envolvimento com a comunidade”, destaca Antonia Leda de Assis, diretora da José de Moura. Apesar de estar há pouco tempo na gestão, ela já acumula uma bagagem de 30 anos como professora na mesma instituição. Entre outras tantas razões, orgulha-se de conhecer família de cada um dos quase 300 alunos matriculados na escola. “Como nossa comunidade é pequena, fica bem mais fácil. Para trabalhar o aluno como um todo, é importante conhecer a sua família. Muitas vezes esse menino tem dificuldade na aprendizagem, mas a dificuldade vem de casa.”

A relação com a comunidade acontece de maneiras distintas. De um lado, a José de Moura se aproxima da comunidade na organização de festas tradicionais de Cachoeira, como a Farinhada, a Festa do Feijão Verde e a Cavalgada. Por outro, recebe e envolve as famílias em atividades rotineiras da escola. Nas turmas de educação infantil, todos os dias uma criança leva a “maleta viajante”, que contém vogais, formas geométricas e brincadeiras para serem trabalhadas em casa. Para a alfabetização, as professoras também desenvolvem uma atividade conhecida como “caixa surpresa”, em que as crianças precisam pedir ajuda para a família para trazer um objeto conforme a letra que está sendo trabalhada. Em sala, a turma precisa adivinhar o que está dentro do embrulho.

Quando a “caixa surpresa” chegou em casa pela primeira vez, Antônia de Fátima diz que teve que conversar com o filho Gustavo, 6, para decidir qual objeto seria levado. “Uma vez que ele tirou a letra ‘t’, aí a gente pensou em um tomate”, lembra a mãe, que também estudou na José de Moura anos atrás. “Desde 2000, a forma de ensinar mudou muito. Parece que agora meu filho aprende mais. Ele já sabe contar, aprendeu o alfabeto todinho.” De acordo com ela, o envolvimento das famílias com a escola também mudou. “Sempre tem coisa pra gente participar. Eu venho sempre que posso”, diz.

A comunidade também educa
Não são apenas as famílias que se envolvem no dia a dia da escola. “A comunidade também educa e participa de forma maciça de tudo”, afirma o coordenador César Neto. Seja compartilhando saberes ou acompanhando passeios pelo território, os vizinhos são convidados a interagir com os alunos. É o caso da antiga moradora Maria Aleluia de Souza, mais conhecida na região como Dona Aleluia, que vez ou outra recebe as crianças na sua casa para contar histórias no quintal. “Antes eles vinham mais, os pequenininhos gostam muito”, conta ela, que está há mais de 30 anos em Cachoeira. Com sorriso no rosto, ela também motiva a turma a se engajar nos estudos. “Eu sempre digo pra eles: meus filhos, a oportunidade que vocês têm hoje, eu nunca tive na vida. Sou analfabeta, meu estudo é o de Deus mesmo. Na minha época não tinha o que as crianças têm hoje.”

Outro espaço da comunidade que já se tornou uma extensão da sala é aula é o Ecomuseu de Maranguape. O equipamento cultural foi instalado em um antigo casarão, erguido na metade do século 19. As terras que pertenciam ao português José de Moura Cavalcante foram adquiridas por 30 famílias da região que se reuniram para formar o Centro Comunitário e o Comitê Agrícola de Cachoeira. Hoje ele tem a proposta de preservar a história da comunidade, dos seus moradores e da cultura local.

“O Ecomuseu tem uma casa, tem um banco de sentar e tem um açude”, descreve Gabriel, 6, da turma do infantil 5. Frequentemente as crianças são levadas ao espaço para ouvir histórias, ou até mesmo tomar uma banho no açude. Entre outros exemplos de atividades, a escola já recorreu ao Ecomuseu para trabalhar o dia da árvore e da alimentação saudável.

Currículo Vivo
Na avaliação de Erlandia Pessoa, coordenadora técnica pedagógica da Secretaria de Educação de Maranguape, o conhecimento local é um dos grandes destaques que a José de Moura traz no seu projeto pedagógico. “Às vezes a criança conhece tantos lugares pelos livros, mas não sabe o tipo de solo e clima da própria comunidade. Não que estudar outros estados e países não seja importante, mas você precisa do conhecimento local. E eles fazem isso muito bem aqui”, sugere.

Ela ainda cita como destaque o fato da escola trabalhar com uma concepção de currículo vivo, que transforma tudo em um ambiente de aprendizagem. “Isso não deve ser uma coisa de outro mundo, precisa ser natural. O diferencial da escola é fazer com que as crianças participem da aprendizagem e sejam protagonistas. Nós percebemos isso aqui.”

Para dar conta de um currículo vivo e trabalhar os campos de experiência da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) para a Educação Infantil, homologada pelo MEC (Ministério da Educação) em dezembro de 2017, semanalmente as professoras se reúnem em atividades de formação no local de trabalho. “É um momento muito bom em que podemos buscar mais conhecimento e aprender”, diz Francilene Monteiro Silveira, responsável pela turma do infantil 3.

Esses encontros também são oportunidade para a troca de experiências e o planejamento coletivo. Entre os xodós da equipe está o projeto “Brincando a gente aprende”, que resgata brincadeiras e cantigas com as crianças. “Dentro da música, nós trabalhamos letras, gênero textual e palavras”, explica a professora Alice Freire, do infantil 5.

As professoras também são estimuladas a criar cantinhos temáticos nas salas. Nas paredes, os alunos encontram cartazes com letras, números, expressões, data e até mesmo um quadro de chamada que registra a frequência de cada criança. Uma tenda literária soa como um convite para a turma sentar e folhear alguns livros. “Nós sabemos que não é obrigatório as crianças saírem lendo da educação infantil, mas aqui elas têm essa sede porque o aprendizado está fluindo”, avalia o coordenador da Escola Municipal José de Moura.


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