Por que vale a leitura
A reportagem mostra como a mediação docente transforma o acesso ao livro em experiências de leitura significativas.
Destaca o papel da diversidade literária e da representatividade na construção do engajamento dos estudantes.
Defende que formar leitores é garantir autonomia, pertencimento e consciência crítica, para além das tarefas escolares.
Jorge era aluno do 8º ano da Escola Municipal Professora Cynthia Cliquet Luciano, localizada em uma comunidade periférica de São Sebastião (SP). Segundo a professora de língua portuguesa Shirlei Rodrigues Pelizzaro, a turma tinha o estigma de ser “difícil” e quase ninguém queria assumi-la. Pouco após o início das aulas, a gestão escolar já precisava reunir as famílias para conversar sobre os conflitos enfrentados com os estudantes.
Com 26 anos de atuação na educação pública, 16 deles na mesma instituição, Shirlei aceitou o desafio. Acostumada a aproximar literatura, teatro, artes e território, a docente olhou de outra maneira para Jorge. “Era aquele aluno do fundão que nem sentava na cadeira, sentava na mesa. Não lia fluentemente, mas tinha toda a energia do mundo”, lembra.
Para Shirlei, formar leitores passa necessariamente por conhecer quem vai ler: os jovens, seus interesses, suas angústias e as formas como se expressam. A turma estava lendo “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, e Jorge não conseguia acompanhar. Para discutir representatividade, a professora apresentou “O Pequeno Príncipe Preto”, do escritor Rodrigo França, obra que recria a história a partir de referências à ancestralidade africana.

Ao decidir levar a obra ao teatro, Shirlei dividiu o papel do Pequeno Príncipe Preto entre três estudantes. Jorge foi um deles. “Ele não titubeou em aceitar. A vontade era tanta em saber, em decorar a história, que ganhou confiança e passou a se oferecer para ler tudo em voz alta. E não parou mais.”
A experiência ajuda a responder a uma questão colocada a professores, pesquisadores e escritores ouvidos pelo Porvir: se a literatura é um direito fundamental, o que a escola precisa fazer para que crianças e jovens possam exercê-lo?
Ter livros ao alcance das mãos é indispensável, mas não basta. Formar leitores exige mediação, tempo para ler, repertórios diversos e oportunidades tanto de reconhecimento quanto de encontro com outros mundos.
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A escola como lugar de formação de leitores
O escritor Jeferson Tenório conhece a escola de diferentes lugares. Antes de se dedicar mais intensamente à criação literária, trabalhou 18 anos como professor de língua portuguesa e literatura na rede de Porto Alegre. É autor de “O avesso da pele”, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário em 2021, e “De onde eles vêm”, lançado em 2024, entre outros títulos.
“A escola é a última trincheira antes da barbárie”, afirma. A defesa da escola convive, em sua fala, com o reconhecimento das desigualdades enfrentadas por professores e estudantes da escola pública. Ainda assim, Jeferson vê na instituição um papel que vai além da transmissão de conteúdos. “A escola tem essa formação intelectual, mas também tem uma certa educação sentimental.”

É nessa educação sentimental que a literatura ganha espaço. Para Jeferson, “educar os sentidos”, sobretudo nas primeiras infâncias, tem origem no contato com livros e histórias. “A escola é o lugar propício para que a gente tenha circulação de livros, de literatura, de histórias.”
A experiência como professor também aparece em sua ficção. Em “O avesso da pele”, Henrique é professor de literatura em escolas públicas e na EJA (Educação de Jovens e Adultos). Já em “De onde eles vêm”, Joaquim, jovem negro e pobre que encontra nos livros uma forma de compreender o mundo, ingressa na universidade por meio da política de cotas. Ao relacionar o personagem aos estudantes que conheceu em sala de aula, Jeferson afirma: “Eu tive muitos Joaquins.”
Alguns desses estudantes ele pôde acompanhar ao longo de anos. Em duas turmas, permaneceu com os mesmos alunos da antiga 5ª série até o fim do ensino médio, observando como a relação com os livros mudava ao longo da escolarização. “Num ano [você podia] ter um aluno que detestava livros e, no ano seguinte, ter um aluno que devorava livros. O contrário também acontecia, de você ter alunos que eram ótimos leitores e aí no ano seguinte não queriam saber de ler.”
No ensino médio, porém, outros obstáculos entravam nesse percurso. Jeferson chama a atenção especialmente para a realidade de estudantes negros e periféricos. “Eu vejo que, em um primeiro momento, temos uma escola que é comprometida com esse acesso, em mostrar que existem livros e boa literatura. Mas, com o passar dos anos, esse aluno vai encontrar dificuldades para manter o acesso e, enfim, conseguir terminar o ensino médio.”
Nesse contexto, ele defende que a leitura não se reduza ao cumprimento de uma tarefa escolar. “Não pode ser um trabalho que você faz só para ganhar nota, tem que ter algum sentido para a vida do estudante.”
Avessos à censura
“O avesso da pele” integra o PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático). Em 2024, exemplares foram recolhidos de escolas estaduais do Paraná, de Goiás e de Mato Grosso do Sul. “Os maiores defensores do Avesso da Pele na época da censura foram os alunos”, conta Jeferson. Os professores se mobilizaram contra a proibição, como mostra essa reportagem do Porvir.
A Companhia das Letras oferece um material para professores com propostas de atividades para trabalhar o livro em sala de aula.
Leitura do mundo, leitura da palavra
Para o professor de língua portuguesa José Augusto Souza dos Santos, a relação com a literatura também é biográfica. Nascido no interior da Bahia, ele entrou na escola aos 8 anos. “Durante muito tempo, livro para mim era luxo.”
Foram os professores alfabetizadores que o apoiaram na trajetória leitora. “Eu acredito que a literatura faz a gente enxergar o invisível.”
Hoje, José é professor, pesquisador e doutorando. Em sua pesquisa, investiga a formação decolonial de professores. Essa perspectiva também orienta sua reflexão sobre a formação de leitores. “Durante muito tempo aprendemos a reconhecer como legítimas, quase sempre, as mesmas vozes, os mesmos autores e as mesmas histórias. Não estou dizendo que devemos abandonar os clássicos, mas acredito que precisamos perguntar quem ficou de fora das nossas estantes, das bibliotecas, das salas de aula.”
Para José, uma abordagem decolonial sobre a leitura pressupõe também escuta e participação dos estudantes nas escolhas do acervo. “É preciso conhecer o que os estudantes leem ou desejam ler, quais narrativas fazem sentido para eles e quais histórias fazem parte de suas próprias vidas.”
Na Escola Municipal Maria Dias Trindade, em Paripiranga, uma das experiências conduzidas por José aproxima literatura, autoria e território. No projeto “Crônicas do meu lugar”, os alunos passaram da leitura de cronistas brasileiros, entre eles Luis Fernando Verissimo e Fernando Sabino, à escrita sobre a própria comunidade. A estiagem, a ansiedade e os acontecimentos locais viraram textos que deram origem a uma coletânea digital, um podcast e um livro impresso.
Espelhos, janelas e o direito de ocupar
Em São Sebastião, a maneira como a professora Shirlei constrói repertórios também se conecta com sua própria trajetória. Mulher negra, egressa da escola pública e formada em Letras (Português e Latim) pela USP (Universidade de São Paulo), ela recorda: “Fiz USP numa época em que me sentia uma alienígena, porque não me via em nenhum espaço. Nunca tive um professor preto. A questão racial de Machado de Assis, por exemplo, era irrelevante. Ele era tratado como ‘mulato’. O professor entrava e dizia: ‘Vamos analisar os contos’. Mas era uma perspectiva muito distante da realidade”.
Hoje, ao apresentar Machado de Assis aos alunos do 9º ano, Shirlei procura aproximar o escritor dos estudantes e mostrar aspectos que não conheceu durante sua própria formação. Ela fala de Machado como um homem negro e abolicionista, de sua atuação no serviço público e também apresenta textos menos conhecidos e mais acessíveis. Entre eles, uma mensagem de agradecimento a Dona Alba, que lhe deu um gatinho de presente, escrita como se fosse pelo próprio animal. “É importante que as crianças conheçam esse outro Machado.”
A literatura tem dois caminhos: ou ela é um espelho, em que você lê e se identifica, ou é uma janela, que abre a possibilidade de conhecer outras vidas
A literatura tem dois caminhos: ou ela é um espelho, em que você lê e se identifica, ou é uma janela, que abre a possibilidade de conhecer outras vidas
SHIRLEI RODRIGUES PELIZZARO, PROFESSORA
Sua preocupação estende-se à seleção das obras, equilibrando os clássicos com a aposta em autores contemporâneos. “Costumo dizer que a literatura tem dois caminhos: ou ela é um espelho, em que você lê e se identifica, ou é uma janela, que abre a possibilidade de conhecer outras vidas. Às vezes, aquela história não tem nada a ver com o que você vive, mas marca sua vida de tal forma que você nunca mais esquece.”
Um caminho até obras mais distantes
Essa estratégia fica evidente no projeto “Caminhos da Água”. Diante de turmas com média de 35 alunos, alguns dos quais chegaram a transformar livros em aviõezinhos de papel na primeira visita à biblioteca, Shirlei começou pela literatura caiçara e por autores locais. O percurso incluiu obras indígenas, a memória do território, o Rio Laranjal e a obra de Cândido Portinari, até culmentar no clássico “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.
“Eu trouxe Portinari para sensibilizá-los antes de chegar a João Cabral. E eles leram. Aplaudiram no final. Ficaram encantados. Se eu tivesse chegado e dado ‘Morte e Vida Severina’ ‘secamente’, não teria funcionado.” Depois da leitura mediada, os estudantes produziram histórias em quadrinhos, cartas, mapas e diários.
Carolina Maria de Jesus ocupa outro lugar de destaque nesse trabalho. Com a montagem da peça “O sonho de Bitita”, realizada no contraturno escolar, os estudantes venceram festivais e a professora conquistou a 3ª edição do Prêmio Professor Porvir na categoria educação antirracista.
Para Shirlei, apresentar Carolina também significa deslocar olhares sobre quem vive nas periferias. “Trazer Carolina é justamente trazer dignidade para as pessoas que moram na favela. Quando um aluno ou qualquer pessoa passar por uma favela, quero que imagine que ali existem várias Carolinas: mães solo procurando uma vida melhor e que têm sonhos.”
Autonomia leitora
Jeferson conta que tem refletido intensamente sobre a formação de leitores e sobre o papel da literatura na vida de pessoas negras, tema de seu próximo livro. Para ele, a leitura amplia a consciência social e racial, embora nem sempre ofereça uma experiência confortável. “Eu chego a escrever que a sina do leitor é se tornar triste, porque ele vai tomando consciência de si e das injustiças do mundo. E aí como é que você faz? O que é que você faz com isso? Com essa leitura e com essa literatura que vai te dizendo verdades?”, questiona.
Contudo, não se trata de uma tristeza paralisante. “Eu acho que sem a literatura seria pior. Sem se tornar leitor seria pior. E esse entristecimento, em certa medida, ele é bom, porque ele faz com que a gente tenha mais lucidez e tenha uma certa raiva organizada, de você querer fazer alguma coisa contra essas injustiças.”
Tornar-se leitor também mudou a maneira como Jeferson enxerga a si mesmo e aos espaços culturais. Aos 22 anos, quando entrou pela primeira vez em um museu em Porto Alegre (RS), lembra-se do sentimento de inadequação. “Tinha medo porque havia seguranças na porta dos museus e aquela porta suntuosa, grande, aquele prédio imponente, que a todo momento me dizia que eu não podia estar lá, que eu seria barrado.”
Com a literatura, a sensação era semelhante. “Quando eu ouvia falar em Machado de Assis, Lima Barreto, parecia justamente esse espaço e que não era para mim. Primeiro porque não me diziam que esses autores eram negros. Eu não sabia que existiam personagens negros. Então, a descoberta da leitura foi também uma descoberta, uma consciência racial também.”
Para Jeferson, ensinar alguém a ler literatura é diferente de desenvolver um leitor. A leitura é subjetiva e depende da experiência e da bagagem de cada pessoa. O professor pode chamar a atenção para elementos que passaram despercebidos, “iluminar o texto” ou mostrar o que está nas entrelinhas, mas isso não significa determinar como uma obra deve ser lida.
Formar leitores exige garantir o acesso. “Formar leitor significa primeiro colocar à disposição o acervo literário, seja em uma biblioteca, seja num festival literário, na escola ou na livraria, fazendo com que esse sujeito entenda que existem lugares e que esses lugares podem ser acessados por ele.”
Formar leitor é formar uma pessoa que seja autônoma, capaz de ser bibliotecária de si mesma, uma curadora de si mesma
JEFERSON TENÓRIO, ESCRITOR E PROFESSOR
O ponto de chegada é a autonomia. “Formar leitor é formar uma pessoa que seja autônoma, capaz de ser bibliotecária de si mesma, uma curadora de si mesma. Alguém que tem condições de escolher aquilo que ele quer ler por entender que os livros são importantes e são fundamentais para a vida.”
Essa formação também exige ampliar o repertório. “O professor talvez tenha que estar atento ao que está sendo discutido na sociedade, levar para sala de aula uma literatura mais diversa, de autoria negra, indígena, de mulheres e sem esquecer dos clássicos.” Para Jeferson, o desafio é fazer essas diferentes tradições literárias conversarem em sala de aula.
Do currículo à experiência de leitura
A literatura ocupou diferentes lugares nos documentos educacionais brasileiros. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) não detalha uma concepção de leitura literária. Nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) de língua portuguesa, de 1998, houve maior atenção à especificidade do texto literário e à formação do leitor. No ensino médio, essa abordagem perdeu espaço nos PCNEM (Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio) e foi retomada pelas OCEM (Orientações Curriculares para o Ensino Médio), em 2006.
Na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a literatura integra o campo artístico-literário. “A noção de leitura literária adquire maior centralidade, com uma mudança importante de ênfase: da especificidade do texto para a relação que o leitor estabelece com ele. Termos como fruição, experiência estética, implicação e leitor-fruidor sinalizam esse deslocamento”, explica Neide Luzia de Rezende, professora da FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo).
Para Neide, nenhum currículo produz leitores por si só. “Um currículo pode valorizar a formação do leitor, a fruição e a experiência estética, mas não pode produzir, por decreto, leitores. Entre a orientação curricular e a experiência efetiva de leitura existe a escola concreta.”
A experiência literária supõe também gratuidade, tempo, conversa, possibilidade de escolha e de confronto com leituras diferentes
NEIDE REZENDE, PROFESSORA
Nessa escola, nem toda leitura precisa ser imediatamente convertida em exercício ou avaliação. “A experiência literária supõe também gratuidade, tempo, conversa, possibilidade de escolha e de confronto com leituras diferentes.”
Para Neide, é nessa experiência efetiva que o direito se concretiza. “O direito à literatura só se realiza quando o estudante pode efetivamente ter uma experiência com ela.”
Direito não é sorte
As experiências da reportagem mostram a potência do trabalho docente, mas também apontam seus limites. “Se queremos falar da literatura como direito, é preciso começar reconhecendo que esse direito não pode depender apenas da iniciativa individual de um professor ou de uma escola”, afirma Neide.
De acordo com a professora da FEUSP, cabe às políticas públicas garantir as condições materiais: bibliotecas e acervos de qualidade e diversificados, programas de acesso ao livro, formação de professores e, sobretudo, continuidade dessas políticas. “A formação de leitores exige tempo; não combina com programas descontínuos que mudam a cada gestão.”
Depois de 18 anos em sala de aula, Jeferson descreve os limites enfrentados por professores que tentam desenvolver projetos inovadores. “É muito angustiante para um professor que tem vontade de fazer as coisas, de dar o seu melhor e esbarrar numa estrutura extremamente precária.”
Shirlei acrescenta que formar leitores demanda que o próprio professor continue ampliando seu repertório. “Não é fácil, muitas vezes é um trabalho solitário. Mas a intenção é tudo. Sei que é difícil falar isso porque a nossa vida é uma loucura, mas o professor precisa estar perto de exposições, de arte, dos livros. É uma vida inteira estudando. Ele tem que beber a arte.”
Neide sintetiza a dinâmica necessária: “A política pública garante as condições e a continuidade; a escola transforma a leitura em prática cotidiana; e o professor realiza a mediação que pode transformar o acesso ao livro em experiência de leitura.”


