Linguagem do palhaço leva escuta e empatia para cursos da saúde - PORVIR
Crédito: Johl Gouveia

Inovações em Educação

Linguagem do palhaço leva escuta e empatia para cursos da saúde

Criado no Centro Universitário São Camilo, projeto usa o humor para treinar médicos, biomédicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e terapeutas

por Marina Lopes ilustração relógio 23 de junho de 2017

Oficinas, jogos teatrais e momentos lúdicos. O que à primeira vista parece um curso de artes cênicas, na verdade faz parte do treinamento de turmas de medicina, biomedicina, enfermagem, fisioterapia, nutrição, psicologia e terapia ocupacional. Há seis anos, a inquietação de estudantes com a falta de espaço para trabalhar questões humanas e artísticas dentro de cursos da saúde motivou o professor Mauro Fantini, do Centro Universitário São Camilo, a criar o projeto de extensão Narizes de Plantão, que usa a linguagem do palhaço para desenvolver habilidades de escuta, conexão e empatia.

Para combater a velha reclamação de que um paciente recebeu atendimento, mas o profissional nem olhou no seu rosto, o projeto tenta mudar a percepção dos estudantes sobre as relações humanas dentro da área da saúde. Em contato com a arte do palhaço, eles são estimulados a passar por um processo de autoconhecimento que ajuda a melhorar o relacionamento com as pessoas.

“Na área da saúde, como médicos, nutricionistas ou fisioterapeutas, os alunos vão encontrar pessoas – e não apenas doenças. Então é muito importante trabalhar tudo isso”, diz o professor universitário, ao mencionar que, para atender aos pacientes, o desenvolvimento de competências socioemocionais é tão importante quando o domínio técnico.

narizes_plantao02Crédito: Johl Gouveia

O professor conta que, apesar de hoje ser usado como uma ferramenta educacional, o projeto teve início de forma despretensiosa. A partir das demandas apresentadas pelos estudantes, Fantini usou sua experiência como palhaço para organizar uma oficina. De encontros informais, surgiu a ideia de levar o treinamento a sério e aplicar os ensinamentos em visitas hospitalares. Em pouco tempo, o Narizes de Plantão já tinha se tornado um projeto universitário de extensão.

Com figurino, maquiagem e nariz de palhaço, hoje os estudantes fazem visitas semanais aos hospitais São Camilo, na unidade Pompeia, e São Luiz, na unidade Jabaquara, ambos em São Paulo (SP). No entanto, antes de sair a campo, eles passam por um treinamento de 16 semanas. “Basicamente, fazemos muitas oficinas baseadas em jogos teatrais. Os alunos descobrem o que é o palhaço para cada um e como eles lidam com o outro”, explica.

Durante as oficinas, os universitários precisam se conhecer melhor para construir o seu próprio palhaço. “Percebemos que essa linguagem ensina muitas coisas que a faculdade não traz. O palhaço é um verdadeiro especialista”, defende, quando exemplifica que ele tem facilidade para interagir e entrar em qualquer universo proposto.

narizes_plantao01Crédito: Johl Gouveia

A estudante Patrícia Mazzei, que está no sexto semestre de enfermagem, conta que o projeto ajudou a colocar em prática uma série de conceitos aprendidos durante o curso. “Quando eu entrei no terceiro semestre, já tinha visto muito sobre humanização, mas não tinha prática. Eu sabia as teorias da humanização, mas nunca tinha sentado para vivenciar como era olhar e escutar um paciente. Ninguém ensina isso na faculdade”, diz a universitária, que entrou no projeto em 2015 e hoje atua como uma das coordenadoras discentes do Narizes de Plantão.

Desde 2011, mais de 140 estudantes já passaram pelo projeto. Todo ano chegam novos participantes, como é o caso da Daniela Tibiriçá, que está no sexto semestre de medicina. “Quando se fala em palhaço, as pessoas lembram do Patati Patatá, que está sempre sorrindo. Dentro do Narizes de Plantão, aprendi que o palhaço é muito mais que isso. Ele dá abertura para conversar com a pessoa e perceber se ela está alegre ou triste. Você também precisa entender o momento que o paciente está vivendo, e não apenas o que você quer oferecer para ele”, destaca.

Ao avaliar o impacto do desenvolvimento socioemocional na área da saúde, Mauro Fantini diz que os professores de áreas clínicas observam nos estudantes maior facilidade na hora de se conectar com os pacientes. E, de acordo com ele, resultados também podem ser vistos no dia a dia da sala de aula. “Eu percebo diferença na coragem deles elaborarem uma apresentação de trabalho inusitada ou até mesmo perguntarem mais e admitirem que não estão entendendo.”

Para compartilhar essa experiência com outros profissionais e instituições, o Narizes de Plantão irá produzir um documentário sobre o palhaço como ferramenta educacional. Em uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Juntos.com.vc, o projeto arrecadou R$ 54.275 de 563 apoiadores.


TAGS

competências para o século 21, ensino superior, socioemocionais

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