Por que vale a leitura
- Descubra o que os estudantes esperam dos próximos governos.
- Entenda os fatores que ameaçam a permanência dos jovens na escola.
- Conheça as prioridades para melhorar a aprendizagem e ampliar oportunidades.
Aprender mais e melhor. Essa é a principal mudança que estudantes da rede pública esperam dos próximos governos. Eles querem professores presentes, aulas que facilitem a compreensão dos conteúdos e oportunidades de formação conectadas aos seus interesses. Embora sete em cada dez estudantes avaliem positivamente suas escolas, 36% já pensaram em interromper os estudos. O contraste mostra que gostar da escola nem sempre é suficiente para superar as dificuldades que ameaçam a continuidade da trajetória escolar.
Os dados são da pesquisa “O que os estudantes pensam sobre a Educação?”, realizada pelo Datafolha* com 5.296 jovens de 12 a 21 anos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio da rede pública estadual, nas cinco regiões do país. O levantamento mostra o que os estudantes valorizam na escola, os obstáculos que enfrentam no cotidiano e as mudanças que consideram prioritárias para melhorar a aprendizagem.
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Na pergunta espontânea sobre o que o próximo governador deveria mudar nas escolas públicas, 25% dos estudantes do ensino médio mencionaram melhorias no ensino e na aprendizagem. As respostas incluem a demanda por professores mais preparados, redução das faltas e mudanças nas estratégias utilizadas em sala de aula, com referências a “aulas diferentes” e “dinâmicas em salas de aula”.
“Os estudantes colocam as oportunidades de aprendizagem no topo de suas expectativas sobre o que é uma boa escola”, afirma Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação. Para ele, o início dos novos mandatos representa uma oportunidade para rever prioridades e acelerar a melhoria dos indicadores educacionais.
O levantamento reúne percepções sobre professores, convivência, permanência escolar, formação técnica, tempo integral e uso de tecnologia.
Para Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, os resultados mostram a importância de considerar a perspectiva dos estudantes na formulação das políticas educacionais. “A pesquisa revela que os estudantes têm consciência sobre o que é importante para a escola. Quando a aprendizagem aparece como prioridade e a formação técnica, a tecnologia, o tempo integral e a possibilidade de escolha ganham relevância, temos um recado claro para as políticas públicas.”
Professores no centro
A maneira como os professores ensinam está associada à avaliação que os jovens fazem da escola. Entre aqueles que consideram que os docentes explicam bem os conteúdos, 75% classificam a instituição como boa ou ótima. Entre os que discordam dessa afirmação, o percentual cai para 48%.
Essa diferença ajuda a compreender por que as expectativas para os próximos governos incluem formação de professores, mudanças nas formas de ensinar e maior presença de docentes. Para os estudantes, a qualidade da escola passa pelo que acontece durante as aulas e pelas condições para acompanhar os conteúdos.
A presença de professores, porém, ainda não está assegurada em todas as disciplinas ao longo do período letivo. No ensino médio, 66% concordam totalmente ou em parte que há disciplinas que ficam um tempo sem professor. Nos anos finais do ensino fundamental, são 61%.
A percepção desse problema é ainda mais elevada entre os jovens que avaliam negativamente a escola: 83% dos que a classificam como ruim ou péssima relatam disciplinas que passam períodos sem professor, frente a 59% dos que a consideram boa ou ótima. Nesse primeiro grupo, 60% também afirmam que os docentes faltam com frequência, percentual que cai para 30% entre os que avaliam positivamente a instituição.
Também há diferenças na percepção sobre a motivação dos docentes: 78% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental consideram que os professores estão motivados para dar aulas. Já no ensino médio, o número cai para 69%.
“Os jovens querem uma escola que faça diferença em suas vidas, amplie suas oportunidades e os prepare para o futuro. Atender a essa expectativa exige investir nos professores, garantir boas condições de ensino e oferecer percursos de formação que dialoguem com seus interesses”, afirma Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco.
O que mais afeta a escola?
Além das condições de ensino, a pesquisa identifica problemas que interferem na convivência e na experiência dos estudantes. A indisciplina em sala de aula está no topo das principais dificuldades apontadas pelos entrevistados, seguida por situações de bullying e humilhação e por problemas relacionados à internet, aos computadores e aos equipamentos.
O bullying aparece com maior frequência entre os estudantes dos anos finais do ensino fundamental, indicando a importância de políticas de prevenção e de ações de acolhimento nessa etapa.
As dificuldades de infraestrutura também variam entre os estados. Em São Paulo, por exemplo, 45% dos estudantes mencionam problemas com internet, computadores ou equipamentos. Já a falta de professores é mais citada no Sul do país, onde aparece entre os principais problemas para 36% dos entrevistados.
Atenção ao bem-estar
A avaliação predominantemente positiva das escolas convive com um sinal de alerta: mais de um terço dos entrevistados já pensou em interromper os estudos. Entre os motivos, aparecem cansaço, estresse e ansiedade, além da busca por trabalho.
Entre os estudantes que consideraram parar de estudar, 21% apontam como principal motivo trabalhar para conquistar independência financeira, e 17%, trabalhar para contribuir com a renda familiar. Esses percentuais se referem apenas ao grupo que cogitou abandonar a escola.
A percepção sobre a instituição também está relacionada a essa possibilidade. Entre os que a avaliam como boa ou ótima, 29% pensaram em parar de estudar. Entre os que a consideram ruim ou péssima, são 57%.
Aprendizagem, bem-estar e apoio financeiro são dimensões que precisam ser consideradas em conjunto. Nesse contexto, 55% dos entrevistados avaliam que o programa Pé-de-Meia ajuda muito os estudantes a continuar na escola.
Valorização x acesso
A possibilidade de aproximar a escola dos projetos de futuro aparece na valorização da formação profissional. Mais de 90% consideram importante ter a oportunidade de fazer um curso técnico ou profissionalizante durante o ensino médio.
O relatório contrapõe esse interesse ao alcance da oferta: segundo o Censo Escolar 2025, citado no documento, cerca de 20% dos estudantes do ensino médio estão matriculados na EPT (Educação Profissional e Tecnológica).
O interesse pela formação técnica também convive com a intenção de chegar à universidade. Entre os estudantes do ensino médio, 67% pretendem cursar uma faculdade no ano seguinte à conclusão dessa etapa, incluindo 41% que desejam conciliar o ensino superior com o trabalho.
Os resultados mostram que estudo e inserção profissional fazem parte de um mesmo horizonte para muitos jovens.
Tecnologia para os docentes
O uso de recursos digitais integra a rotina de grande parte dos entrevistados. Segundo a pesquisa, 70% afirmam que os professores utilizam tecnologia nas aulas pelo menos uma vez por semana. Entre os próprios estudantes, 71% dizem usar IA (inteligência artificial) para estudar, com frequência ou de vez em quando.
A presença dessas ferramentas vem acompanhada de dúvidas sobre como utilizá-las. Cerca de um em cada três estudantes discorda de que seus professores estejam bem preparados para usar tecnologia em sala.
“O desafio é garantir um uso cada vez mais pedagógico e responsável, com protocolos claros para o uso da IA nas redes de ensino”, afirma Lia Glaz, diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo. “Também é fundamental assegurar que as aprendizagens previstas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) da Computação cheguem, de fato, às escolas, como direitos de aprendizagem de todos os estudantes do Brasil. Para isso, é essencial fortalecer a formação dos professores para incorporar a tecnologia às práticas educacionais”, complementa.
Tempo integral
Entre os estudantes que frequentam escolas em tempo integral, 74% avaliam a instituição como boa ou ótima, ante 68% entre os que estudam no ensino regular. A diferença aparece tanto nos anos finais do ensino fundamental quanto no ensino médio.
Os benefícios percebidos incluem mais tempo para aprender, participação em atividades esportivas, artísticas e culturais e preparação para o futuro, o vestibular e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). As respostas ajudam a identificar quais experiências são valorizadas por quem já frequenta a jornada ampliada.
A ampliação da oferta também precisa considerar as condições de participação dos jovens. Entre os estudantes do ensino médio que não estão no tempo integral, 20% dizem trabalhar ou exercer alguma atividade remunerada.
Poder de escolha
No ensino médio, outro resultado destaca a importância de considerar os interesses dos estudantes. Entre aqueles que afirmam ter conseguido escolher plenamente um itinerário formativo alinhado ao que desejavam, 90% avaliam positivamente sua qualidade. Entre os que tiveram pouca ou nenhuma possibilidade de escolha, o percentual é de 43%.
Esse resultado ganha importância diante das mudanças no ensino médio aprovadas em 2024. A legislação passou a prever, como regra, a oferta de pelo menos dois itinerários formativos distintos nas escolas.
Mas a existência de diferentes percursos precisa vir acompanhada de informações, orientação e condições efetivas para que os estudantes possam fazer escolhas alinhadas aos seus interesses.
“Ouvir os jovens é fundamental para construir respostas mais conectadas à realidade das escolas e garantir condições para que cada estudante e futuro profissional avance em sua trajetória com qualidade, equidade e perspectivas concretas para o futuro”, afirma Patrícia Guedes.
O conjunto dos resultados oferece uma agenda para os próximos governos: garantir professores e boas condições de ensino, enfrentar problemas de convivência, apoiar a permanência, ampliar oportunidades de formação e considerar a participação dos jovens nas decisões.
Como destaca Gabriel Corrêa, do Todos Pela Educação, o momento de renovação dos governos exige “rever caminhos e repactuar compromissos” para melhorar a qualidade da educação.
*Sobre a pesquisa
A Fundação Itaú, a Fundação Lemann, a Fundação Telefônica Vivo, o Instituto Natura, o Instituto Sonho Grande, o Instituto Unibanco e o Todos Pela Educação encomendaram ao Datafolha a pesquisa “O que os estudantes pensam sobre a Educação?”.
O levantamento reuniu entrevistas presenciais e individuais com 2.647 estudantes dos anos finais do ensino fundamental e 2.649 do ensino médio da rede pública estadual, em pontos de grande circulação, entre 28 de maio e 13 de julho de 2026. A margem de erro máxima para o total da amostra é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Como a escola pode contribuir para o fortalecimento da democracia?
Produzido pelo Cenpec em parceria com o Coletivo Menina Cidadã, um minidocumentário acompanha estudantes do Centro Educa Mais Maria José Aragão, em São Luís (MA), em uma atividade pedagógica que articula leitura, debate e expressão artística para refletir sobre eleições, participação política e o papel do voto. A experiência integra o projeto Pare. Pense. Leia!. Assista ao minidocumentário.

