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A presença de professores negros em sala de aula não é apenas uma questão de representatividade visual: é um fator relevante para o sucesso acadêmico e profissional de estudantes negros. A conclusão aparece no estudo “Os impactos de curto e longo prazo de professores negros: evidências do Brasil”, publicado em novembro de 2025 pelo economista Pedro Lopes, pesquisador da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP).

Como um ex-estudante negro que nunca teve um professor negro no ensino básico, os dados da pesquisa me trouxeram reflexões sobre acolhimento, inclusão e pertencimento nos espaços escolares que frequentei. 

O impacto nos números

O estudo acompanhou estudantes (do 6º ano do fundamental e do 1º ano do ensino médio) ao longo de 12 anos. Os dados mostram que, para alunos negros no ensino médio, uma maior proporção de professores negros está diretamente ligada a um aumento na probabilidade de graduação e matrícula no ensino superior.

Mais do que o desempenho escolar imediato, o “efeito do professor negro” tem consequências de longo prazo. Os pesquisadores descobriram que esses ganhos educacionais se traduzem em vantagens reais no mercado de trabalho. Aos 27 anos, ex-alunos negros que tiveram maior contato com docentes negros apresentaram rendimentos mensais médios mais altos.

Os resultados sugerem que, se a proporção de professores negros nas escolas chegasse a 50%, aproximando-se da demografia da população brasileira, a desigualdade racial dentro das escolas poderia cair drasticamente. O impacto também apareceria na vida adulta: a desigualdade de rendimentos entre pessoas negras e brancas poderia diminuir cerca de 60%.

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Crédito: Tânia Rego/Agência Brasil

Caminhos apontados pela pesquisa

Uma das descobertas mais interessantes do estudo é sobre como ocorre esse impacto da presença de professores negros na vida de estudantes negros. Os pesquisadores investigaram se a melhora vinha apenas da qualidade da instrução em disciplinas específicas ou de algo mais amplo.

A análise mostrou que alunos negros expostos a professores negros em outras disciplinas apresentavam melhor desempenho até mesmo em matérias ministradas por professores brancos (como matemática ou português). 

Isso indica que o fator principal não é uma suposta qualidade didática nem uma atenção especial aos alunos negros em determinadas disciplinas, mas o papel do professor como modelo de sucesso para esses estudantes. Nesse sentido, professores negros elevam as expectativas desses alunos ao oferecerem exemplos de carreira, conduta e, muitas vezes, de transformação social.

Além disso, são esses profissionais que oferecem suporte emocional mais efetivo e reduzem a ansiedade gerada por estereótipos raciais, que muitas vezes colocam pessoas negras em espaços subalternos e de baixa capacidade cognitiva. O professor como modelo de saber desconstrói diretamente esse preconceito, servindo de exemplo, de forma consciente ou inconsciente, para esses alunos.

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O desafio da sub-representação

Em minha trajetória como professor, em todos os espaços escolares em que atuei, o número de professores negros era menor do que o de professores brancos. Em meus dois primeiros empregos em escolas de elite do Rio de Janeiro, eu era o único educador não branco daquele território. 

Nesses locais, a presença de estudantes negros também era minoritária. Nesse contexto, a relação de confiança e apoio construída com esses alunos foi especialmente significativa. Lembro de conversas sobre os conteúdos que eu lecionava, mas as trocas mais marcantes aconteciam em torno de saberes afrocentrados, como cuidados com a pele e o cabelo, além de dúvidas e angústias sobre estar em um ambiente majoritariamente branco.

Apesar de a população brasileira ser majoritariamente negra (cerca de 56%), os professores negros ainda são sub-representados em muitas escolas. Segundo a pesquisa “Professores da Educação Básica no Brasil: condições de vida, inserção no mercado de trabalho e remuneração”, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), professores negros representam 44% dos professores da educação básica. 

Um dos episódios mais simbólicos da minha carreira não veio diretamente da interação com um estudante, mas do pai de uma aluna, funcionário da escola havia décadas. Segundo a estudante, ele, também um homem negro, decidiu deixar o cabelo crescer pela primeira vez em anos naquele ambiente depois de perceber que eu usava o cabelo black.

Conto esse episódio para materializar que a representatividade constrói laços de confiança e afeto também entre os adultos. Muitas vezes essa identificação e acolhimento não atua de forma verbalizada, a presença e o exemplo já são suficientes para causar transformações. Ao pensar em estudantes, isso é ainda mais potente e possui efeitos de curto, médio e longo prazo, como é possível observar com os dados apresentados no estudo. 

A desigualdade é ainda mais visível nas lideranças escolares, em que a presença de pessoas negras é menor. Em todos os espaços em que atuei, cargos de coordenação e direção eram ocupados exclusivamente por pessoas brancas. O problema, porém, não se limita à educação. Segundo levantamento da Ipsos Brasil, empresa internacional de pesquisa de opinião e mercado, apenas 8% dos cargos de liderança no país são ocupados por pessoas negras.

Benefício para uns, sem prejuízo para outros

Outro ponto levantado pela pesquisa é que o aumento da representatividade negra no corpo docente não gerou impactos negativos para os estudantes brancos, seja no desempenho ou nas trajetórias desses alunos. Isso reforça o argumento de que políticas públicas voltadas para a diversidade docente são positivas para estudantes de modo geral, promovendo equidade e reduzindo desigualdades históricas. 

Para educadores e gestores, a mensagem da pesquisa é clara: a diversidade na contratação de professores é uma alavanca para melhores índices de aprendizagem, acolhimento e inclusão de alunos negros. Aumentar a exposição de alunos negros a modelos de sucesso semelhantes a eles pode ser uma estratégia eficaz para combater a persistente desigualdade de renda e oportunidades no Brasil.

Homem negro, professor e palestrante, com graduação em História e Geografia, Mestrado em História Social da Cultura, especialista em Diversidade e Educação das Relações Étnico-Raciais. É cofundador do Pré-Vestibular Social PECEP e atua como...