Soma de atores e divisão de responsabilidades para apoiar letramento e aprendizagem - PORVIR
Crédito: Allison Shelley/The Verbatim Agency for EDUimages

Inovações em Educação

Soma de atores e divisão de responsabilidades para apoiar letramento e aprendizagem

Mais do que leitura e escrita, processo de alfabetização e desempenho dos estudantes envolve múltiplas habilidades, diálogos e debates

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 8 de abril de 2022

“Muita gente se pergunta por que complicar algo tão trivial como aprender a ler e escrever. Nós ainda temos que explicar que esse processo não é tão simples e não basta aprender as letras.” A frase de Beatriz Cardoso, doutora em Educação pela USP (Universidade de São Paulo), fundadora e presidente do Laboratório de Educação, deu o tom da mesa “Apoiando o letramento e a aprendizagem nas diferentes áreas disciplinares nos anos iniciais do ensino fundamental.” 

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O debate aconteceu durante o seminário online “Como engajar estudantes e promover aprendizagem em profundidade no contexto pós-pandêmico?“, realizado entre 28 e 31 de março pelo Instituto Singularidades em parceria com a David Rockefeller Center for Latin American Studies, da Universidade de Harvard (EUA), com apoio da Folha de S.Paulo. 

Combinação de esforços 

Para Beatriz, o segredo para produzir avanços no processo de aquisição de linguagem de crianças mora na combinação e soma de conhecimentos pedagógicos e de gestão, de forma a indicar os atores, suas responsabilidades individuais e compartilhadas. Segundo a especialista, com base nisso será possível desenhar políticas mais aprimoradas e refinadas para enfrentar os gargalos atuais quando o assunto é desenvolvimento da linguagem. 

Mesmo que os indicadores de proficiência de leitura e escrita no Brasil estejam longe do ideal, Beatriz reforça que a desigualdade não mora apenas no fato de quem sabe ou não ler e escrever, sendo essa parte de um contexto maior, que é a percepção a respeito da introdução das crianças no mundo do conhecimento e da cultura letrada.

Dessa forma, é importante que as escolas compreendam se estão oferecendo ou negando as condições necessárias para que os alunos possam desenvolver as múltiplas competências atreladas à aquisição da linguagem. “Não é uma questão meramente técnica e prática, mas sim de colocar em ação a visão que temos do papel da escola e da formação de cidadãos. O que buscamos com tantos anos de escolaridade?”, questiona. 

Diante desse processo que é complexo e gradual, Beatriz reforça a importância de um esforço múltiplo e unido de diferentes atores, o que demanda intencionalidade pedagógica, planejamento e acompanhamento das situações de aprendizagem. 

Se essa combinação de esforços deve se dar dentro da escola, o mesmo vale para a articulação entre equipe pedagógica e famílias, explica Beatriz, uma vez que ambos espaços – família e escola – são responsáveis pela formação cognitiva, afetiva e social e da personalidade dos estudantes, mesmo que com atribuições diferentes. 

Ideia de processo e contextos intencionais

Interação e mediação são duas ações fundamentais quando o assunto é aprendizado da língua. Beatriz reforça que, ao mesmo tempo em que se aprende a língua em si, esse aprendizado é instrumento para que outras aquisições de conhecimento aconteçam, o que demanda ajuda e assessoria de adultos, que devem possibilitar os chamados contextos intencionais de aprendizagem. 

“Precisamos mudar o status de certas ações do dia a dia escolar e entender que elas são estruturantes. Ou seja, criar contextos intencionais significa olhar para situações normais e regulares e potencializá-las para criar contextos de atenção e de curiosidade em relação à linguagem das crianças.” 

Na educação infantil, com crianças bem pequenas, a especialista cita o exemplo de uma mãe conversando sobre as nuvens do céu com a criança. Já para alunos um pouco mais velhos, o livro se torna um importante aliado na aproximação com a linguagem a partir de novas histórias e conhecimentos. 

Avançando ainda mais, no fundamental 1 a linguagem ganha novo significado enquanto ferramenta para que os estudantes possam continuar a aprender sobre o mundo. Beatriz cita a pedagoga e doutora em psicologia Ana Teberosky, que criou o conceito de tarefas encadeadas, ou seja, uma infraestrutura de ensino e aprendizagem para que educadores possibilitem aos alunos todas as ações possíveis e necessárias diante do trabalho com texto: ler, comentar, analisar, escrever, escutar e visualizar. 

A linguagem em um mundo informacional 

Essas diferentes habilidades também foram abordadas por Paola Uccelli, doutora em Desenvolvimento Humano e Psicologia pela Universidade de Harvard e professora da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard, que também integrou a mesa. Para a especialista, desenvolver habilidades avançadas linguísticamente não diz respeito somente a um bom resultado na escola, mas sim à capacidade da criança e do jovem em desempenhar seu papel enquanto cidadão em um mundo informacional. 

“A leitura é um instrumento crucial para o autocrescimento, e para navegar numa sociedade, participar de processos políticos e nos mantermos saudáveis, é crítico podermos consumir as informações disponíveis”, defende. Entretanto, a pesquisadora expõe que, no mundo todo, inúmeros alunos não conseguem compreender os textos que leem na escola. 

Um estudo envolvendo 7 mil estudantes de 14 anos dos Estados Unidos mostrou que, no oitavo ano, apenas 46% deles entenderam corretamente o significado e uso de conectivos. No quarto ano, o índice ficou na casa dos 15%. 

Múltiplas habilidades em um processo complexo 

Ao observar que muitos estudantes não conseguem compreender nem mesmo trechos e frases que leem em voz alta, Paola defende que as atividades de reconhecimento de palavras, estratégias de compreensão de leitura e intervenções de vocabulário são estratégias válidas, porém insuficientes para engajar os alunos e promover aprendizagem aprofundada. 

Mais do que isso, é necessário pensar no que ela chama de “CALS (Core Analytical Language Skills)”, ou seja, em tradução livre, habilidades fundamentais de análise da linguagem. 

Paola também abordou as questões das desigualdades em sua exposição, reforçando a existência de evidências que mostram que a atenção à linguagem é crucial para atingir equidade e excelência na aprendizagem, engajando os estudantes em aprendizados aprofundados. Para isso, um caminho possível e aconselhável, segundo a educadora, é aproveitar os conhecimentos prévios e múltiplas experiências e culturas que crianças e jovens levam para a escola. 

“Os alunos vão para a escola com conhecimentos aprendidos no dia a dia e habilidades de conversação. Os textos pedagógicos, muitas vezes, apresentam conteúdos novos em uma linguagem que, para muitos, é bastante diferente do que estão acostumados”, expõe a especialista. 

“Sem tratarmos dessa imensa variabilidade nas habilidades de linguagem que os alunos trazem para as escolas será muito difícil mudarmos as iniquidades já existentes em nossa sociedade. Precisamos, portanto, focar na linguagem, nessa transformação para oferecermos oportunidades equitativas de aprendizagem e crescimento.”

Debater para aprender 

Um aspecto central nos estudos e pesquisas que Paola tem desenvolvido e participado ao longo dos anos diz respeito à importância de os estudantes participarem de debates, rodas de conversa e discussões em sala de aula, e como esses momentos potencializam o processo de melhoria da leitura e escrita. 

Entretanto, as desigualdades se fazem presentes até mesmo nessas estratégias. Segundo a especialista, pesquisas já chegaram a evidenciar que estudantes com menor desempenho acadêmico têm, em média, menos tempo de discussão em sala de aula do que os grupos de alunos com alto desempenho. 

Fique por dentro 
Os quatro debates do Seminário “Como engajar estudantes e promover aprendizagem em profundidade no contexto pós-pandêmico?” estão disponíveis no canal do Instituto Singularidades no YouTube. Confira


TAGS

alfabetização, educação infantil, ensino fundamental

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