Coronavírus dá origem a debate online sobre peste negra, discurso de ódio e fake news - PORVIR
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Diário de Inovações

Coronavírus dá origem a debate online sobre peste negra, discurso de ódio e fake news

Alunos do sétimo ano compararam as duas doenças e puderam aprender a importância do embasamento teórico e verificação de informações no combate às fake news.

Parceria com EducaMídia

por Gislene Lacerda ilustração relógio 24 de junho de 2020

Sou professora de história e desenvolvi uma atividade envolvendo fake news, discursos de ódio, coronavírus e peste negra com estudantes de um colégio da rede privada de São Paulo. Duas coincidências me levaram a essa ideia. Primeiro: eu já estava trabalhando Idade Média com os alunos e, para encerrar o tema, deveria debater a peste negra. Eles estavam super curiosos porque o assunto está na mídia e muita gente faz a comparação com o coronavírus.

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Perguntas disparadoras da atividade

Além disso, terminei recentemente um curso com a Educamídia, onde eu deveria preparar uma proposta de plano de aula envolvendo a questão das mídias. Fiquei instigada a juntar as duas coisas e planejar algo que pudesse de fato aplicar.

Pesquisando sobre a peste negra, cheguei à questão do discurso de ódio que existia contra os judeus. Como eles se contaminavam menos por conta de cultura de higiene e da religião, eram acusados de serem responsáveis pela doença e de envenenarem poços para as pessoas ficarem doentes. Muitos foram mortos e outros perseguidos.

Diante disso, fiz um bloco de aulas discutindo as duas pandemias com os alunos. Aproveitamos essa possibilidade da história de trabalhar o passado e o presente e discutimos o que é cada doença. Em seguida, fiz um momento dedicado especialmente às fake news. Gravei uma aula com uma apresentação de PowerPoint e, no final, fiz alguns questionamentos e propus uma reflexão.

Apresentei o caso da peste negra juntamente com um tweet do deputado federal Eduardo Bolsonaro, no qual ele acusava a população chinesa de ser responsável por espalhar o coronavírus, e também a resposta do embaixador da China no Brasil. Com isso, questionei se os alunos acreditavam que as fake news são um fenômeno atual. A partir daí, fiz a conexão com o passado e mostrei que os judeus também eram acusados de forma semelhante.

Apresentei uma notícia da OMS (Organização Mundial da Saúde) que afirmava a comprovação da origem natural do coronavírus, ou seja, não era uma doença inventada pelos chineses, o que abriu uma problematização sobre como devemos buscar referências corretas.

Depois dessa apresentação, propus que os alunos utilizassem o Flipgrid, um aplicativo como se fosse um TikTok da educação, para que gravassem um vídeo de um minuto e meio comparando os dois momentos históricos e explicando por que é importante combater fake news, principalmente sobre o coronavírus. Em seguida, realizamos algumas discussões em uma videoconferência com a sala toda.

Os alunos foram muito receptivos tanto à proposta como ao tema em si. Eles se envolveram na reflexão durante a produção dos vídeos e na discussão geral. Um aluno comentou que não dava para negar que os chineses são culpados. Foi uma boa colocação, pois aqueceu o debate e permitiu que discutíssemos pontos como a diferença entre o que é natural e a fabricação de um vírus como arma biológica.

Além disso, esse trabalho foi importante porque eles têm uma compressão sobre fake news mas não aplicavam muito o conhecimento. Com a atividade, começaram a problematizar como isso pode ser perigoso, ampliando para questões além do discurso de ódio, como também a divulgação de dados pessoais na internet ou pessoas que afirmam ter achado a cura para o coronavírus.

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Galeria de atividades dos alunos no Flipgrid

Entramos no mérito da importância de buscar a fonte e informações referenciadas. Com isso, a minha comparação se tornou importante para que eles entendessem que, na Idade Média, não havia uma ciência na qual se referenciar como a que temos hoje. Assim, discutimos a necessidade de ter a ciência como referência de informação.

Também pontuei que as redes sociais, por exemplo, estão cheias de informação, mas que, muitas vezes, essas informações são mais desinformações, o que reforça nosso dever de questionar a fonte, a origem, quem está dizendo, de qual lugar está dizendo e com que intenção, seja em um jornal que circulava na Idade Média acusando os judeus pela peste negra, seja hoje no twitter do deputado federal.

É importante que os alunos saibam diferenciar o que é opinião e o que é informação para que realmente consigam problematizar e se colocar como sujeitos no mundo, como alguém que percebe as construções e intencionalidades, e que não seja manipulável, independente de quem queira manipular, não só os políticos, como empresas, o comércio, enfim, há muitas intencionalidades”.

 

 

 

 


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Gislene Lacerda

É graduada e mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua como professora de História no ensino básico há 12 anos. Atualmente, leciona na rede privada de São Paulo no Colégio Santa Marcelina e Escola Lourenço Castanho.

TAGS

aprendizagem baseada em projetos, educação midiática, ensino fundamental, tecnologia

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