O uso de games na matemática por alunos brasileiros - PORVIR

Inovações em Educação

O uso de games na matemática por alunos brasileiros

Em artigo para o Porvir, fundador do site Mangahigh,Toby Rowland destaca habilidade para resolver problemas de jovens do Brasil

por Toby Rowland ilustração relógio 5 de setembro de 2013

Num laboratório de informática pequeno e abafado em uma escola perto do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, dois alunos do quinto ano olham atentamente para a tela de um computador antigo. Eles tocam a máquina enquanto falam animadamente, dando sugestões de como seguir na atividade e medindo espaços. Os alunos estão aprendendo Teorema de Tales numa aula de matemática e a razão de tanta animação é que eles estão calculando os ângulos do triângulo não de um jeito tradicional, mas em um jogo.

Eu, que sou do Reino Unido, um lugar onde as crianças são mais quietas e, muitas vezes, têm dificuldade de trabalhar em grupo, fico surpreso com quão bem essas crianças se comunicam, abordam os problemas que lhes são colocados e colaboram efetivamente para resolvê-los. Na medida em que os alunos vão enfrentando obstáculos e comemorando sucessos, a sala de aula se enche de uma energia positiva.

crédito Marek / Fotolia.com

A matemática no Brasil é um quebra-cabeças. Em um país com tantas vagas para engenheiros e técnicos, por que será que o desempenho em matemática do Brasil está tão atrás de outros países do mundo? Não é segredo que o desempenho em matemática dos alunos brasileiros é pífio, com o pior cenário no ensino médio. Mas o problema começa antes. A prova ABC, que avalia alunos de 9 anos de 2o e 3o anos (no fim do ciclo de alfabetização), mostrou que 71% das crianças não têm o nível adequado de conhecimento em matemática. No fundamental 2, esse gargalo aperta ainda mais e contribui para o desempenho ruim do ensino médio, o que frustra governantes e traz um desafio para para o ensino superior. A origem do problema é diversa e inclui gestão irregular na educação, a qualidade e a disponibilidade de programas de desenvolvimento para professores e resistência dos alunos para disciplinas de Stem [sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática].

Waldeck Schutzler, professor de matemática na Universidade Federal de São Carlos, comenta:  “Existe um consenso entre os professores de que a maior parte do problema está na falta de professores de matemática na maior parte do país. Pesquisas recentes mostram que hoje faltam 80 mil professores. Por isso, educadores sem uma formação específica são contratados para ensinar matemática. São profissionais com habilidades pedagógicas, mas sem um importante aspecto dessa competência: uma base teórica forte”.

Minhas próprias observações reunidas a partir das visitas a escolas do país nos últimos dois anos sugere que, comparados com alunos do equivalente ao fundamental 2 em outros países, estudantes brasileiros não gostam muito de aulas dadas em um estilo seco, em um formato mais tradicional, sobretudo nas disciplinas mais difíceis. E os brasileiros não têm muita noção dos benefícios profissionais que o sucesso em matemática e ciências lhes pode trazer.

Nossas conclusões preliminares confirmam que ainda há muito espaço para a melhora da matemática nos ensinos fundamental e médio

Visitei o Brasil pela primeira vez em 2010. Falando muito pouco de português, fiz um tour pelas escolas do Rio de Janeiro. Na ocasião, encontrei alunos entusiasmados e professores dedicados em instituições de ensino que tinham boa infraestrutura. Fui convidado a entender não só como o ensino de matemática dessas escolas poderia ser melhorado com recursos on-line, mas também para dar ideias de como o desempenho dos alunos poderia melhorar.

Nossa empresa opera um site de matemática, o Mangahigh, que é muito popular nos EUA, no Reino Unido e na Austrália, locais onde temos cerca de 1 milhão de usuários por mês. Nesses lugares, conseguimos melhorar o desempenho pelo uso de games on-line de matemática e competições gamificadas. Essa abordagem poderia ser relevante no Brasil.

Como eu fui percebendo nas salas de aula do Rio, alguns educadores já tinham começado a usar games e técnicas de pesquisa com a lógica de game para instigar seus alunos a se intrigarem com os conceitos matemáticos. Em uma das aulas que assisti, o professor desafiou seus alunos a pensar sobre formas geométricas a partir dos padrões do tangram. Apesar do ritmo da aula ser mais relaxado do que das aulas que eu já assisti, por exemplo, na Índia, realmente me vi gostando da aula e refletindo sobre a natureza e a relação das formas que compõem o tangram. Percebi ali que um ensino híbrido [on-line e offline] de consolidação poderia ser útil para esse tipo de trabalho conceitual. Então embarcamos nesse grande projeto que era implementar o currículo brasileiro de matemática em língua portuguesa na plataforma Mangahigh.

Nossa fase piloto começou em julho de 2012, depois de termos traduzido mais de 60 mil questões e 17 games para português. Agora temos cerca de 200 escolas usando ativamente a plataforma no Brasil. Os estudantes dessas escolas geram um grande volume de informação interessante, de forma que podemos comparar seu desempenho/comportamento com o de milhares de estudantes que usam Mangahigh pelo mundo. Dado que temos entre 2 e 3 milhões de questões respondidas diariamente na plataforma fora do Brasil, esperamos conseguir gerar importantes insights na medida em que crescemos no país.

Ficamos surpresos também com o nível de competição das escolas brasileiras, que estão sempre muito bem colocadas internacionalmente entre as 10 com melhores resultados

Nossas conclusões preliminares confirmam que ainda há muito espaço para a melhora da matemática nos ensinos fundamental e médio. A média dos estudantes brasileiros na plataforma é 24% inferior à internacional. No entanto, há motivos para sermos otimistas. Percebemos que os estudantes brasileiros tendem a se engajar mais do que estudantes de qualquer outro lugar, com visitas 40% mais longas do que a média internacional. Esse envolvimento maior é marcante também individualmente, como estudantes como Sara Tostes, da escola Sesi Itaperuna (Rio de Janeiro). A jovem, então no sexto ano, dominou 193 habilidades matemáticas (1/3 de todo o currículo) em um período de cinco meses. Só para se ter ideia do que isso significa, esse número representa 70% do currículo do ensino fundamental e 20% do médio no Mangahigh.

Estudantes brasileiros são persistentes em buscar conquistas em matemática. Enquanto a média internacional de tentativas para dominar uma habilidade matemática é de 3,1, estudantes brasileiros fazem 8,6 tentativas. E persistência, em matemática, compensa. Quando os alunos se dedicam à matemática, de fato eles melhoram na disciplina.

Ficamos surpresos também com o nível de competição das escolas brasileiras, que estão sempre muito bem colocadas internacionalmente entre as 10 com melhores resultados. Também é importante ressaltar que alunos de outros países normalmente têm mais fácil acesso a estruturas de tecnologias da informação e da comunicação. Nós também percebemos que os estudantes brasileiros têm um espírito de coletividade muito forte e normalmente se organizam para defender sua escola nas competições. Esse entusiasmo resultou em algumas vitórias suadas em competições de matemática bilaterais com outras escolas Mangahigh.

Por exemplo, em agosto, estudantes da Escola Sesi Piatã – Djalma Pessoa (Bahia) dominaram 2.424 habilidades matemática em uma única semana, contra apenas seis dominadas por sua escola oponente. Andrea Santos Bento, professora da escola, comentou: “Percebemos que os alunos que antes ficavam para trás acabaram se motivando, atraídos por ouvir o entusiasmo de outros”.

Uma atitute positiva para com a matemática é o primeiro passo para melhorar o desempenho dos alunos nas provas. Isso tem sido visto em escolas que usam a Mangahigh pelo mundo. O exemplo mais recente é o da Featherstone High School que fica em Southall, no Reino Unido. Depois de três anos usando nossa plataforma, boas notas no GCSE (uma prova que os alunos fazem aos 16 anos na Inglaterra) foi de 55% para 80%.

Professores de matemática sabem que o interesse estimula a prática, que a prática leva para o progresso, o progresso traz autoconfiança e persistência na solução de problemas. Pelo Brasil, aulas de matemática têm sido reinventadas pelo uso de games. Um dia será possível dizer com mais propriedade que o uso de games é capaz de melhorar o desempenho das escolas no Ideb.

De volta para a escola perto do Santos Dumont, o professor tenta convencer os alunos a irem embora, mas não é fácil. Debruçados sobre os computadores, os alunos pedem um pouquinho mais de tempo porque estão quase resgatando a última aranha, animal escolhido para divertir o jogo sobre o Teorema de Tales. Mas com a temperatura de 28o aumentada significativamente pelo calor dos computadores antigos e dos cérebros em ação, fico feliz de ser a hora de respirar um ar fresco, otimista com o futuro da educação de Stem no Brasil.

 


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